Contrato de Dois Anos

A corretora imobiliária nos mostra mais um apartamento. O terceiro do dia.

- A cozinha abre direto na sala de jantar e estar.

Ela só fala o óbvio e não para um segundo. Queria que ela não estivesse aqui.

- Se vocês seguirem por esse corredor chegam nos dois quartos e no banheiro.

Queria poder observar tudo mais calmamente. Ir de cômodo em cômodo sem ela vindo atrás. Falando. Nos impulsionando para frente.

- E esse é o banheiro.

O João Henrique parece não se importar. Não sei como, logo ele.

- Os quartos tem um bom tamanho, e já vem com armários embutidos.

Eu sigo para dentro do banheiro e ligo o chuveiro. A pressão é boa. A corretora coloca sua cara redonda pela porta.

- Querida, o que você tá fazendo? Não precisa testar o chuveiro em todos os apartamentos que vemos. A pressão é boa, a pressão sempre é boa.

Claro que preciso. A pressão pode ser ruim. Tomar banho quando a pressão é ruim é uma das piores coisas que tem.

Como eu queria que essa corretora não estivesse aqui, como eu queria poder ver tudo sozinha, sem pressa, sem ela.

- Desculpa, é que …

Eu começo a falar, mas ela nem se importa, já foi embora. Provavelmente deve ter ido apontar para uma janela e dizer que aquela é uma janela e dá para fora do apartamento.

João a segue para todo lado. Ouvindo com atenção tudo que ela diz. Logo ele, tão independente, seguro de si, praticamente impossível de fazer algo que não queira. Para convence-lo de algo, geralmente preciso induzi-lo a pensar que a ideia foi dele. Talvez esse seja um lado que não conhecia ainda. O lado dele que segue, que ouve. Talvez seja porque esse vai ser o primeiro apartamento dele. O primeiro lugar que vai morar que não é com os pais, e, não só isso, mas ele morou na mesma casa a vida toda.

Acho que já morei em uns dez lugares diferentes. Não importa o que a corretora vá falar, eu certamente já ouvi. Eu conheço o jogo dessas corretoras, como elas se comportam. Elas fingem estar do nosso lado, assim como provavelmente fingem estar do lado do dono do apartamento. A verdade é que estão do lado delas e delas apenas. Querem a comissão, o dinheiro, e só isso. Ela não é nossa amiguinha.

Queria poder avisar isso ao João. Queria poder orienta-lo sobre como se comportar. Mas acho que ele não iria me ouvir, ele é muito … bom … o João.

Queria poder ver apartamentos sozinhos, só eu e ele. Poder sonhar com onde vamos colocar os móveis, discutir sobre o layout ideal do apartamento. Uma discussão totalmente inútil, nada fica perfeito de primeira, mas que certamente iria criar uma lembrança divertida. É sempre bom criar essas memórias, passar esse tempo sozinhos, construir a nossa fundação juntos.

Procurar apartamento pode ser divertido. Sonhar com o futuro, com tudo que vem com ele. Sonhar com um mundo ideal onde tudo vai dar certo por pelo menos os próximos dois anos.

Dois anos. Talvez essa seja a parte mais complicada. O tempo do contrato. Lembro de todas as vezes que mudei com meu pai. Lembro que a cada uma aprendíamos um detalhe novo para prestar atenção — pressão do chuveiro, da privada, das pias, quantidade de tomadas nos cômodos — isso, quantidade de tomadas.

Por sorte a corretora está na sala falando e falando coisas inúteis para o João, vou aproveitar para ver os quartos e quantas tomadas eles tem.

Sempre acho estranho ver quartos vazios, sem nada. Parecem menores do que são. Difícil imaginar como todos os seus móveis vão caber ali. E de primeira geralmente não fica bom. Pelo menos pra mim, nunca ficou. O tempo vai passando e vou aprendendo onde colocar cada móvel, e aprendendo a utilizar o espaço da melhor maneira possível, mas ai chega o fim do contrato. E ai? Ir embora e procurar algo novo? Ou continuar naquele lugar que você já transformou na sua casa?

Dois anos, dois anos é bastante tempo. Eu e João estamos juntos tem mais do que isso. Nos conhecemos em uma época que eu não estava no meu melhor. E ele, ele me ajudou, do jeitão dele, meio bruto com palavras, bronco até, mas ajudou. Não foi necessariamente fácil aturar o jeito dele de primeira, mas com o tempo aprendi a apreciar como ele é. Podia não ser o cara mais gentil quando fosse falar, mas parecia estar sempre atento. Quando menos esperava ele fazia, ou falava, meio que sem querer, exatamente aquilo que ia levantar o meu espírito. E ele sabe a hora de ficar calado. Um cara de muitas opiniões, que não faz nada que não está afim, mas sabe sempre a hora de não falar nada e apenas estar ao seu lado, fazendo companhia.

Vou para a sala onde a corretora e o João estão conversando. Nem presto atenção. Por que iria? Certamente não é nada de útil. Provavelmente está falando que a geladeira serve para guardar comida, ou algo assim. Ela não é capaz de falar nada de útil.

- Você tem uma planta baixa do apartamento? — Eu interrompo o que eles estão falando sem me preocupar com o que era.

- Então é esse o apartamento que vocês mais gostaram? Esse que vão ficar? — por isso queria vir sem ela, apenas com o João, sem essa pressão de escolher assim, do nada.

Não respondo. Eu odeio responder essas coisas. Odeio lidar com pessoas que não conheço. Odeio esse tipo de interação. Perguntei sobre a planta baixa, por que ela já tem que levar para o outro lado? Por que ela já tem que perguntar se esse é o apartamento no qual eu vou passar os próximos dois anos?

Os próximos dois anos com o João.

- A gente ainda não sabe Diana. Calma ai. — E ele começa a rir bem alto. Eu amo essa risada dele. Morro de vergonha dela, mas eu amo mesmo assim — Mas é sempre bom ter esse tipo de coisa. Po, mo ajuda depois, na hora que formos escolher. — João percebeu a minha irritação, a minha falta de vontade de lidar com isso. Ele sempre percebe. E, como sempre, entrou no meio e desarmou a situação.

João leva a corretora para outro canto, puxando conversa, algo inútil, irrelevante. Ele sabe que é isso que preciso agora, que é o que precisamos agora. Seria tão melhor sem ela aqui, sem ela nos perturbando. Essa dança de tentar olhar as coisas enquanto ela tenta nos apressar me incomoda. Eu não quero me apressar, eu quero as coisas no meu tempo. Sorte que o João entende. Sorte que ele me ajuda. É um contrato de 2 anos. Muito tempo. Eu quero ter certeza do que estou fazendo.

Sempre foi assim, desde que nos conhecemos. Antes de assumirmos que éramos namorados, antes de eu aceitar a ideia, ele sempre estava lá. Quando qualquer alguém falava sobre isso, se estávamos namorando, ele sempre mudava de assunto sutilmente. Ele queria dizer que sim, estávamos namorando, eu sei disso, mas mesmo assim ele me respeitava. Ele me pediu muito cedo em namoro, pouco depois de nos conhecermos, e eu disse não. Eu pedi para ele esperar. E ele esperou. Eu não queria ficar com mais ninguém. Só não queria o compromisso.

Tiro a trena da bolsa e começo a medir o apartamento. Vou anotando tudo no meu tablet, fazendo um sketch tosco do apartamento. Um sketch para nos guiarmos depois. Uma maneira de poder visualizar o apartamento, onde toda a nossa vida se encaixa nele. Estamos juntos tem tanto tempo que é fácil imaginar nossa vida. Imaginar nosso futuro.

Mesmo assim, tanta incerteza. Nunca passamos mais do que um final de semana juntos. Teve aquela longa viagem de carro. Quase duas semanas juntos. Mas era férias, não a vida real. De férias tudo é perfeito. Não, na vida real o máximo que passamos juntos foi um final de semana. Não um na verdade, todos. Mas não mais do que dois dias de cada vez.

E, sozinha, eu meço a sala. Conto as tomadas. Anoto tudo. E na minha cabeça já começo a imaginar como os meus móveis vão caber nessa sala. Eles vão caber com folga. Acho que vamos precisar de mais coisas para não parecer tão vazia. Tão solitária.

Estou sozinha tem tanto tempo. Tanto tempo. Não é fácil dividir a vida, dividir os dias, dividir um apartamento. Dividir não vem fácil pra mim, mas eu tenho que tentar. O dinheiro está acabando. E quem melhor do que a pessoa que mais me entende, a pessoa que menos me incomoda, a pessoa que mais sinto vontade de estar perto?

Mesmo assim, dois anos parece tanto tempo. Se somar esses dois anos aos mais de três que já temos juntos e vamos ter ficado quase seis anos juntos. Mais do que minha mãe ficou com meu pai.

Nem lembro dela de verdade. Ela nos abandonou quando eu tinha uns três ou quatro anos. Não lembro. Não quero lembrar. No início meu pai me contava sobre ela, mas o tempo passou e ele parou. As fotos foram perdidas. E as memórias esquecidas. Depois da morte do meu pai não existe mais ninguém que realmente lembre dela, que guarde algo dela.

Bom, isso não é verdade, ela provavelmente tem uma vida toda. Uma vida que eu não sei. Uma vida a qual eu não faço parte, que meu pai não fazia parte.

O que mais dói não é ela ter me abandonado, é ela ter abandonado meu pai. Ele sempre pareceu ama-la tanto. Sempre pareceu esperar que ela voltasse, mas ela nunca voltou. Nunca deu sinal de vida. Nem quando ele estava doente, morrendo, nos últimos suspiros. Ela nunca voltou. Nem quando ele morreu e eu fiquei sozinha, aos 22 anos. Eu nem tinha terminado a faculdade ainda. E eu já estava completamente sozinha.

O sketch que fiz nem é de todo mal. Eu começo a ir para os outros cômodos, esqueci de medi-los antes.

Esbarro com João e a corretora.

- E ai querida? Já terminou? Podemos ir para o próximo?

Eu nem preciso falar nada, só um olhar para o João e ele já sabe o que fazer.

- Diana, um segundo esqueci de perguntar umas coisas aqui na sala.

E ele a puxa pra sala, tirando-a do meu caminho. Como eu preferia estar só com o João aqui. Seria tão mais fácil.

Meu pai dizia que eu era tão parecida com a minha mãe. Todos diziam isso. Eu não quero ser parecida com ela.

Lembro do meu pai dando aquele sorriso de canto de boca sempre que eu me isolava, pegava meu violão e passava horas tocando, praticando, aprendendo. Sempre que eu me escondia do mundo, ele olhava nos meus olhos e dizia “você me lembra da sua mãe”.

Tenho medo disso, de ser parecida com ela. Se ela não aguentou uma pessoa tão boa quanto o meu pai, imagina se eu vou conseguir aguentar o João. Meu pai era tão … o João é tão … nem sei. Difícil explicar. Eles são bem diferentes. Em tudo. Sinto tanta falta do meu pai.

Meu maior medo é esse: ser como a minha mãe. Não quero ser como ela. Não quero agir como ela. Sei que todo mundo sempre falou isso como elogio. Se alguém como meu pai podia ser tão apaixonado por ela, então ela não devia ser de todo mal. Mas não quero ser como ela, não quero abandonar um compromisso. Não quero largar pessoas que gosto, que amo. E não sei se consigo. Se consigo ficar tanto tempo em um lugar. Parada. Dois anos parece tanto tempo.

Termino de medir tudo. Termino de fazer o meu sketch e volto para a sala, encontrar os dois.

- E ai querida? Mediu tudo? Prontos pra assinar o contrato?

Eu realmente não gosto dela. Sempre nos apressando.

- Você não disse que tinha mais um pra mostrar pra gente?

João, sempre desviando o assunto. Sempre me salvando.

- Ah sim, claro.

Nos olhos dela eu vejo um pouco de raiva. Ela queria fechar o negócio, assinar o contrato, e sabe que o João assinaria se não fosse eu. Ela sabe que eu sou o problema. E ela me odeia por isso. Só quer o dinheiro, nada mais.


Mais tarde, no carro, indo para um quarto apartamento, eu e João conversamos. Eu digo que sei o quanto ele gostou do apartamento, e peço desculpas por não ter certeza ainda.

- Fê, meu amor, não precisa decidir assim não. Não temos pressa. Sempre há tempo pra pensar e esperar. E eu não me importo de fazer isso com você. Adoro planejar nosso futuro juntos, mas tem que ser com calma, né? Não queremos entrar em nada antes de nos sentirmos confortáveis.

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