Você tomou um fora duma mina? Culpe o machismo, não o feminismo

Nesse mês completei 33 anos de idade. Não sou mais um moleque. Nem estou mais na categoria de “jovem”. Pior, tô na fase de olhar pra molecada de hoje em dia e pensar “o mundo está perdido”. Pra mim isso é a morte, o fim da juventude, o início da velhice e do destino inevitável de morrer mais cedo ou mais tarde. Mas sabe, envelhecer tem suas vantagens. Vendo o quanto hoje sou mais sábio, pelas experiências e merdas que fiz, do que era com 16 ou com 22 anos, fico ansioso pra ver como eu vou ser ninja com 50 ou 70. (Isso me lembra que preciso cuidar da saúde pra chegar lá, mas esse é outro papo).

A maturidade sexual, sentimental, moral, enfim, é boa. Então não sei se alguém desse grupo vai ler, mas queria falar com a molecada que hoje tem 16 a 22 anos, mais ou menos o grosso da galera que tá prestando o ENEM e teve que fazer redação sobre a “persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. E, em especial, com a molecada que mandou a hashtag #primeirofora pra rebater a avalanche de relatos de mulheres de todas as idades, condição social, origem, etc, sobre o #primeiroassedio que sofreram, na esteira dos tuítes de homens de todas as idades babando pela criança Valentina, 12 anos de idade participante do Master Chef Jr., caso que a Carol Patrocínio trouxe num post aqui no Medium, gerando um debate nacional.

Vários caras mandaram seus relatos de foras vexaminosos que levaram e que, pelo eu entendi, despertaram traumas similares aos das mulheres que foram assediadas, muitas ainda crianças, e ainda são, numa escala que só pode ser considerada como sistêmica na sociedade brasileira. Uma violência que passa por todos os setores da sociedade e, se prestarmos atenção, acontece diariamente diante de nossos olhos. A comparação entre assédio e “fora” é totalmente descabida e nem tô a fim de explicar por que aqui. Mas o lance do “fora” é interessante. Pelo que eu entendi, o feminismo de alguma forma é culpado por uma mulher não querer ficar com um homem, e ele ter que se conformar com a “humilhação”. A alternativa então seria a mulher ter a “obrigação” de ficar/trepar com você?

Bom, surpresa, os tempos mudaram e as mulheres não vão mais aceitar esse jogo nojento que é sim fruto do machismo e do patriarcado que estão nas fundações da nossa sociedade e ainda vão permanecer, embora cada vez mais fracos, por muito tempo. E que bom. Enquanto homem, heterossexual, que gosta de fazer sexo com mulheres e faz regularmente, só digo que o feminismo é a melhor coisa que poderia ter acontecido para o homem heterossexual.

Ah, as mulheres, o maior mistério da natureza, a mais perfeita criação de Deus… Sim, as mulheres são incríveis. E o que o machismo faz é só condená-las a serem menos do que deveriam ser. Com os séculos de opressão, sendo tratadas como seres de segunda classe, claro que as mulheres souberam desenvolver suas táticas e estratégias para sobreviver a esse ambiente hostil e elas incluem a manipulação, a sedução, a infidelidade, etc. Ué, estão certas elas! Qualquer um tenta sobreviver o melhor que pode num ambiente hostil e desenvolve técnicas para conseguir.

Tenho um rol de foras e traumas causados por mulheres tão ou mais extenso quanto qualquer nerd punheteiro dessa faixa 16 a 22 anos e que com certeza deve estar trepando menos do que gostaria (os que tão trepando não estão no Twitter reclamando, né?) Mas só recentemente, com a sabedoria do tempo e tendo contato com essa genial geração de mulheres mais ou menos da minha faixa etária e tão botando pra quebrar, exigindo seus direitos por bem ou por mal, percebi por que eu não conseguia “pegar mina” até lá pelos 20 e pouco: porque era um moleque babaca e sem noção, obviamente.

Sim, as mulheres com quem eu queria trocar fluidos corporais e tal eram as mais “gostosas” da sala da escola, do prédio, do rolê, etc, e claro que elas só queriam saber dos “machos alfa” e todo o resto da matilha ficava na bronha. Na sétima série, a menina mais bonita da minha sala só dava bola pros caras do colegial. Quando entrei no colegial, só conseguia atenção das meninas da oitava série. Na faculdade, me apaixonei algumas vezes por aquelas minas super legais e interessantes e lindas e que curtem os melhores rolês até perceber que eu não dava motivo nenhum para elas se interessarem por mim, nesse ecossistema de machos alfa e tal.

Quando você é jovem confunde a sua “autenticidade”, sua individualidade, com egoísmo e narcisismo. Você se acha um cara mó legal, que manja de som bom, rango bom, vinho, mas quando vai xavecar uma mulher na balada é enxergado como um bêbado mala, feio e barrigudo, cheirando a cachaça, com a calça caindo e o cofre aparecendo. Por que caralhos a mina ia se interessar por você? Pior, você fica obcecado com as mais gatas do rolê e nem vê as tantas minas também interessantes e legais e que provavelmente sabem trepar bem melhor que a “fêmea alfa” lá. E que toparia transar com você firmão se você não for um babaca, se for um cara legal, simpático, respeitoso e que entenda que ela é o agente do desejo sexual dela tanto quanto você é do seu.

Mais ou menos na mesma época que percebi isso, percebi também algo que me deixou chocado e me fez entender porque o feminismo é tão necessário e importante: porque as minas tinham medo de mim. Sou um cara grande, nem tão forte por falta de exercício, mas forte, cara de maluco. Quando eu percebi que muitas mulheres me viam primeiramente como um potencial agressor, foi um baque. E fez muita coisa ter sentido. As minas que eu poderia xavecar numa balada (embora eu sempre tenha sido péssimo de xaveco, tímido e tal), me veriam como alguém que poderia ficar puto e tentar agarrá-las à força se ouvisse um “não”. Não é exagero dizer que minha vida mudou com essa percepção.

Quem posta um caso de bota que tomou está apenas relatando sua própria incompetência no jogo de “acasalamento” humano que é desse jeito porque milênios de patriarcado e machismo o moldaram assim. Pode ter certeza que hoje, depois de umas quatro décadas de movimento feminista, tá mais fácil do que foi pro seu pai, pro seu avô, etc. E olha que eu casei antes de existir coisas como o Tinder. Vocês tem tudo à mão e estão reclamando ainda? Molecada do caraio! Tomem tenência, cabras!

Seja um cara legal, leia livros, converse com as pessoas, saia da frente do videogame um pouco. Cuide também da sua aparência externa (eu nunca liguei pra isso mas óbvio que é necessário e faz diferença), seja você mesmo, olhe ao seu redor, que você vai encontrar uma mina daora, vocês vão ser bem felizes juntos e é isso aí, só precisa respeitar as mina e usar a educação que imagino que te deram.

PS: nesse texto foquei mais no lance do #primeirofora em contraponto ao #primeiroassédio, mas quem sabe num próximo post escrevo umas groselhas sobre a questão da sexualização infantil que o caso do Master Chef Jr. tb evidencia. A ver…