A longa travessia de Manuel (Final)

Como um ex-pescador virou dono de um museu e de uma igreja

Armas e objetos do tempo de Antônio Conselheiro encontrados em Belo Monte
-Não vou deixar a história de Conselheiro morrer.

Essa foi a resposta que Manuel Travessa deu ao recusar a proposta feita por um holandês que morou 90 dias em sua casa, na Velha Canudos. O gringo ofereceu 10 mil dólares, o equivalente a R$ 10.389, em 1996, e R$ 37.700, hoje, pelo acervo de peças da Guerra de Canudos que o ex-fazedor de barragens e ex-pescador “ajuntou”.

As peças recolhidas de Belo Monte foram colocadas numa construção simples, em um pedaço de terra doado pelo o amigo João de Dom. O pequeno museu fica ao lado da igreja de São Pedro, outra obra de Manuel.

-Vinha muita gente visitar o povoado de Canudos Velho. Vinha brasileiro, vinha pessoal da Itália, da Holanda, dos Estados Unidos. Vinha visita de Portugal e do Japão. Eles queriam ver o arraial do Conselheiro, mas só viam água. Resolvi fazer o museu.

Além de colecionar as armas do exército e de conselheiristas e outros objetos, Manuel também pediu ao povo do lugar para que doassem o que tinha. Às vezes, pagava por uma peça.

Munição usada na guerra entre o exército e os seguidores de Antônio Conselheiro

Como os recursos eram poucos, a primeira porta do museu foi de madeira.

- Na terceira vez que se formou a romaria de Antônio Conselheiro, quebraram tudo e carregaram metade das coisas. Então saí por aí, recuperando as peças que mais gostava. E as outras também.

Primeiro, ele trouxe de volta uma barrica de pólvora para canhão, feita na Alemanha. Depois, uma espingarda “dono do mato”, caixas de balas de canhão, um bico de bala de canhão e munições de fuzil.

A proposta do holandês não foi a única recusada por Manuel Travessa. Recentemente, a Universidade do Estado da Bahia, que administra o memorial Antônio Conselheiro, na nova Canudos, tentou convencê-lo a doar seu acervo para a instituição.

- Respondi que não foi a Uneb que me deu aquilo não. Falei que fiz a coleção por prazer de receber qualquer turista que visitasse Canudos Velho. Agora, vou deixar tudo para meus bisnetos e tataranetos.
Chaves, estribos, ferraduras, fechaduras, estribo (provavelmente de prata) do exército, pilão e barrica de pólvora

O dono do memorial diz que pedem o material, mas ninguém se propõe a ajudar a mantê-lo. Ele afirma que já fez diversos pedidos aos órgãos municipais e estaduais, mas nunca obteve uma resposta positiva.

Em seus planos estão uma obra para reforçar a segurança da construção.

-As paredes são de adobe cru, nem assado é.

Há previsão ainda de construção de um refeitório, um alojamento para dar dormida aos visitantes e um espaço para expor sua coleção de patacas, dobrões e vinténs, guardadas em outro lugar.

O museu histórico de Canudos Velhos guarda antigas fotografias, ferramentas e santuários

Manuel fala, com orgulho, que levou o ex-presidente Lula “na tora” para visitar o museu. O político não passou da porta para o lado de dentro, no dizer do ex-pescador. Limitou-se a dar uma olhada e ir embora.

As visitas ao museu não são cobradas. No entanto, qualquer ajuda é bem vinda.

A IGREJA

Recursos para a construção da igreja de São Pedro saíram dos bolsos e dos braços de Manuel Travessa

Um dia o chefe das águas do açude de Cocorobó, João Gato, e do DNOCS, Manuel Bonfim, se tocaram que o povoado de Canudos Velha não tinha um padroeiro. Como era uma vila de pescadores, nada mais justo que oferecê-la a São Pedro. Decidiram, então, criar um evento que unia uma corrida de barcos a um concurso da embarcação mais enfeitada. O vencedor ficaria responsável pela imagem do santo.

- Ganhei e resolvi construir a igreja para colocar o pleno de São Pedro. Não tive ajuda. O recurso era tirado da boca.

Hoje, sentando numa cadeira do restaurante da família, em Bendegó, o construtor dos cartões postais de Canudos Velho diz que não tem mais como investir em suas obras. Reclama do valor da aposentadoria de trabalhador braçal e acrescenta que o tempo de vereança não serviu para melhorar os rendimentos porque a Câmara não recolhia benefícios.

-Bem que podiam me indenizar ou dar uma aposentadoria pela minha inteligência, minha luta e minha idade. Escreve isso na reportagem -, pede enquanto toma um cafezinho.

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