O Fantástico e a humpty-dumptyzação do jornalismo

Foi emblemática — para não dizer diabólica — a utilização enviesada da história de Alice, pelo Fantástico, o magnum opus ideológico da Rede Globo, para falar do que chamou de “mulheres trans”. A matéria começou com uma frase que, em circunstâncias normais, seria encarada como um distúrbio psíquico: “fulana nasceu num corpo de menino…”. Ao ouvir isso, logo pensei em um idoso sentindo-se uma criança de 5 anos, ou num jovem que, sei lá, pensa ser um ovo. E, falando em ovo, logo me lembrei de Humpty Dumpty, o Ovo falante de Alice Através do Espelho, a continuação de Alice no País nas Maravilhas, de Lewis Carroll. O famoso diálogo, do ovo matreiro com a garota perdida no País das Maravilhas, representa exatamente a maneira criminosa que o Fantástico (no papel de Humpty Dumpty) utiliza para tentar nos convencer de tamanha absurdidade: dar às palavras o sentido que querem! Sim, eles foram ironicamente denunciados por Lewis Carroll ainda em 1865! Confiram:

[…]
 — Quantos dias há no ano? — perguntou Humpty-Dumpty
 — Trezentos e sessenta e cinco — disse Alice.
 — E quantos aniversários você faz?
 — Um.
 — E se diminui um de trezentos e sessenta e cinco, resta quanto?
 — Trezentos e sessenta e quatro, claro.
Humpty Dumpty pareceu duvidar. 
 — Preferiria ver essa conta no papel — disse. Alice não pôde conter um sorriso enquanto pegava sua caderneta e armava a subtração para ele. Humpty Dumpty pegou a caderneta e examinou-a atentamente:
 — Parece estar correto… — começou.
 — Está segurando de cabeça para baixo! — Alice interrompeu.
 — Claro que estava! — Humpty Dumpty disse jovialmente, enquanto ela a desvirava para ele.
 — Pareceu-me um pouco estranho. Como eu ia dizendo, parece estar correto, embora eu não tenha tido tempo de examiná-la a fundo neste instante; e isso mostra que há trezentos e sessenta e quatro dias em que você poderia ganhar presentes de desaniversário…
 — Sem dúvida — disse Alice.
 — E só um para ganhar presentes de aniversário, vê? É a glória para você!
 — Não sei o que quer dizer com ‘glória’ — disse Alice.
Humpty Dumpty sorriu, desdenhoso.
 — Claro que não sabe… até que eu lhe diga. Quero dizer ‘é um belo e demolidor argumento para você!”.
 — Mas “glória” não significa “um belo e demolidor argumento” — Alice objetou.
 — Quando eu uso uma palavra — disse Humpty Dumpty num tom bastante desdenhoso — ela significa exatamente o que quero que signifique, nem mais nem menos.
 — A questão é — disse Alice — se pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.
 — A questão — disse Humpty Dumpty, — é saber quem manda, só isto.

(CARROLL, Lewis. Alice através do espelho)

Like what you read? Give Paulo Cruz a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.