Os Regis de Belo Monte

Família que mora no Parque Estadual de Canudos está lá desde o tempo de Antônio Conselheiro. Uneb tenta tirá-la, pagando indenização

Bisavó e avó de Pedro Regis foram presas pelo Exército durante a Guerra de Canudos. Irmão de seu bisavô foi morto

Pedro Regis disse não a duas ofertas da Universidade Estadual da Bahia (Uneb) que tenta tirar as três últimas famílias que moram no Parque de Canudos, onde foram travadas as últimas batalhas entre sertanejos e o Exército. Aos 74 anos, ele diz que só sai dali para o cemitério.

Descendente de conselheristas, conta que o irmão de seu bisavô, José, foi morto no confronto e que sua bisavó, Zefa, e sua avó Maria, foram presas pelos soldados e ficaram entre três e seis meses na cadeia. Todos traziam Guerra no sobrenome.

-As mulheres tinham saído para buscar comida e quando voltaram o cerco a Belo Monte estava fechado. Elas foram detidas e levadas para Salvador -, conta.

Foto da família Regis feita pelo fotógrafo Evandro Teixeira em uma de suas passagens por Canudos

Os mais antigos dos Regis viveram no arraial de Conselheiro. Após a destruição do local, eles se mudaram para a segunda Canudos, que surgiu por volta de 1910 sobre as ruínas de Belo Monte:

-A terra era boa lá. O que se plantava dava. Não era à toa que Conselheiro falava que o rio era de leite e as ribanceiras de cuscuz. Em 1950, quando começaram as obras da barragem de Cocorobó, viemos para aqui para cima, onde não dá para plantar nada, só criar cabras e bois. Quando o nível da barragem descia, plantávamos feijão e milho no leito do rio-, diz o sertanejo.

Se nutre revolta contra a Uneb que tenta tirá-lo de lá, indenizando-o, Pedro tem mais de um motivo para querer ficar. Foi lá que ele criou os sete filhos e onde passou a infância com os 12 irmãos.

-Tenho saudade da irmandade, Quando crescemos, a maioria se mudou. Nós brincávamos de fazer casas e ruas com as pedras daqui.

Casa dos Regis tem luz solar, colocada pelo governo estadual há pouco tempo, mas seu Pedro, que sempre viveu no escuro diz que ela não é boa. O carro é de um morador da cidade que deu carona para o amigo.

OUTRA GERAÇÃO

Paulo, um dos filhos de Pedro, é um dos cinco guias credenciados pela Uneb, após curso de capacitação, para levar turistas ao Parque. Ele cobra R$ 140 para conduzir os visitantes por todo o parque, que tem 1,321 hectares, e R$ 50 por um passeio rápido. A propriedade de seu pai ocupa 300 hectares do total.

Além de bom conhecimento da história e geografia do local, Paulo tem uma surpresa para quem o contrata. A visita sempre termina em sua casa, onde ele mostra objetos de Canudos, que encontrou ou comprou, fotos de sua família e de sertanejos e roupas de couro, a principal atração para os turistas que tiram selfies vestidos como vaqueiros.

Espingarda, munição, pregos, uma pistola pequena e outros objetos fazem parte da coleção de Paulo

O sonho do guia é construir um museu em sua casa. Seria uma homenagem ao bisavô João Regis, que morreu aos 99 anos, em 2002. João negociava bodes e peles e foi personagem de um documentários sobre as famílias sobreviventes de Canudos, baseado em fotos de Evandro Teixeira, que ele faz questão de mostrar.

Aos 26 anos, o jovem, por enquanto, não pensa em deixar o parque:

-Está dando para viver. Todo mundo está voltando da capital (Salvador), onde o desemprego é alto- diz.

Apesar de ver vantagens em ficar em sua cidade natal, o rapaz descarta possibilidade de casar. “Como vou casar num lugar desses?”, questiona.

Paulo mostra fotos de sua família nas ruínas da primeira cidade de Canudos

Sobre seu futuro museu, o guia revela que tem investido em seu sonho. Ele chega a comprar peças por R$ 300. Aliás, o comércio de peças de Canudos na região é movimentado. Uma bala de canhão não deflagrada chega a custar R$ 6 mil.

Em seus planos, Paulo não quer cobrar ingressos, mas deixar os visitantes à vontade para dar colaborações. Ele acredita que os tempos de hoje não são muitos diferentes da época de Antônio Conselheiro:

-Há muita roubalheira e cobrança exagerada de impostos.