O hospital

Começo essas mal traçadas linhas para falar do nosocômio, esse santificado ambiente de socorro, de recuperação, de conforto para as chagas do corpo e da alma.

Quando penso em um hospital, me vem à memória aquele quadro de enfermeira com o dedo delicadamente em riste sobre os lábios, silenciosamente nos pedindo silêncio. Silêncio diante da dor de quem a sofre. Crianças, idosos, mulheres e jovens sofrem, sofrem dignamente a dor de sua incapacidade de compreensão. Um sofrimento que tenta corrigir.

Homem não sofre. Aliás, sofre sim, sofre calado enfrentando os medos que suas dores lhe impõem. Sofre a dor do preconceito, do medo do tamanho do dedo e da vergonha.

O relógio biológico de nossa vida não para. Ele reserva também para os homens a chegada do momento de desespero, da dor insuportável, da dor que pede o bálsamo quase sempre com escândalo.

Temos em nosso subconsciente um instinto de preservação da espécie, instinto de sobrevivência, um instinto que nos iguala e revela a compaixão mútua ou a vergonha alheia.

Escrevo essas linhas pensando no garotinho, sim naquele garotinho inocente, que carregava em si os medos tão comuns a serem enfrentados na vida adolescente, nas puberdades descobertas e desbravadas, na idade adulta. Trazemos essa bagagem em nossas mochilas infantis, esquecidas as experiências que nos faziam puros como crianças e quando crianças.

São essas bagagens que nos irmanam, que nos fazem ter a compaixão.

Pois esse garotinho cresceu. Cresceu e virou político, pai de família, ativista religioso, como político foi governador de Estado. Será que roubou? Acho que sim, ao menos é o que todos dizem e sempre disseram, mas agora é a justiça eleitoral quem diz. Não só roubou, como chefiou uma quadrilha, usurpou o dinheiro público que devia ser usado “para os que mais precisam” para comprar votos em campanha eleitoral, tenho repulsa à essa expressão pré-fabricada por políticos populistas, tão desgastada nas bocas desses políticos corruptos, ladrões e praticantes da desfaçatez política democrática de fachada, uma política que enriquece os mais ricos e empobrece os trabalhadores.

Essa vergonha alheia, essa compaixão que carregamos guardadas no peito fazem com que tenhamos dó. Pena dos esperneios, cá entre nós, esperneios teatrais, crises hipertensivas no desespero do mundo que cai. Vertigo. Sim, um corpo que cai, cai nas objetivas da televisão, um corpo que esperneia na ambulância, tendo ao fundo gritos de desesperos da filha de um suposto pai herói. Um corpo que cai nas redes sociais. Uma vergonha alheia.

Talvez tenha sido essa vergonha alheia que tenha vendado os olhos da Justiça Brasileira, essa compaixão compartilhada que tenha feito com que um Juiz com o jota maiúsculo colocasse esse garotinho que desviou-se do caminho do bem, na terrível pena da prisão domiciliar.

Náuseas me chegam do estômago à boca embolando minha garganta. Devo parar por aqui, pois quanto mais vivo mais surpresas tenho e encerro meu desabafo com a certeza de que ainda não vi de tudo que a vida me reserva, mas com um tremendo receio de que perca minha capacidade de indignação.

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