Entrevista com Gilmar Mascarenhas, professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da UERJ, pesquisador do CNPQ e líder do grupo de pesquisa “Cidades e Megaeventos Esportivos”

A última Olimpíada “faustosa e megalômana”

Carestia e remoções forçadas foram os primeiros legados dos Jogos no Rio

Das 583 famílias da Vila Autódromo, vizinha ao Parque Olímpico (ao fundo), 20 permaneceram As demais, embora tivessem documentos que davam direito de permanecer na comunidade por 99 anos, foram “convencidas” a deixar o local

O professor Gilmar Mascarenhas, do Programa de Pós-graduação em Geografia da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), pesquisador do CNPQ e líder do grupo de pesquisa “Cidades e Megaeventos Esportivos” acredita que o Rio de Janeiro sediará a última edição “faustosa e megalômana” da história recente dos Jogos Olímpicos, pois as edições futuras tendem a custar menos, atenuando o evidente desgaste da imagem olímpica. Ele avalia que o legado mais evidente para os habitantes do Rio foi a carestia. A partir da escolha do Rio como sede dos Jogos houve um aumento nos custos da terra urbana, que repercutem diretamente no custo de todas as atividades.

Mascarenhas diz que outra consequência do processo de preparação para o megaevento foi a remoção forçada de 70 mil pessoas para bairros periféricos e um número não contabilizado de famílias que tiveram de se mudar para regiões menos centrais devido ao encarecimento dos aluguéis dos imóveis. O pesquisador vê com bons vê com bons olhos o projeto do VLT, principalmente por ele ter terminais na rodoviária e no aeroporto Santos Dumont. Espera, porém, que o veículo se transforme num modal de grande utilidade cotidiana em vez de priorizar o lazer e turismo.

Para Gilmar Mascarenhas, os Jogos deixam um legado acidental, não planejado pelos organizadores: o avanço da cidadania “enquanto consciência dos direitos dos citadinos econhecimento acerca da própria cidade”. O professor considera que “as diversas iniciativas de organização debate e ativismo social propiciaram considerável avanço do debate em torno da cidade, suas políticas, seus usos e nossos direitos nela

O que o Rio de Janeiro e o Brasil ganham com a realização das Olimpíadas? Que legado fica para a população?

Esta é, sem dúvida, a pergunta mais importante a ser feita. Que resultados temos e qual será o “retorno” do volumoso comprometimento do dinheiro público. Mas é também a pergunta mais abrangente, por envolver inúmeras facetas. Por isso vou me deter na mais evidente e na que afetou a totalidade dos habitantes da Cidade Maravilhosa: a carestia. A cidade ficou muito mais cara desde que foi escolhida em 2009 para sediar os Jogos, pois tal escolha provocou imediata elevação nos custos da terra urbana, e não é preciso ser especialista em economia urbana para saber que o preço da terra repercute diretamente no custo de todas as atividades urbanas. Passamos a pagar mais caro para morar, para se alimentar, para se divertir, para utilizar cada serviço disponível nesta cidade. Em nome da Cidade Olímpica, setenta mil pessoas foram atingidas pelas remoções forçadas, mas não sabemos mensurar quantas pessoas tiveram de se mudar para bairros menos centrais ou menos agradáveis devido ao encarecimento dos alugueis dos imóveis. Todos nós conhecemos várias famílias e indivíduos que deixaram de morar na Zona Sul para viver na Tijuca ou São Cristóvão, e gente que, desses bairros, migrou para o Meier e adjacências. E poderíamos citar vários outros fluxos “migratórios” no interior da urbe. Um dos grandes debates internacionais sobre formas de gestão urbana sustentável e mais humanizada envolve justamente a criação de estratégias para libertar os cidadãos dos constrangimentos gerados pela renda fundiária, com a difusão de “espaços comuns” e mecanismos de contenção da especulação imobiliária.

Setenta mil pessoas foram removidas para a realização dos Jogos Olímpicos. Não estão computados os moradores que tiveram que se mudar para mais longe por causa do aumento do preço dos aluguéis

Quais as oportunidades que os governos estadual e municipal aproveitaram e o que desperdiçaram com o evento?

As olimpíadas, em qualquer parte do mundo, têm servido, do ponto de vista da cidade-sede, para se beneficiar com o expressivo aporte de recursos oriundos das escalas superiores (níveis federal e estadual, quando houver). Considerando o cenário fiscal de grandes dificuldades, tal injeção de recursos financeiros, num curto espaço de tempo, e de forma assegurada (devido aos compromissos assumidos junto ao COI) possibilita (e é cobrado pelo sistema olímpico enquanto projeto de legado) ao governo local a elaboração de um verdadeiro plano de intervenções urbanas.

No Rio de Janeiro, tivemos nestes seis anos de preparação para os Jogos a mobilização de recursos financeiros em patamares que não se viam desde os anos 1960 e 1970, quando da tácita “compensação” federal pela perda da capitalidade da Cidade Maravilhosa. Naquela ocasião, a cidade concentrou a quase totalidade dos investimentos em projetos de cunho eminentemente rodoviarista (os grandes túneis Rebouças e Santa Bárbara, viadutos diversos, o elevado da Perimetral, a Ponte Rio-Niterói, o elevado Paulo de Frontin etc., com abandono definitivo dos velhos bondes), e no extenso programa de remoção de favelas. Naquela ocasião, foram adiadas obras fundamentais como o metrô, somente inaugurado em 1979 e com traçado ainda muito modesto. A tônica rodoviarista fazia parte do urbanismo vigente naquela época (anos 60/70), embora já contássemos então com críticas consistentes a este modelo. O mesmo modelo que produziu o fenômeno “Barra da Tijuca”, forma de organização territorial muito semelhante aos padrões norte-americanos, sobretudo californianos, que estimulam a segregação socioespacial no tecido urbano.

Passados quase 50 anos, e após períodos de crise aguda e recessão, eis que a cidade encontra nova oportunidade para renovar suas infraestruturas. E deveria fazê-lo de acordo com os últimos avanços na teoria do urbanismo, que apontam, em suma, para as seguintes direções: 1) sustentabilidade socioambiental; 2) renovação de áreas degradadas valorizando o “mixing” de usos; e 3) revitalização dos espaços públicos, valorizando a sociabilidade difusa (ao contrário do estimulo à criação de mais condomínios fechados e shpping centers). Todavia, como a cidade aproveitou esta rara oportunidade atual? O projeto Rio 2016 em grande reincidiu no anacrônico modelo rodoviarista, embora sem deixar de investir em modalidades sobre trilhos, com destaque para o VLT, e em ciclovias. Deveríamos apostar unicamente no transporte sobre trilhos, por todas as reconhecidas qualidades (eficiência, capacidade e redução da poluição). O VLT, que vejo com bons olhos, é ainda uma incógnita: não sabemos se será realmente um modal de grande utilidade cotidiana, ou mais voltado para turismo e lazer. De qualquer forma, ter estações nos grandes terminais (rodoviária e Santos Dumont) é sem dúvida um avanço formidável.

Quanto ao metrô, este foi gravemente afetado pela eleição da Barra da Tijuca como “coração” dos Jogos. Este sistema, reconhecidamente de alcance deveras limitado, há muito carecia de investimentos para expansão, através de novas linhas previstas muito antes da candidatura olímpica. Com o advento dos Jogos, o poder público decidiu alterar o projeto anterior, de forma a expandir o sistema unicamente até a Barra da Tijuca, ignorando necessidades de tantos outros bairros (sobretudo em espaços periféricos) e aspectos técnicos fundamentais: a invenção de uma linha contínua (prolongamento da Linha 1), de longa extensão, desde o Centro da cidade até a Barra da Tijuca, sem conexões que permitam desafogo, vai certamente gerar problemas crônicos de superlotação.

O Movimento popular “O Metrô que o Rio precisa” produziu uma crítica bem documentada a este projeto que subordina todo um traçado de linhas de transporte a um único megaevento. Também o Clube de Engenharia se pronunciou diversas vezes, denunciando a inviabilidade técnica do projeto, mas o governo estadual seguiu adiante, comprometido com acordos que privilegiam determinados interesses em detrimento da maioria da população.

Pequim (2008) e Delhi (Jogos da Commonwealth, em 2010) utilizaram o megaevento esportivo para efetivamente expandir sua rede de cobertura do sistema “metrô”. O mesmo ocorreu com Barcelona (1992), Londres (2012) e outras cidades, cujas “periferias” passaram a ser mais bem servidas pelos modernos sistemas de deslocamento em massa. Neste aspecto, nosso legado é bastante tímido, para não dizer “polêmico”.

Cumpre registrar que o projeto Rio 2016 também retoma, como outrora, a “onda de remoções em massa”, acentuando uma característica negativa da cidade: a segregração siocioespacial.

A escolha da Barra da Tijuca como “coração dos jogos” reforça aquele modelo urbanístico centrado no transporte individual e na insularização (shoppings, condomínios fechados) que esvazia os espaços públicos.

Por fim, a profunda renovação urbana da Zona Portuária prioriza a função turística e a formação de uma nova centralidade de negócios e serviços de alto padrão, o que não necessariamente deveria excluir usos sociais e culturais residuais, valorizando assim o supracitado “mixing”. De fato, os valores culturais vigentes em parte da sociedade brasileira, são conservadores e herdeiros da da tradição colonial “Casa Grande & Senzala”, de forma que propostas de mistura de classes sociais (tão vigentes na França, para citar uma realidade que conheço mais de perto) são mal vistas, e por isso negadas pelo mercado imobiliário.

Daqui para frente, em um contexto em que muitas cidades e países prósperos desistem de realizar megaeventos esportivos, que mudanças devem ser feitas daqui para frente no sistema de realização dos Jogos, além da alteração do discurso que os custos devem ser menores?

A agenda 2020 já sinaliza com novas perspectivas, ao flexibilizar o imenso pacote de exigências por parte do sistema olímpico. A possibilidade de desconcentrar geograficamente as instalações esportivas já permite a redução dos impactos e custos concentrados numa única cidade ou bairro, além de permitir explorar vocações de outras regiões bem como suas infraestruturas já existentes.

Como se define o que é legado e qual o tempo que se leva para concretizá-lo?

Legado é, por definição, aquilo que permanece após um evento. O que permanece no território, nas infraestruturas construídas (e nas destruídas), mas também nos aspectos imateriais, como os saberes adquiridos, e isso abrange não apenas “know how” organizativo e logístico, mas também, e agora falando mais diretamente da sociedade civil, a aquisição de informações e debates substantivos sobre sua cidade. E neste aspecto, temos um legado inteiramente acidental, ou seja, não planejado pelos organizadores: o avanço da cidadania (enquanto consciência dos direitos de cada citadino, e conhecimento acerca da própria cidade). As diversas iniciativas de organização, debate e ativismo social propiciaram considerável avanço do debate em torno da cidade, suas políticas, seus usos e nossos direitos nela.

Quanto ao tempo para concretização do legado, a literatura acadêmica aponta diversas metodologias de estudo e de mensuração, algumas sugerindo períodos de até quinze ou vinte anos para consolidação de um legado. O legado material é quase imediato (logo após a realização dos Jogos), embora parte dele dependa de ações posteriores (desmonte de estruturas para construção de escolas, por exemplo, ou liberação de áreas para uso público). E este abrange também a repercussão das novas estruturas materiais no território, seja nas formas de uso destas (geração de fluxos), seja na produção de novas estruturas pelo efeito da atração de novas atividades. O legado imaterial, por sua vez, é bem pouco tangível. Sugere, por exemplo, a difusão da prática esportiva, pelo estimulo provocado pelo evento e pelas instalações construídas. Mas isto depende fundamentalmente das políticas de gestão de tais equipamentos. No caso do Pan 2007, efetivamente não tivemos tal legado. Mas em Barcelona, a população conquistou novos espaços esportivos, bem como nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo (2003), que conheci in loco.

Em entrevista ao jornal Estado de São Paulo, o senhor disse que o Rio insistiu num modelo fora de moda e distorceu políticas urbanas. Cite exemplos, por favor. O que deveria ter sido feito?

Numa visão de longo alcance, é possível estimar que o Rio de Janeiro vai realizar a última edição faustosa e megalômana a história recente dos Jogos Olímpicos de Verão. As edições futuras tendem a custar bem menos, pois favorecidas pela nova política do sistema olímpico, que visa reduzir custos e impactos dos jogos e assim atenuar o evidente desgaste da imagem olímpica. Paris anuncia para 2024 um projeto olímpico com orçamento equivalente à metade da edição carioca de 2016. Em julho de 2015, mediante contestação social intensa, o governo japonês decidiu pela revisão radical do projeto do estádio olímpico para os Jogos de 2020, reduzindo bastante seus custos. Imediatamente, o presidente do Comitê Olímpico do Japão, Yoshiro Mori, formalizou pedido de desculpas ao COI. Este, por sua vez, e já demonstrando o novo “espírito” de tentar amenizar a desgastada imagem do urbanismo olímpico, aceitou o pedido afirmando “We highly respect this gesture”, nas palavras de Thomas Bach (REUTERS, 1 august, 2015). (Acesso em: 9 de setembro de 2015).

Portanto, esse modelo “gigante”, monumental e oneroso, que marcou um período específico na historia do urbanismo olímpico (entre 1988 até nossos dias) parece que estará em breve em desuso.

Quanto à distorção, me refiro ao caso do metrô, fundamentalmente.

A intenção do governo municipal na primeira vez que o Rio se candidatou aos Jogos era que eles fossem realizados na Ilha do Fundão? Teria sido melhor esta opção? O que fez mudar o local principal dos Jogos para a Barra?

Sim, nosso primeiro projeto olímpico era bem distinto do atual. Em circunstâncias distintas das que geraram mais tarde o projeto de realização dos Jogos Pan-americanos de 2007 e seu desdobramento direto, os projetos olímpicos 2012 e 2016, a elaboração do projeto de candidatura para 2004 baseou-se na perspectiva de intervenção urbanística pautada na redistribuição espacial dos recursos e de equipamentos, para tornar a cidade menos perversa em sua geografia social. Naquela ocasião, contamos evidentemente com as recomendações catalãs, que nos trouxeram a perspectiva do “equilíbrio urbano”, ou seja, a preocupação com a distribuição espacial das instalações, e o princípio de priorizar o uso de terras públicas, para desonerar o evento.

Pelo projeto, a então abandonada Ilha do Fundão teria adquirido um aproveitamento intensivo de seus vastos espaços, tornando-se privilegiada concentração de equipamentos esportivo-recreativos. Nela seriam construídos a vila olímpica e grande número de instalações esportivas. Vale ressaltar que tal infraestrutura estaria ao alcance de segmentos sociais de baixa renda que habitam o entorno imediato da Ilha, medida salutar face à crônica carência de opções de lazer para os habitantes da zona norte da cidade, que não desfrutou historicamente dos caudalosos investimentos públicos da zona sul, nem apresenta a morfologia moderna e descompacta da zona oeste, para onde se dirigem atualmente muitas das iniciativas no setor de lazer.

Muito difícil mensurar, no campo meramente hipotético, se este projeto teria resultado em bom legado para a cidade. São vários fatores a considerar. Mas creio que, de um modo geral, a cidade reduziria um pouco a forte desigualdade espacial na oferta de equipamentos de esporte e lazer.

O professor Istvan Kaznar, da Fundação Getúlio Vargas, diz que independentemente dos interesses imobiliários, a Barra era o local mais apropriado por sua beleza, localização, por sua expansão, por ser atraente para atrair turistas e por ajudar a projetar a cidade. O senhor concorda com isso?

A beleza é um valor subjetivo. Os catalães que estiveram em 1996 elogiaram muito a Baía de Guanabara e a Ilha do Fundão, por seu bucolismo. Nosso olhar preconceituoso nos impede perceber esta beleza. O fato de ser uma zona de expansão não justificar a realização do megaevento. Ao contrário, deveríamos buscar zonas que necessitassem de tal impulso de crescimento, e não aquelas que já contam com tal “vocação”. Por fim, resta indagar: quem ganha com a tal “projeção” da cidade?

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