A longa travessia de Manuel (Parte II)
De como um pescador analfabeto se lança com sucesso na carreira política

Os peixes fizeram milagres na vida de Manuel Travessa. Em três meses, eles viraram um quarto e sala próximo da Igreja Velha de Antônio Conselheiro, que ainda não tinha sido engolida pelas águas do açude.
O tempo do pescador se dividia entre a construção de sua casa e as feiras livres do povoado de Cocorobó, (a atual Canudos), Uauá e Euclides da Cunha. A vida ficou melhor quando ele passou a vender cachaça e cerveja. Em vez de pescar, passou a comprar o que seus amigos tiravam das águas da barragem para revender o pescado em Itabaiana (SE). A casa ficou maior, ganhou outra sala.
A vida continuou em torno das barragens. Quando a Usina Hidrelétrica de Sobradinho ficou pronta, Manuel tinha comprado um caminhão velho. A quantidade de peixes no lago artificial o fez voltar a pescar. Ficou dois anos nessa lida. Voltava para casa, a 232 km de distância, de 15 em 15 dias. Como era um dos poucos que tinha veículo, passou a socorrer os vizinhos que precisavam de atendimento médico:
- Eu sem leitura, sem saber ler nem escrever, e com minha pobreza, não deixava ninguém morrer. Levava as pessoas para Euclides da Cunha para o Dr. Humberto atender.
E foi assim, entre a caridade e o assistencialismo, que o ex-fazedor de barragens, pescador e feirante conseguiu os votos que o elegeram por cinco vezes vereador. Mas em 1988, a lei proibiu a eleição de analfabetos.
- Nunca gostei de mentir. Declarei para a juíza a verdade. Coloquei, então, minha filha mais velha para concorrer a vereadora e a outra filha, de média idade, para tentar ser vice-prefeita.
Maria de Lourdes, atualmente com 37 anos, natural de Euclides da Cunha, concorreu com o nome de Tonton de Travessa, em 2004. Estudou apenas as primeiras séries do ensino fundamental. Não foi eleita.
Pérpetua, a primogênita, completou o ensino médio. Nascida em Itiúba, hoje tem 54 anos. Foi eleita duas vezes pelo PSDB. Na terceira vez, em 2012, virou suplente.
A explicação para a filha não ter obtido o terceiro mandato, Manuel tem na ponta da língua: “foi por causa das sublegendas partidárias” (quociente partidário, quer dizer).
O ex-vereador, no entanto, se irrita ao voltar a falar da lei que o impede de concorrer:
- Deviam aplaudir o analfabeto ser vereador. Por que a lei aceita o voto do analfabeto, mas ele não pode ser candidato? Vou lhe dizer uma coisa: serei candidato de novo este ano. Estou na luta. Se me denunciarem, boto minha filha Perpétua em cima da hora. Não vou deixar meu ser humano desamparado — diz Manuel, que tem seis filhos (um morreu), criou quatro sobrinhos, não se lembra da quantidade de netos e fecha a conta com 12 bisnetos. (continua)