“A revanche do Chico”, ou “E quando essa direita estiver no poder”?

Qualquer pessoa minimamente versada em história sabe que nada dura para sempre. Quem está no poder amanhã não está mais, e quem é oposição hoje é governo amanhã. Não só, a História é irônica. O Vargas que liderou uma revolução armada contra a oligarquia paulista morreu com um tiro no peito. Os militares que acusavam os governos civis de irresponsáveis deixaram o governo com o país na bancarrota. O Collor caçador de marajás foi afastado por corrupção. O FHC da estabilidade entregou o país em crise. E o PT da ética na política está envolvido no maior escândalo ético de nossa história.

Por isso posso me dar ao direito de extrapolar o cenário atual e imaginar: e quando esta direita que xinga o Chico Buarque na rua estiver no poder? Detalhemos: o presidente da República é o Bolsonaro. Eduardo Cunha, reabilitado, é o ministro da Justiça. Feliciano responde pelos Direitos Humanos. Rogério Chequer é ministro do Desenvolvimento, e Olavo de Carvalho é o ministro da Cultura.

O governo Bolsonaro assumiu com elevadas expectativas da população, após o fracasso do projeto petista e a frágil transição conduzida pelo PMDB. Seu discurso de ordem e moralidade contagiava a população, que o chamava nas ruas de Bolsomito.

A palavra de ordem era austeridade. Austeridade na política, endurecendo o combate à corrupção. Austeridade econômica, com forte redução de gastos públicos, especialmente nos projetos sociais. Austeridade moral, indicando ministros do STF contrários à causa gay e à ideologia de gênero. Austeridade internacional, fechando embaixadas em países como Irã e Coréia do Norte.

Tudo ia bem, com fortes índices de crescimento econômico e investimentos, até a primeira crise internacional, causada pela especulação de títulos públicos de Cuba, após o país ser inundado de capital especulativo após a lei Helms Burton ser revogada. Como reação, houve uma fuga de capitais dos mercados emergentes, levando a uma brusca redução de reservas internacionais no Brasil.

Por conta do desmonte da rede de proteção social, o impacto foi imediatamente sentido pela população mais pobre. Como resultado, uma onda de saques ocorre em várias cidades. A polícia, sem receber salários, recusa-se a controlar a multidão e adere aos saques. De uma só vez, o discurso de austeridade e ordem desmorona.

Enquanto o presidente Bolsonaro busca dar respostas à crise, um novo escândalo se apresenta quando vazam imagens do presidente da República aos amassos com o ministro Feliciano em um baile de Carnaval no Planalto. De uma só vez, a popularidade do governo cai e pelas redes sociais são organizados atos de massa pelo impeachment.

Chico Buarque e Emicida são os ídolos das manifestações que reúnem três milhões de pessoas em todo o país. Jean Wylys é ovacionado quando discursa na Paulista. Senhorinhas de classe média defendem a ditadura do proletariado e a volta da União Soviética, com cartazes em que se lêem dizeres como “bom mesmo era a Stasi”; “ Volta KGB” ou “Por que não vencemos no Araguaia?”.

Neste cenário, uma noite, Túlio Dek estava saindo de um restaurante no Leblon. É quando um grupo de jovens grita do outro lado que ele é um merda, que todo aliado do Bolsonaro é ladrão, e que é fácil defender o governo morando fora do Brasil.

E aí?