Desde que eu ouvi sobre esses rolezinhos, sabia que tinha uma coisa mais forte por trás disso. Tá na cara que os jovens pretos e pobres não têm muitas opções de lazer que atendam suas expectativas. Tava na cara também que uma nova geração de jovens brasileiros estava sendo formada — só pegar o funk ostentação como exemplo. Os shoppings, que desempenham um papel social importante na vida dos brasileiros, foram o ‘alvo’ da vez.
Daí já era né, mulecada de férias, redes sociais bombando, sem nada pra fazer, decidiram ir dar um “rolezinho” nos shoppings. Normal né? Não. Primeiro porque são jovens da periferia, em sua maioria negros e que, num país como o Brasil, apesar de maioria, são vistos como marginais. Óbvio que deu treta. Os lojistas e seguranças piraram com a grande aglomeração de pessoas, a PM chegou despreparada e o pau comeu. Daí, vocês já sabem, começou pipocar jornalista de tudo quanto era buraco e começaram a cuspir um monte de merda nos ventiladores que a gente adora se refrescar.
Afinal, quem deu direito de jovens pretos e pobres frequentar os shoppings? Não pode não mano. Isso aí é um bando de maconheiros e ladrões. Cara, saiu de tudo nos jornais e na TV. Roubaram? Pode até ter roubado, mas qual aglomeração de pessoas não tem arruaceiros que se aproveitam do tumulto? — só você pensar em qualquer festival ou show ou micareta que você ou seus amigos foram roubados. Bom, não vou julgar tanto os fatos porque não estava lá, mas essa reportagem da VICE é bem interessante.
Vou pedir licença, antes de falar da Luiza Trajano, pra citar uma música do Emicida chamada “Cê Lá Faz Ideia”. Ouve ela AQUI. E o que eu queria destacar nela, pensando sobre os rolezinhos, é esse trecho aqui:
Tudo é tão óbvio / Cê não vê e vai juntando ingrediente da bomba relógio / Eu sinto dor, eu sinto ódio / É quente, sem nem saber o nome dessa gente / Católica, de bem, linda / Se já notou, e ó que eu nem falei a minha cor ainda
Mas enfim, na próxima vez que você ver qualquer tipo de repressão parecido com esse, lembre-se dela! Agora falando sobre o caso Luiza Trajano vs. Manhattan Connection, eu trouxe ele aqui pela mesma razão de que comecei a falar dos rolezinhos. Pra quem não viu, os apresentadores do programa tentaram, com informações duvidosas, convencer a presidente do Magazine Luiza que o varejo estava em crise.
Ela, com toda a simplicidade e carisma que lhe é peculiar, retrucou, não com opiniões, mas com fatos concretos de quem vive o assunto, de quem está presente nas decisões do setor. Dá um Google com o nome dos envolvidos que você acha fácil!
Pegaram a semelhança entre as duas histórias? Sim, há um denominador comum que distorce os fatos chamado IMPRENSA ou MÍDIA ou como você quiser chamar. Ainda bem que temos a internet pra democratizar o acesso a uma informação mais limpa, feita por pessoas de verdade, sem nenhum tipo de influência. Eu realmente não entendo como tudo pode ter tanta intenção de retorcer fatos e influenciar a opinião pública.
Pensando na música do Emicida, imagina se você fosse um jovem negro, que participou dos rolezinhos e se viu chamado de marginal pelos maiores veículos de mídia de seu país. Tenso? E se você fosse um funcionário do Magazine Luiza que, por acaso, assistiu a Dna. Luiz Trajano rebatendo as informações falsas dadas pelos jornalistas? Esse sentimento de insegurança, marginalidade, medo… é tudo a mesma coisa. Os efeitos de uma informação dada de maneira errada e com muito mais interesses do que o simples fato de ‘informar’ são enormes e perigosos. Já dizia Emicida que tudo é, de fato, tão óbvio. Só quem não quer enxergar, não percebe que tudo isso é só mais ingredientes pra centenas de bombas relógios que explodem nesse país a cada hora.
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