Gente inquieta é legal

Discussão com um professor, uma passada na sala da diretoria, advertência, suspensão. Essa era uma sequência comum no meu dia a dia na época de escola.

Fui um aluno inquieto, bagunceiro, problemático, como alguns gostam de chamar. Mas eu não era ruim como pensavam, só precisava ser motivado.

Os professores que só tinham saco para os alunos bonzinhos me odiavam. Já os que entendiam meu “defeito” geralmente obtinham minha atenção e carinho.

Quando a inquietação era bem usada, surgiam coisas positivas como um stand up comedy na sala, uma palestra sobre drogas que virou notícia no ginásio, alguns trabalhos de português premiados, uma história em quadrinhos vencedora de um concurso, algumas poesias publicadas em coletâneas escolares.

Tive problemas com alguns mestres porque eu não gostava de usar o caderno. Mas uma professora de português no ensino médio me liberou de copiar do quadro porque eu sempre tirava 10 em literatura. Ela me entendia.

Com os professores de matemática não tive a mesma sorte. Todos foram algozes. Todos me torturaram com suas equações macabras, com a aritmética psicopata, com suas estatísticas assassinas. Nenhum entendeu que meu cérebro não processa bem os números (risos).

Ser inquieto é dádiva e maldição.

O inquieto busca sempre o novo, quer fazer diferente, não se rende à monotonia, tem dificuldades com padrões. Mas o mundo gosta de padronizar as coisas, não é?

Ser inquieto é sempre querer mais, andar inspirado e ir além do que se vê no ambiente. Ser inquieto é o oposto de viver satisfeito automaticamente, permanecer na zona de conforto, deixando, assim, de ver o lado legal da vida.

“Anormais são os inquietos.” “Gente pé no saco.” “Não param um minuto.”

Hoje eu me entendo um pouco mais. Cuido de uma criança inquieta, hiperativa. Ela reclama que não consegue ser boa, que não consegue se comportar. Eu digo que ele é boa sim, e que só precisa tentar se “adaptar um pouco”, porque as pessoas “são assim mesmo”.

No fundo eu gostaria de dizer que o mundo é que não consegue se adaptar a ele. Mas ainda não chegou a hora. Ainda não.

Entende quando eu digo que criar um filho é aprender enquanto ensina? Educar um pequeno é uma das maiores escolas da vida. Hoje percebo que estou sendo salvo. Estou tendo a chance de compreender como os adultos se sentiam quando conviviam comigo menino.

“Gente inquieta é um horror.” Nem na hora de dormir sossegam.” “Não param nem para comer.”

Mas quem sou eu para colocar arestas num menino agitado? Quem sou para tentar inclui-lo num padrão?

Um menino inquieto só precisa de motivação. Só precisa de princípios, de valores, de alguém que o ame, de um condutor, de alguém que mostre a ele a fábrica de coisas boas que é o seu cérebro.

Gente inquieta é um horror para um mundo deturpado. Mas para um mundo de criatividade, gente inquieta é legal. Os normais é que estão cegos.

Eu amo gente inquieta!

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