What happened to everyone?

Não queira ser artista.

Artistas têm uma única matéria prima que é o sofrer.

Assistindo a “What happened, Miss Simone?” que acaba de estrear no canal de conteúdo sob demanda, Netflix, é fácil entender os porquês de não existirem mais artistas hoje em dia.

Não os artistas de verdade.

E não havia uma nota sequer que aquela mulher tenha tocado ou cantado que não trouxesse para fora todo o sofrimento que sentia.

Ser artista hoje, é despir-se no Reino da Nudez Proibida.

É dirigir por uma avenida somente com faróis vermelhos e placas de “Pare, talvez você esteja compartilhando intimidades demais”.

Nunca se esqueçam: foram nos nossos tempos em que surgiu o neologismo “oversharing”

Os tempos são bons para ser feliz.

Os tempos são bons para se levar uma vida cor de rosa.

Mas péssimos para ser um artista de verdade.

E, é claro, pésimos para se consumir arte de verdade.

Elis sofria. Vinícius sofria. Camões sofria. Dylan sofria. Caymmi sofria. Hilda sofria. Clarisse sofria. Wallace sofria. Fernando Pessoa sofria em cada um de seus 4 ou 5 heterônimos.

Todos sendo uma maneira diferente de sofrer do próprio autor.

É um mundo tristemente asséptico esse o qual não pudemos evitar de faxinar.

Porém, assepsia não é sinônimo de limpeza.

Assim como sujeira não é sinônimo de felicidade.

E a arte, como vocês já deveriam ter desconfiado, não é feita só de felicidade.

A arte não imita a vida porque faz disso um bom post de autoajuda nas redes sociais.

A arte, assim como a vida, já foi plena de sofrimento.

E nem por isso, mais triste.

Ou sequer depressiva.

Em “What happened Miss Simone?” fica nítido: artista que não sucumbe ao crachá tem que tomar muito cuidado para não sucumbir à própria arte.

Produto perecível.

Mistura de sorrisos e lágrimas em embalagem descartável.

Tudo que pisa neste mundo tem o certificado de esquecimento.

A esse ponto você já se ligou que essa minha análise trata-se de um TEXTÃO.

Neologismo engraçadinho criado por nós e engajado pela internet para tirar sarro da leitura.

Likes. Loves. Tinders. Haters.

Pára um pouco com esse lixo e vá assistir ao documentário sobre a mulher negra que, um dia, ao subir em um palco disse:

“I only wish I could have been as wise then as I have become now. I have suffered. But there’s a Bösendorfer (tradicional fabricante de pianos) here, so we’ll see what happens”.

Por isso, amigo leitor: não queira ser artista.

A arte verdadeira sangra. Chora. Desperta sentimentos incômodos em gente estranha.

Eu não faço ideia do porque vim até aqui escrever esse desabafo.

Talvez porque — simplesmente por viver ou simplesmente por me esforçar a observar a vida enquanto mal protagonizo a minha própria — aprendi que a arte são esses meros 80 ou 90 anos pisados sobre o Planeta Terra.

E aí, termino meu TEXTÃO com algo dito por alguém lá no final desse belíssimo documentário:

“I think when a person moves to their own kind of clock, spirit, flow, if we were living in an environment that allowed us to be exactly who we are, you’re always in congress with yourself. The challenge is, “How do we fit in the world that we’re around? But are we allowed to be exactly who we are?”. Was Nina Simone allowed to be exactly who she was? As fragile as she was strong? As vulnerable as she was dynamic? She was African Royalty. How does royalty stomp around in the mud and still walk with grace?.”

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