Engana, bobo!
Sábado, dia 25 de junho de 2016, 7:51 da noite. Horário quebrado, com a exatidão que eu gosto. Resolvi sentar no meu computador e contar um pouco das aulas de Cross nos sábados.
Algumas de nossas manhãs de sábado costumam ter Crossfit. Um treino diferente: mais duro, mais longo, mais difícil, mais competitivo, mais coletivo. De vez em quando ele é mais aberto e tem o nome de Aulão. Na maior parte das vezes ele é mais fechado e não tem nome, é apenas o Treino de Sábado. Pra mim nem precisa de ter nome, só de ter as palavras "sábado" e "treino", já dá pra ver que é bem diferente.

Saí de casa mais cedo, passei na casa dos meus pais pra buscar uma camisetas de Crossfit que haviam chegado. Já fui com a mochila, preparado pra treinar. Fiz uma hora, tomei um café, comi um pão de mel que minha mãe ofereceu, peguei o carro e desci.
Deixei o carro na garagem de casa antes e fui direto pra academia, pro box recém reformado, agora com mais cara de Crossfit (Cross MMT).
Assim que entrei no box já encontrei os fominhas, os "cabulosos" pra melhor dizer. A parede estava lá, toda desenhada, dividida e planejada pelo nosso Mestre. Do lado esquerdo tinha os trios já montados e do lado direito o WOD (Work-out of the Day).

Só quem faz Crossfit (e gosta de verdade) sabe o que é olhar para os trios do desafio. Você não olha só se a sua equipe ficou forte, você olha para todas e faz aquela comparação de todos com todos em apenas alguns segundos e já fica imaginando qual ficou melhor, se a divisão foi justa, se o mestre está puxando pra lado dele :) , se alguém faltou e vai atrapalhar o equilíbrio.
Ao mesmo tempo você sente falta de alguns "Cabulosos" que não puderam ir, porque sabe que se todos estivessem lá, aí sim, ia ser aquele WOD que quase nunca acontece, aquele em que "está todo mundo". No primeiro momento achei a minha equipe mais fraca que as outras, não pelos integrantes, mas porque sabia que eu não estava nos meus melhores dias. Sabia que pelo WOD eu não me daria bem contra os "cabeças" de cada trio. Percebi também que quase todos os fominhas estavam ali, o que é difícil de acontecer.
O engraçado é que esse é o cenário que eu mais gosto: olhar para a parede e ver pelo menos alguma coisa que faz parte dos meus pontos fracos, pelo menos aquele exercício que eu sei que ainda não consigo direito. "Ainda vou conseguir", é um pensamento que fica na cabeça até o final do WOD. Prefiro os treinos em que eu sou o "underdog" do que aqueles em que eu sou um dos "favoritos".
O termo underdog é usado nos países anglófonos para designar o perdedor esperado de uma competição (geralmente política, esportiva, artística ou literária). Uma vitória inesperada do underdog chama-se upset. No português do Brasil, o underdog corresponderia ao chamado azarão. O ganhador esperado, ou seja, o indivíduo dominante em uma situação de competição ou numa hierarquia, é chamado de overdog,[1] ou top dog, [2] ou seja, o favorito da competição.
Essa também é a parte que eu mais gosto do Cross, a surpresa do dia. Você só sabe o treino na hora, então é só ali quando bate o olho na parede e vê o Warm Up, o Skill e o WOD é que sabe (imagina) como vai ser. Não tem fórmula melhor contra a monotonia do que essa.
Esperamos o restante chegar, o horário do início. Sempre reparo também na diferença entre os que a gente chama de "Cabulosos" e os normais.
Cabuloso: atleta/aluno de crossfit que é considerado um fominha. Aquele tipo de fominhagem que vence a doença, a ressaca, as poucas horas de sono e qualquer vontade de ficar na cama. Não sempre, mas quase isso.
É fácil reconhecer um cabuloso. O Normal, ou o "não cabuloso", chega, cumprimenta todo mundo, bate o olho rapidinho na parede. No máximo olha o próprio trio e uma olhada rápida na lista do WOD pra saber se vai dar conta.
Um Cabuloso não. Ele chega, cumprimenta o Box, olha pra parede, pára na frente e analisa um pouco. Faz a média dos trios na cabeça e consegue calcular se o dele tá com uma média alta ou não. Cada um analisa de um jeito, mas sempre tem aquela comparação. Alguns são mais competitivos que os outros, então sempre rola um questionamento ou outro. Eu particularmente não questiono, confio na divisão do Mestre, sei que ele pensou o melhor que achou no momento.
Mestre: Professor Fortes. Uma mistura de falta de paciência com paciência, um fominha, um Cabuloso. Um desequilíbrio equilibrado. Professor e Aluno ao mesmo tempo.
Começamos com o tradicional discurso do Mestre, uma mistura de mau humor com bom humor, de pessimismo com otimismo, de avisos com orientações, de zoação com incentivo. É como eu falei, um desequilíbrio bem equilibrado.
Depois das orientações, todo mundo começou a se preparar. Barras e pesos nos lugares, estratégias montadas pelos líderes mais competitivos, expectativa no ar do box . O Mestre dá mais alguns avisos finais e pega o controle do relógio e do som. Todos se preparam e quando começam os apitos e a música, tudo vira WOD.
E o desafio de sábado é especial porque ele é coletivo. O individual nessa hora é mais pra incentivar o outro do que pra melhorar o tempo. Uma coisa leva a outra. Pra mim não faz tanta diferença se a pessoa não dá conta, o importante é se ela tá lá dando o seu melhor, do mesmo jeito que eu, não importa a ressaca, o sono, a dor no ombro, a TPM, o nariz escorrendo, ou que o for. Naquele momento, o que vale é o WOD, é dar o sangue junto.
Só estando lá é que você entende. É mais ou menos assim: você tira o foco do seu trio, repara nos outros e sente o olhar de um outro Cabuloso. No fundo você sabe que ele está pensando a mesma coisa que você naquele momento. Somente quando você sentir essa energia é que um dia vai entender o que é o Crossfit. Só quem já competiu desse jeito sabe que no final o que mais importa não é quem ganhou, mas sim a energia, o sangue coletivo, a raça, a parceria. O treino só acaba quanto todos acabam. Essa é a regra principal, e pra mim é a que mais vale.
Se você já viveu isso, já sentiu o que é fazer parte disso, então pra mim você pode falar o que é Crossfit. Agora, se você só fala coisas do tipo "isso só serve pra lesionar", "isso é só engana bobo, não dá resultado", "isso é fácil", sinto muito dizer meu amigo, você não sabe o que é. Você nem chegou perto!
"Engana-bobo"?
Ou seria
"Engana, bobo!"