O Relatório

Relatório 2.001 T.E. (Tempo do Experimento)
Análises e conclusões sobre o experimento Virgo.
Início da Fase IV
Objetivo:
Relatório oficial de pesquisa sobre o planeta principal onde desenvolve-se a experiência de criação da base carbono. Inclui uma análise geral do equilíbrio planetário e detalhes particulares sobre os sujeitos carbono desenvolvidos.
Principal motivo do relato:
Ponto de recriação atingido. (Início da fase de conclusão do experimento)
Destaques:
Principais pontos de risco para a validação do experimento.
Relatório
Afirmação principal:
Iniciada a fase IV — validação do experimento Virgo. Os seres base carbono atingiram o ponto de recriação. Podem criar seres a partir de células existentes.
Visão Geral:
O envio recente do mensageiro (relatório de início da fase III ) , que adotou um corpo (preparado para tal) durante cerca de 3 anos (T.E.), provou que todas as funções e a consciência podem ser desempenhadas perfeitamente na base-carbono. A base resistiu perfeitamente. Sem a limitação de longevidade e pelas técnicas de recriação, as bases-carbono são funcionais para a existência de duração indefinida, como necessário.
As condições gerais do espaço do experimento estão de acordo com o esperado. Os seres-carbono semiconscientes são a única espécie capaz de alterar o espaço planetário de modo substancial. Todos os demais seres seguem o equilíbrio normal da programação, sem desvio. O Equilíbrio ecológico encontra-se altamente comprometido, (como esperado, dada a condição semiconsciente dos seres carbono) mas nenhuma falha de programação está relacionada ao fato. Toda a degradação foi provocada pelos sujeitos principais do estudo. Há aprovação e validação total do programa no aspecto de controle ambiental.
Principais Pontos de Risco detectados:
Os maiores desvios e pontos de risco para a validação total do estudo são as seguintes:
Durante o tempo do teste, algumas interpretações acertadas apareceram como conhecimento secular entre os sujeitos. Existe, bastante forte e disseminada, a consciência de um criador, bem como a noção de que esse criador é onisciente, onipresente e onipotente. Esse desvio, entretanto, não representa ameaça à integridade do estudo. Os sujeitos, de certo modo, sabem que existe uma origem exterior para sua existência e consciência, mas não apresentam nenhuma definição de propósito. Acreditam que sua origem está de algum modo ligada à origem de nosso ambiente, ao qual denominam Universo. Não demonstram estranhamento sobre sua criação ter ocorrido muito posteriormente ao próprio meio.
Obtiveram, ao longo do estudo, uma noção bastante razoável sobre os parâmetros da programação que rege o ambiente no qual se incluem.
Alguns sujeitos alcançaram autonomamente, como previmos, um nível elevado de consciência, mesmo estando restritos a menos de 20% da consciência plena.
O sujeito Newton conseguiu identificar os parâmetros básicos do ambiente da pesquisa. O sujeito Einstein foi capaz de estabelecer os princípios da relatividade que norteiam o ambiente. Notadamente, esse sujeito expressou por várias vezes que não aceitava as explicações simplistas que colocam os níveis mais sutis do comportamento subatômico (quântico) como sujeitas ao acaso. Apesar disso, o sujeito não pôde encontrar uma explicação antes que seus limites de tempo se esgotassem.
O sujeito Darwin foi capaz de descrever com relativa precisão o desenvolvimento do programa de evolução das espécies participantes do estudo sem, entretanto, resolver a questão do salto evolutivo representado pela consciência.
Os sujeitos Clarke e Kubrik devem ser destacados. Não só foram capazes de intuir detalhes sobre a forma como o estudo é conduzido, mas exibiram sua visão a milhões de outros sujeitos-carbono, primeiramente através de textos, depois através de um método de película projecional. Interessante é que Clarke situou inclusive a data equivalente, na medida de Tempo do Experimento, que acreditávamos próxima da conclusão: cerca de 2 mil anos após o mensageiro. Esses sujeitos demonstraram uma visão muito próxima à realidade do experimento. Segundo suas teses, a “humanidade” teria desenvolvido-se a partir de uma outra espécie, contudo, ao contrário da hipótese geral, de que o desenvolvimento da consciência teria ocorrido ‘naturalmente’, Clarke intuiu que havia um ponto de partida exterior. Realmente, ele percebeu que devia ter havido a inserção de novos códigos na programação num dado momento. Quando divulgou isso, tememos que o estudo estivesse perdido. Em seguida, Kubrik desenvolveu essa divulgação por meios audio-visuais e atingiu milhões de seres com a informação. Tememos ainda mais por um desvendamento. Mas os temores não se justificaram. Os demais sujeitos-carbono tomaram a revelação como uma interpretação pessoal, e a classificaram como uma grande obra, entretanto nunca deixaram de considerar a revelação como ficção, um produto da mente de dois outros sujeitos. Jamais foi determinado ou divulgado que os sujeitos Clarke e Kubrik tivessem consciência da revelação. Muitos dos nossos pesquisadores acreditam que foi apenas de um modo intuitivo que aconteceu o vislumbre desses seres em relação ao experimento, mas que na verdade eles mesmos não sabiam tratar-se do início da revelação. Em favor dessa tese, colabora que eles nunca tenham declarado um propósito definitivo para o experimento, o que poderia fazer com que sua revelação fosse aceita como fato. Eles, ao contrário, expressaram que o propósito do experimento seria o próprio desenvolvimento e evolução dos sujeitos base-carbono. Essa obra teve seqüências, mas nestas não se apresentou mais nenhuma manifestação de conhecimento da realidade do estudo. Apesar disso, outros dos nossos pesquisadores apoiam que esses seres realmente podem ter alcançado a consciência do verdadeiro propósito mesmo limitados a 20%. Contudo, a realidade seria por demais complexa para ser revelada ao restante dos sujeitos.
Nossa maior preocupação prática, contudo, era que ocorresse a revelação antes que os seres-carbono atingissem a capacidade de recriação, o marcador do sucesso do estudo.
Isso, de modo amplamente comprovado, não ocorreu. Consideram-se senhores de seu mundo e acreditam que uma força superior os guia, de algum modo, a um destino grandioso de expansão indefinida. Muitos acreditam que não há comunicação comprovada com outras espécies no “universo” apenas porque seriam eles a primeira espécie consciente.
Conclusões:
O programa que rege o estudo funciona perfeitamente.
As bases carbono individuais são comprovadamente adequadas para receber consciências plenas e desenvolver uma existência satisfatória.
Todo o sistema de recriação das bases carbono funciona perfeitamente, garantindo a possibilidade de ampliação indefinida do limite temporal associado ao elemento carbono.
Recomendações Adicionais:
Segundo o desenvolvimento do estudo, nossa Civilização poderá ter acesso à possibilidade de utilização das formas sólidas baseadas em carbono — sem prejuízo das características fundamentais da consciência plena — dentro de curto espaço de Tempo Universal.
Os sujeitos desenvolveram capacidade de criar inteligências artificiais contidas em artefatos de base silício. Essas inteligências artificiais são dotadas de capacidades de computação e processamento muito além do possível para os sujeitos carbono. Existe possibilidade real de que, com a associação das inteligências de base carbono e a capacidade de processamento da base silício, ocorra dentro de pouco tempo (entre 500 e 1000 anos — Tempo do Experimento) a revelação da própria existência do experimento aos sujeitos que o compõem. Embora qualquer possibilidade de que essa percepção leve os sujeitos à identificação da Civilização Consciente deva ser considerada uma tarefa para cerca de 1 milhão de anos T.E., assim que essa revelação ocorresse, o próprio experimento perderia sua utilidade.
Assim sendo, recomendamos que, uma vez aceito este relatório e validada a fase IV, sejam documentadas e arquivadas as conclusões do estudo e que toda a parte física e experimental seja eliminada, possibilitando o início imediato da preparação daquela galáxia para uso direto pela nossa Civilização, que desde longo Tempo Universal aguarda o desenvolvimento dessa possibilidade para resgatar a oportunidade da existência física em toda a sua amplitude. Assim, corrigindo o engano cometido nas Eras Iniciais, quando a idéia de uma existência como Consciência livre de uma base física seduziu-nos, como se representasse verdadeira evolução.
A. N. Creaon
Supervisor Científico
“O Relatório” é uma obra de ficção que escrevi em 2002, portanto, há quase 15 anos, e foi originalmente publicada apenas em um grupo de autores de ficção científica.