Se existe alma gêmea, então, é a minha
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Relacionamentos são feitos para partilharmos os nossos inteiros, não para preenchermos os nossos vazios. Precisaríamos nos encontrar primeiro, antes de nos buscarmos em outras metades irreais. Quem chega diante de nós deveria vir para acrescentar, não para nos arrematar. A laranja continuará à procura da sua outra parte, em vão, enquanto não se reconhecer completa. O balaio se cansará de tanto correr atrás da sua tampa até percebê-la em si. A alma, enquanto força que nos move, é única no mundo. Sua beleza e inteireza a faz distinta de todas as outras. Não há espaços para gêmeas. Só para a individualidade.
Da individualidade nasce o amor que nos faz enxergar ao outro tal qual ele assim o é. Daí deriva também o compromisso maduro “que seria a decisão de amar ao outro e […] de manter esse amor” (BUTION; WECHSLER, 2016, p. 78). O mesmo não se pode dizer da doação sem limites, da ausência de reciprocidade, da submissão permanente e do medo da separação. Eles são sintomas de um adoecimento profundo, desumano e perverso que ressoa como dependência afetiva.
Uma condição psíquica, possivelmente, “gerada por um vínculo malformado com a principal figura de apego na infância, provocando transtornos nos relacionamentos da vida adulta, onde a pessoa procura no outro, o suprimento do afeto inexistente” (FABENI et. al, 2015, p. 41).

De todas as relações humanas, o amor parece ser a mais emancipadora. Já a dependência, a mais avassaladora. No amor pressupõe-se a existência recíproca de um ‘EU’ e um ‘TU’. Em contrapartida, na dependência, o ‘EU’ devora esse ‘TU’. Pensa ser ele o sujeito único da relação. Sem perceber, o dependente está comprometido apenas consigo. A relação gira em torno de suas vontades mais primitivas, não por egoísmo, mas por necessidade vital.
Por detrás dos relacionamentos dependentes estão as projeções mais profundas da alma humana, lançadas sobre a força da paixão, que é “sempre dirigida às nossas projeções, às nossas expectativas, às nossas fantasias. Na verdade, não é amor que se sente por uma pessoa, mas o que sentimos por nós mesmos” (JOHNSON, 1987, p. 258).
Como se vê na dependência há até uma dose de romance, mas muito pouco dele aponta para o amor gratuito e mútuo. Acredita-se estar apaixonado pelo outro, quando, na verdade, a paixão é privilegiada por si.
Dois amantes se aproximam tendo em conta duas histórias diferentes no desenvolvimento, opostas na identidade e singulares na vivência. ‘Dois’ não deveria se transformar em ‘um’. O mecanismo psíquico pelo qual duas pessoas distintas tornam-se idênticas é chamado de simbiose. Um processo, não raras vezes inconsciente, no qual um se confunde na pessoa do outro. Ali já não se enxerga mais quem é quem. Tudo é turvo e confuso. A simbiose traz uma série de conflitos psíquicos. Dentre eles destacam-se:
“Dificuldades de desenvolvimento, confusões de identidade, falta de criatividade, depressão, tendências suicidas […]. Em casos extremos de uma simbiose regressiva, a pessoa pode querer retornar ao útero ou simplesmente morrer — desejos que podem aparecer em tendências suicidas ou problemas psicossomáticos” (KAST, 2006, n. p.).

Talvez, aí esteja uma necessidade inconsciente de repetir as dores do passado como uma forma de resolvê-las no presente. A repetição costumar ser falha, pois a escolha é por alguém insensível, indiferente, agressivo, dominador e, até mesmo violento. Quando mal percebe a pessoa se vê na mesma situação sofrida de sempre. É o famoso jargão do dedo podre.
Essa busca insaciável pelo outro parece esconder o medo do abandono que resulta em solidão. A angústia da perda gera a figura do dependente emocional que “tende a ser possessivo e tem medo de ser abandonado, além de ser mais impulsivo e ciumento” (BUTION; WECHSLER, 2016, p. 88). E, assim, o que deveria ser um ninho de afetos se transforma em uma gaiola que aprisiona a todos.
O amor saudável nos ensina que as pessoas não podem ser utilizadas para suprirem as carências da alma humana. Os pares não deveriam se envolver por necessidade, mas para dividirem os seus inteiros.

Posto isso, reconheçamos de uma vez por todas que a felicidade habita dentro de nós. Ela jamais poderá ser encontrada, sequer depositada, no outro. Se assim o for corremos o sério risco de perdermos a nós mesmos e, talvez, a oportunidade de sermos mais plenos e menos adoentados nesta vida. Finalizo com os sábios são os dizeres da poetisa goiana, Cora Coralina: “Não te deixes destruir… Ajuntando novas pedras […]. Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça” (CORALINA, 1987, p. 139).
Paulo Crespolini — Psicólogo — CRP 06/132391, graduado em Filosofia e pesquisador em Psicologia Analítica.
REFERÊNCIAS
BUTION, D. C.; WECHSLER, A. M. Dependência emocional: uma revisão sistemática de literatura. In: Estudos Interdisciplinares em Psicologia. Londrina, v. 6, n. 1, jun., p. 77–101, 2016.
CORALINA, C. Em vintém de cobre meias confissões de Aninha: poesia, sementes e frutos. 4ª ed. Goiânia: UFG, 1987, p. 139.
FABENI, L.; SOUZA, L. T.; LEMOS, L. B.; OLIVEIRA, M. C. L. R. O discurso do “amor” e da “dependência afetiva” no atendimento às mulheres em situação de violência. In: Revista do NUFEN. Belém, v. 7, n. 1, p. 32–47, 2015.
KAST, V. A ansiedade e formas de lidar com ela nos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 2006, n. p.
JOHNSON, R. A. We, a chave da psicologia do amor romântico. São Paulo: Mercuryo, 1987, p. 19 e 258.
