Minhas experiências com o olavismo

Olavo de Carvalho nunca me enganou. Talvez porque a minha primeira experiência envolvendo sua pessoa demonstrou uma incrível incapacidade de entendimento das coisas reais. Talvez porque as seguintes confirmaram essa primeira impressão.

Até 1998 eu pouco tinha ouvido falar de Olavo de Carvalho. À época eu era um estudante de Filosofia do primeiro ano na USP, e por esta razão havia testemunhado um momento histórico para o departamento. Na mesa de abertura do Seminário Anual de Iniciação Científica, o professor Oswaldo Porchat, tradicional defensor do método da leitura estrutural de texto, fez uma longa revisão de suas posições. O fato era ainda mais relevante porque ao seu lado estava José Arthur Giannotti, que havia inaugurado uma visão crítica ao método estrutural, sendo visto como o contraponto de Porchat.

Para quem não é versado no campo acadêmico da Filosofia no Brasil, o método da leitura estrutural do texto havia sido a principal marca do Departamento de Filosofia da USP em contraposição às escolas católicas. Trazido pelos professores franceses Martial Geroult e Vito Goldschmidt, ele propunha que os filósofos deveriam ser lidos no original, sem influência dos comentadores, e toda análise deveria se restringir à estrutura lógica e argumentativa do texto. Estudar um filósofo tendo este método como base, confesso, dava-nos uma compreensão profunda de um texto, o que explica sua vitalidade no Departamento por décadas.

A visão de autores como Giannotti era de que restringir-se ao texto, ignorando aspectos históricos e intertextuais, empobrecia a análise. Pois bem, era exatamente isso que Oswaldo Porchat, o principal defensor vivo da tradição estruturalista, estava admitindo.

Onde entra Olavo de Carvalho? Ele tomou conhecimento do debate, cujo conteúdo extrapolou os limites da USP, e decidiu dar sua contribuição por meio de um artigo na Folha de S.Paulo saudando a revisão de Porchat. Qual o problema? Ele saudou uma revisão que Porchat não havia feito, isto é, uma revisão de uma certa vinculação marxista do Departamento. E, na seqüência, atacou todo o Departamento por representar uma influência esquerdista nefasta sobre a Filosofia brasileira. Porchat jamais poderia ter feito essa revisão, porque era Giannotti, e não ele, o representante do tipo de pensamento que Olavo atacava. Tanto que o artigo recebeu uma réplica de Porchat colocando os pingos nos is. E uma tréplica de Olavo condenando Porchat.

O episódio me colocou sérias dúvidas sobre quanto Olavo de Carvalho era realmente alguém bem intencionado ou simplesmente um caçador de polêmicas mais ilustrado que a média. De qualquer forma, a vida me afastou do Departamento de Filosofia da USP e do radar do olavismo por um bom tempo.

Voltei ao radar do olavismo por conta de minhas andanças religiosas. Em meados da década passada seu pensamento já havia se tornado hegemônico nos meios católicos ilustrados. Havia fincado pé nesses círculos por apresentar um pensamento coerente que se opunha à influência da Teologia da Libertação, e direta ou indiretamente seu conservadorismo agressivo agradou quem não queria se vincular nem à infidelidade da Libertação nem à superficialidade da espiritualidade carismática. De certa forma, atendia no Brasil ao espírito do tempo marcado pela eleição de Bento XVI.

À época minha praia era completamente outra. Eu estava longe do marxismo, mas vinha de uma leitura de Ratzinger e Wojtyla como promotores de um diálogo construtivo com o pensamento moderno. A mesma tendência eu havia descoberto em Chesterton e C.S. Lewis. Nas pesquisas que começava, vinha começando a explorar Bourdieu e autores da chamada escolha racional, que aplicavam teoria dos jogos às ciências sociais. Ou seja, minha relação com o marxismo era mais de diálogo crítico que de confronto.

Isso me colocou em rota de colisão com o universo olavista. Por vários anos pessoas que nunca tinham lido Gramsci acusavam-me de participar de uma conspiração gramsciana, fui chamado de cristão incoerente, comunista infiltrado ou coisa parecida.

Demorei a entender que se tratava do efeito nefasto da influência de Olavo de Carvalho nos círculos católicos ilustrados. Colocados fora do campo acadêmico institucional brasileiro por suas próprias debilidades, encontraram no olavismo uma expressão de seu ressentimento em forma de teoria. Muitos são autores geniais, mas que se perdem em um discurso de ódio.

Os textos de Joel Pinheiro da Fonseca sobre a má influência de Olavo mostram que há no campo crítico ao marxismo e pós-modernismo a necessidade de se corrigir os efeitos do olavismo. É preciso substituir o discurso de ódio e ressentimento por uma postura de diálogo com o campo acadêmico que construa um ambiente realmente plural e produtivo.