A negação de um problema

Paulo Egídio
Aug 26, 2017 · 4 min read

Tida como um pecado “praticável”, a gula está diretamente ligada ao descontrole emocional

Busca excessiva por alimentos pode ter origem em dificuldades afetivas. Foto: Paulo Egídio

Você acorda atrasado e toma banho em cinco minutos. Sai de casa correndo, pois não há tempo para o café. No almoço, verde de fome, come bastante para “compensar” a falta de nutrientes. À tarde, no intervalo, devora um generoso misto quente e bebe uma lata de refrigerante. Voltando para casa, fica com pena do menino que vende apetitosos doces na sinaleira e compra dois, que consome antes de chegar em casa. O jantar se resume a uma pizza e mais refrigerante, para dar tempo de terminar o trabalho extra ou o freela que deve ser entregue até o dia seguinte.

Essa rotina cada vez mais dinâmica e consumidora de nosso tempo provoca sérias consequências na forma como nos alimentamos. Segundo pesquisa do Ministério da Saúde, realizada em 2015, mais da metade dos brasileiros (52,5%) está acima do peso. E isso vai muito além do que pode se chamar de gula.

No artigo “Obesidade psicológica — você tem fome de quê?”, a psicóloga Mary Scabora e a nutricionista Kelly Kathryn de Oliveira são categóricas ao apontar a influência de questões emocionais no consumo de alimentos. “As dificuldades afetivas podem precipitar alteração no comportamento alimentar, levando a comer além do necessário ou até compulsivamente. Nesse sentido, o alimento substitui o afeto perdido e o indivíduo encontra certo alívio através de um excesso que ‘preenche’ o vazio emocional”, afirma o texto.

De fato, isso se reflete na impressão de quem sofre ou já sofreu com o problema. É o caso da professora Elenice Zacarias, de 43 anos, residente em Maximiliano de Almeida (RS). Depois de passar pela cirurgia bariátrica (redução de estômago), ela viu sua rotina mudar. E, olhando para o passado, garante que a obesidade á causada por fatores maiores do que a gula ou de alteração hormonal. “Ela reflete muitas vezes nosso estado emocional, que causa uma relação desequilibrada do corpo com o alimento. Muitas vezes estamos exaustos de tanto comer e ainda estamos procurando comida”, revela.

Nutricionista profissional e doutora pela UFRGS, a professora da Unisinos Ana Harb estabelece um paralelo entre as razões da doença. “Parte das causas está relacionada à gula, pois o controle alimentar é necessário para manter um peso saudável. Entretanto, com a grande oferta de alimentos superprocessados e altamente palatáveis, há facilidade na obtenção daqueles que superam o gasto energético do indivíduo, colaborando para o ganho de peso”, expõe, sublinhando que a doença é multifatorial, relacionada a fatores genéticos, hábitos de vida, questões psicológicas e ao meio ambiente.

A psicologia explica

“É importante que a pessoa procure ajuda para entender quais os gatilhos que a fazem comer em demasia e de forma errada”, ressalta a psicóloga Bárbara Berwanger. De acordo com ela, o tratamento da obesidade deve envolver auxílio psicológico e nutricional, e diferentes emoções podem contribuir para a o consumo de alimentos em demasia. “Há casos onde tudo é motivo para comer: tristeza, alegria, frustrações ou realizações”, explica.

Bárbara conta que muitos não compreendem o porquê de realizar o acompanhamento com um profissional da área. “Os pacientes precisam entender, além do que e quanto comer, o porquê comem e escolhem tais tipos de alimentos e deixam outros de lado”, observa, exaltando quem opta por procurar ajuda. “Procurar terapia é um ato de coragem, de quem está disposto a olhar para as questões internas para resolver seu problema.”

Mão amiga

Para orientar quem sofre com a obesidade excessiva e procura ajuda, existe a Associação Brasileira de Apoio aos Operados Bariátricos (ABAOB), sediada em Porto Alegre. Apesar do nome, ela não auxilia apenas quem já passou pela cirurgia, mas também aqueles que a procuram como última alternativa. “Muitas pessoas chegam aqui para realizar o acompanhamento para a operação, mas durante o processo de preparação emagrecem por conta própria, afirma Jussara Tessele, vice-presidente da organização.

Na sede da entidade, que fica no Bairro Menino Deus, é feito o encaminhamento terapêutico, psicológico e nutricional das pessoas que se preparam e que já realizaram a cirurgia. A estrutura conta com academia de ginástica e dispõe de profissionais de dança, massoterapia, fisioterapia e até aulas de inglês, dentre outros serviços.

Jussara, que depois da operação perdeu 33 quilos e hoje coordena os trabalhos da associação, afirma que problemas psicológicos são os maiores responsáveis pela obesidade. “90% dos obesos são pessoas que passam por conflitos ou traumas, ou quem sofre de depressão e têm no ato de comer seu grande prazer.”

Atualmente, a ABAOB tem aproximadamente 90 filiados. Cada um deles contribui com R$ 150 anuais, que dão direito também à carteirinha da entidade. Como próxima meta, a administração busca incluí-la na condição de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) para contar com apoio governamental em projetos futuros.

Projetos que serão cada vez mais necessários, até que se passe a entender as verdadeiras causas da obesidade. Que muito transcendem a simples satisfação do paladar.

*Reportagem produzida originalmente para o Jornal Leia Unisinos Porto Alegre 8 (LUPA), durante a disciplina de Jornalismo Impresso II, no segundo semestre de 2016, sob orientação da professora Thaís Furtado

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