Meu Esquema

Aquela chuva até que ajudou. Bendita, te destacou entre tantas pernas e braços e mãos e peles. Molhados procuraram abrigo enquanto tu dançavas. Ficaste sozinha. Brilhavas sozinha, com o cabelo pesado e o corpo encharcado. Teu pé sangrou. Desafiasse o cimento descalça em passos repetidos. Queria teu pé. Já havia perdido os lábios. Os tais que você já usou em mim, e voltou a negar, dessa vez, na chuva, na única e derradeira tentativa. Restou então apenas te observar.

Ver uma constelação de dez pontos ligando teus membros não era natural. Eu vi. Mesmo que a cerveja já descesse quente. Ou o cigarro travasse na garganta. Havia sim uma lógica implícita naqueles movimentos. Nas entrelinhas dos ângulos desenhados pelos teus braços, em conjunto ao ritmo frenético da pisada forte, onde se podia escutar o estralar dos músculos. Tudo tinha uma justificativa. Ludopédica, inclusive. Te juro. E eu a encontrava no raio-x em brasas, mediante a erva consumida, degustada e compartilhada por nós.

A beleza está no sentimento que cega os olhos. Linda és para mim. Mas como tu consegues despertar paixões por ai. Oportunistas te percebiam em apenas um cruzar de olhos. Tentavam lançar mão a qualquer custo. Seguindo o teu ritmo. Imitando a tua dança. Recuavas. O balanço único, consigo, era o teu desejo. Destilar vontades em antigos e recentes amores provocava a penalidade do assédio. Teu mecanismo de defesa transformava braços recuados em escudos, mesmo que eles voltassem, logo em seguida, a atacar corações alheios. Num sobe e desce de laterais direitos e esquerdos, em um campo sem gramado, tendo apenas o ar como palco.

Ver uma constelação de dez pontos ligando teus membros não era natural. Eu vi. Mesmo que a cerveja já descesse quente. Ou o cigarro travasse na garganta.

Ludopédico, não?! Te disse. Te provo. Tu provavas apenas de teu deleite. Com ombros agindo como dois estivadores, beques centrais de pouca habilidade, mas com total poder de segurança. Defensores de uma boca impenetrável. Negavas sorrindo. Dentes que desarmam qualquer investida, sem deixar de dar esperanças. Te odiava, assim, sem entender por que era tão bom aquele estudo todo.

Teu lado ofensivo conheci sem multidões, sem concorrência, sem ciúmes. Me instigaste, excitasse. Da chuva apenas escutávamos, já não sentíamos. Te senti. Nada demais. Sabia que não era nada. Acabou sendo demais até. Teu quadril emparelhado a mim, vibrante com alguns sorrisos, suave no momento do silêncio, e ofensivo no copo d’água trazido, pareciam sair para o meu jogo. Umbigo, lado direito, púbis e lado esquerdo. Losango perfeito. Cabeça-de-área, segundo volante, meia-atacante e meia-esquerda. Meio-campo entrosado. Meio-corpo completo. Ludopédico, assim.

O sono te pegou no exato momento em que as pernas já não balançavam mais, nem beliscavam as minhas, muito menos as roçavam em tom de desleixo. Teu ataque contra, agora, a minha defesa. Novamente ganhei a posição de observador. Mais uma vez a constelação dos dez pontos ligando teus membros atraiu minha atenção. Artérias, ossos, músculos e pele, jogados de qualquer jeito, juntos em um sofá dividido, deu a percepção do quão perfeito é o 4–4–2 do teu corpo. Um esquema humano que por um dia pude chamar de meu.