Quando o vazio de afetos é preenchido pela Baleia Azul

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Imagem: Rota Jurídica

Jogos macabros sempre existiram no lado oculto da internet. Isso se o puder chamá-los de jogos, uma vez que não possuem nada de divertido. Na verdade, acabam por gerar isolamento social, comprometimento escolar, episódios de automutilação e, até mesmo, o aumento de ideações e comportamentos suicidas. Por outro lado, jogos construtivos são criados para entreter, desenvolver habilidades cognitivas e educar para aptidões motoras, inclusive em terapias psicológicas com crianças e adolescentes (ABREU et al, 2008, p. 157).

Relatos escassos, iniciados na Rússia, em 2015, dão conta de uma prática infanto-juvenil chamada pelo nome de ‘Baleia Azul’. Em pouco tempo a mesma tem se espalhado mundo a fora, preocupando pais, psicólogos, psiquiatras e autoridades. Trata-se um instrumento virtual sádico, conduzido dentro das redes sociais, principalmente em grupos fechados, cheios de desafios que estimulam ao suicídio e chantageiam aqueles que não cumprem as tarefas ali impostas.

Os promotores da ferramenta, denominados ‘curadores’ ( ? ), chegam a ameaçar as vítimas de morte, incluindo também os familiares delas. À medida que determinada tarefa é executada a vítima tem que enviar uma foto atestando que aquela atividade desumana lhe foi cumprida. Os desafios são variados. A maioria deles é mórbida. O primeiro consiste em escrever a sigla ‘F57’, com uma navalha, na palma da mão. O último tem por objetivo a retirada da própria vida. Algo que assusta pelos requintes de crueldade.

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Analisando o fenômeno em si, sem fazer qualquer juízo de valor a casos específicos, por uma questão de ética profissional, tem-se a impressão de que, por detrás dessa curadoria clandestina há a perversão de quem se satisfaz subjugando aos outros. Uma ação monstruosa, cujo prazer depende inteiramente do sofrimento psíquico e físico de pessoas em estado de vulnerabilidade emocional. “Vários estudos têm demonstrado que criminosos psicopatas apresentam histórico de violência gratuita, com atos extremos de violência, como sadismo, crueldade e brutalidade” (SERAFIM, 2009, p. 109).

Mães e pais suficientemente bons lutam pela felicidade de seus filhos. Ainda assim, muito dessa luta costuma ser empregada de maneira pragmática, não raras vezes, associada ao pensamento de que eles devem ser bem sucedidos. Por isso, precisam estudar muito se quiserem ser alguém na vida. Até aí tudo bem.

Todavia, alguns pais não percebem que — acima da escola, do futebol, do inglês, da natação e do balé — está o afeto que não pode ser excluído da convivência familiar. Afeto pressupõe presença, cuidado e limite.

Isso também serve para as crianças empobrecidas que passam parte do dia, tomando conta dos irmãos mais novos ou inseridas em escolas de tempo integral. Nos piores casos, marcados pela mordida da pobreza devido à injustiça social, há aquelas que ficam longe do afeto de suas casas, pedindo por donativos nas ruas. Crianças estão em processo de desenvolvimento físico e psíquico. Como tal, quanto mais novas são, maior a necessidade pela presença de cuidadores que possam apará-las, sustentá-las, provê-las e educá-las até que atinjam a independência.

É possível que o excesso de responsabilidades, bem como a ausência de presença materna e paterna, deixe um ‘vazio’ na estruturação da personalidade dos menores. Esse suposto vazio afetivo pode ser a porta de entrada para a ‘Baleia Azul’. Quem não se sente pertencente a uma família pode buscar esse pertencimento em grupos virtuais de jogos suicidas. É uma maneira, das mais equivocadas, para se sentir visto e reconhecido.

Logo, é tão importante acompanhar a vida dos filhos sem possessividades. Afinal de contas, ninguém é proprietário da vida de ninguém, nem mesmo dos próprios filhos. Cuidado pressupõe respeito, não domínio. Cuidado pressupõe amparo, não invasões. Cuidado pressupõe liberdade com responsabilidade sempre. Ademais, é fundamental comparecer à escola, sem ridicularizar as dificuldades dos filhos. Ser atento às manifestações de bullying que tanto mal fazem: desde a infância à vida adulta.

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Por conseguinte, faz-se salutar apresentar-se como um modelo ético para que os filhos possam se espelhar nos cuidadores, apesar das falhas inerentes dessa identificação. Só não se esqueça de que, antes de exigir, é preciso dar o exemplo. “A necessidade de fazer exigências aos outros é produto de um comodismo infantil e deve ser substituída por uma responsabilidade mais pessoal” (JUNG, 1971, p. 79).

Mães e pais não são absolutos, muito menos perfeitos. Ao contrário, podem sim errar e cometer enganos. Reconhecido o equívoco é necessário pedir desculpas e, nos casos mais graves, solicitar o perdão. Isso não mina, mas ao contrário, reforça a autoridade de quem cuida e ama.

A maternidade, a paternidade e a filiação não vêm com manual de instruções. Eis um aprendizado diário. Ali só se aprende sendo-o de fato. No lugar de proibir por proibir, é indispensável explicar o porquê dessa proibição, inclusive para que os filhos aprendam que não podem tudo. Mas, a proibição só tem sentido se for empregada para gerar responsabilidade, criar consciência e educar para o limite. Em vez de vasculhar a vida dos filhos, traga-os para perto. Faça-lhes compreender que são aceitos e podem contar tudo aos pais, pois neles devem confiar.

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Igualmente, faça-os saber que mães e pais podem usar de programas específicos para visualizar o que eles realizam na internet. Estipule horários para o acesso às redes sociais e à internet como um todo. Não deixem os filhos trancafiados nos quartos sem saber com quem ou o que fazem por tanto tempo em seus smartphones. O exagero virtual, o isolamento da família, a desmotivação para os estudos, a apatia diante da vida e as oscilações de humor são traços depressivos que precisam ser avaliado por um psicólogo. Não permita que criminosos utilizem desses sintomas para destruir a vida dos seus filhos. Ao invés de presentes, seja presente!

Paulo Crespolini — Psicólogo — CRP 06/132391, Graduado em Filosofia e pesquisador em Psicologia Analítica.

REFERÊNCIAS

ABREU, C. N. et al. Dependência de Internet e de jogos eletrônicas: uma revisão. In: Revista Brasileira de Psiquiatria. São Paulo, v. 30, n. 2, p. 156–167, 2008.

JUNG, C. G. A prática da psicoterapia. Tradução de Maria Luiza AppyEdgar Orth. Petrópolis: Vozes, 1971, p. 79.

SERAFIM, A. P. et al. Perfil psicológico de agressores sexuais de crianças. In: Revista de Psiquiatria Clínica. São Paulo, v. 36, n. 3, p. 105–111, 2009.