DotA, o raciocínio estratégico e o vício

Paulo Andrade
Aug 9, 2017 · 4 min read
Jogador Profissional de DotA em campeonato

A adolescência é quando nossas mentes estão mais frágeis e suscetíveis a influencias externas. Muita gente faz escolhas erradas durante esse período e se arrepende. A minha história de escolha errada é mais uma que gira em torno dos games, mas em retrospectiva, não tenho tanta certeza se me arrependo dela. É a história de como o vício em um jogo destruiu meus primeiros períodos na faculdade, me afastou de muita gente de quem eu gostava e me deixou à beira de um precipício sem volta. É a minha história com DotA.

Defense of the Ancients foi um jogo que começou como uma modificação de Warcraft III, e é creditado como o primeiro grande sucesso do gênero MOBA (Multiplayer Online Battle Arena), predecessor de títulos como League of Legends e Heroes of the Storm. É um jogo de estratégia em tempo real, onde cada um dos 5 jogadores de cada time escolhe um de uma lista de 113 personagens jogáveis (Heróis), e tem como objetivo a destruição da estrutura principal do time inimigo (Ancião). Com uma curva de aprendizado cruel, jogadores novatos precisam estudar o jogo, descobrindo as centenas de itens e heróis, suas habilidades, e as milhares de formas possíveis de interação entre elas. E foi nesse meio que eu me perdi.

Aos 17 anos me mudei para Belo Horizonte para fazer faculdade. Sozinho em uma cidade nova e enorme, com dificuldade para fazer amigos, saudades daqueles que deixei pra trás, e sem saber nem cozinhar um ovo, minhas primeiras semanas não foram das mais divertidas. E como todo bom adolescente responsável e maduro, fiz a primeira coisa que qualquer um na mesma situação faria: achei um vício e me afundei nele. Eu já jogava DotA há algum tempo, mas nem de perto na escala do que estava por vir.

Minha necessidade de aprender mais sobre o jogo crescia a cada partida, me incentivando a gastar várias horas por dia estudando as estratégias, criando guias, desenvolvendo fórmulas para descobrir formas de melhorar. Poucas vezes me empenhei tanto para atingir um objetivo, e mesmo não estando entre os melhores, eu amava o que fazia. Minha velocidade de reação era excelente, e minha capacidade de raciocínio cresceu muito durante esse período. DotA me libertava. Era tudo o que eu queria fazer, e todo o resto parecia sem graça. Mas já nessa época eu percebia algo de errado.

Minha rotina nos dois primeiros semestres consistia em acordar às duas da tarde, sentar na cadeira do computador (ele já estaria ligado da noite anterior), e jogar até as 6 da manhã. Parei de me importar com higiene pessoal, perdi quase todas as matérias que fiz na faculdade e me afastei dos poucos amigos que ganhei na cidade.

Horas de jogo segundo a Steam

Em um certo ponto, comecei a apostar nas partidas do torneio Internacional. Perdi 200 reais no primeiro mês. Essa foi a bandeira vermelha que me fez perceber ao quão fundo eu tinha permitido o vício me levar. Foi a partir daí que decidi me esforçar o máximo para escapar, e felizmente não precisei fazer isso sozinho. Amigos e família estiveram lá por mim para me colocar de pé, um privilegio que nem todo mundo tem, e em menos de um mês eu já não jogava. Reestruturar minha vida a partir dai demorou um pouco mais, e eu diria que até hoje tenho problemas que nasceram nessa época.

O DotA não é o vilão dessa história, pelo contrário, aprendi muito com ele. Mas seria irresponsável da minha parte não deixar claro que, dadas as circunstâncias certas, um jogo pode se transformar em um vício tão pesado quanto o álcool ou qualquer outra droga. Qualquer sistema com um loop de compulsão que ative as regiões de recompensa do cérebro vai apresentar esse tipo de problema, e está nas mãos do usuário o poder de se desvencilhar ou se afundar nele.

Por sorte, e com a ajuda de gente muito próxima de mim, acabei por me livrar do vício. As experiencias ficaram, e eu tento me focar nas positivas: aprendi a lidar com uma quantidade gigantesca de informações, a utilizá-las para modelar e resolver problemas, a gerar estratégias, e a predizer e reagir em tempo real a mudanças não esperadas. Todas essas habilidades eu já coloquei em prática no meu dia a dia, trabalhando na minha startup ou estruturando uma apresentação na faculdade. Hoje não jogo mais DotA, mas é inegável o impacto — positivo e negativo — que ele causou na minha vida.

Esse foi o terceiro em uma série de textos sobre as habilidades que adquiri e coisas que aprendi com jogos ao longo da minha vida. Games ajudaram a definir quem eu sou hoje, e minha vontade é de passar essa experiencia para frente.

Paulo Andrade
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