Não é fácil*

Trecho de Viver no Novo Mundo, VOL. 2 da série O Mensageiro.

* Trecho de um capítulo de "Viver no Novo Mundo", VOL. 2 da Série O Mensageiro.

Em diversos comentários e debates sobre consciência, despertar interior e auto-conhecimento, deparamo-nos com a recorrente expressão “sim, entendo tudo isso… mas não é fácil” ou “compreendo o que foi dito, mas isso tudo é muito difícil”.

Essas expressões são algo extremamente perigoso: normalmente elas são usadas como um “fecho”, uma frase que é dita no final de uma conversa, e colocada ali, sinaliza uma reação interna: sinaliza que está sendo construída uma “ ponte para a fuga”.

Muitas vezes, quando falamos de auto-conhecimento e desenvolvimento, tocamos em pontos delicados, autocrítica, rever atitudes, olhar para dentro. Esse é o desafio de fato, porque olhar pra fora e apontar responsabilidades externas é sempre fácil: o erro do outro é sempre evidente. Apenas os nossos próprios é que se escondem de nós mesmos.

Uma das reações mais comuns e primárias é a negação: e sabemos que enquanto a pessoa nega o seu comportamento, naturalmente não pode modificá-lo. Entretanto, a negação é uma atitude clara. Já a atitude do “é difícil” é bem mais sutil e por isso retém mais gente no caminho: muitas vezes a pessoa tem a sensação de que de o reconhecimento ou o entendimento do problema iniciaria automaticamente a mudança. Não é assim. O reconhecimento é importante, mas em si, ainda não é solução para nada.

É apenas um passo adiante em relação à negação… mas é ainda, um passo antes da mudança. A expressão “é difícil” sinaliza que a pessoa, enfim, tomou conhecimento; reconheceu algo em si mesmo que precisa mudar. E uma vez reconhecido, pode iniciar uma mudança.

Reconhecer não é mudar. 
 Agir de modo diferente é mudar.

É nesse ponto que surge a tentação de criar a zona de conforto da “dificuldade”; escorar-se nela para a fuga ou o adiamento. Com isso, inicia-se um ritual de repetição interminável da mesma atitude, com o comentário sobre o quanto é “difícil mudar” sendo usado como desculpa, justificativa, ou ambas as coisas. E enquanto esse “ritual da valorização da dificuldade” persiste, nada está sendo feito. É apenas auto-engano.

O comportamento recorrente de afirmar vezes e vezes sem conta a “extrema dificuldade” que existe em iniciar uma mudança, em primeiro lugar, é uma completa obviedade: é claro que não é simples para a pessoa em questão. Ela, mais que qualquer outra, sabe disso. Então, porque ela insiste tanto em repetir isso? Porque é assim que se constrói uma “zona de imobilidade”, ou uma “ponte de fuga”.

Enquanto ela destaca aos quatro ventos a “imensa” dificuldade que tem à sua frente… ela está, na verdade, justificando para si mesma a permanência na atitude. Aumentando o “tamanho simbólico” da dificuldade; nutrindo a dificuldade, ela está justificando, também para os outros; mas principalmente para si mesma; que permanecer naquela atitude é “aceitável”, dado que seja “tão difícil” mudar.

Entretanto, o ser humano empreende em sua vida uma série de atividades que não são simples, nem fáceis, nem confortáveis. Pense por um instante no momento em que uma pessoa decide ser médico, por exemplo. Bem rapidamente, recapitulemos: quando decide fazer isso, a pessoa em questão sabe que terá de estudar anos a fio; dedicar-se por vários anos; fazer residência, deixar de lado uma série de hábitos confortáveis. E o mesmo é verdade para qualquer outra formação, em algum grau. E, entretanto, as pessoas tomam essas decisões e fazem isso todos os dias. Porque entendem que aquilo que querem tornar-se é importante para elas. E por isso, empreendem o esforço necessário. Não ficam falando o tempo inteiro sobre a dificuldade envolvida em tornarem-se médicos, ou advogados, ou seja lá o que for.

A pergunta, então, é muito clara: você quer tornar-se uma pessoa melhor, aprimorar-se, ganhar auto-conhecimento, atitude? Tornar-se alguém melhor é importante o suficiente?

Se é, mova-se. Faça. Abrace com toda a disposição todos os momentos e desafios necessários para tornar-se tudo o que você pode ser. Não permita que o “palavrório” interna do ego repita o tempo todo uma conversa inútil sobre “dificuldades”.

Fácil é não fazer nada. 
E Fazer nada leva a lugar nenhum.

Like what you read? Give Paulo Roberto R. Ferreira a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.