Por um catolicismo heroico

O chamado dos primeiros cristãos à fé foi o chamado a uma aventura. Está no Evangelho de São Mateus (Mt 4,19): Jesus passa à beira do lago e bagunça a vida dos irmãos Pedro e André, dizendo “Farei de vocês pescadores de homens”. Dali para a frente a vida dos dois irmãos complicou-se totalmente. Deixaram a segurança da vida comum, e se tornaram História.

Desde então vocações se sucedem em chamados a aventuras. Santa Teresa de Ávila dizia que ainda pequena resolveu ir até uma cidade dominada pelos mouros só para ser mártir. Na mesma época filhos da nobreza como o jesuíta Manoel da Nóbrega abandonaram suas vidas aristocráticas e vieram ao Brasil, enfrentar piratas, mar bravio e uma vida inóspita. Tudo pelo evangelho.

Mais recentemente missionários como Dorothy Stang deram a vida em nome da opção preferencial pelos pobres, e foram viver o chamado de Deus enfrentando interesses poderosos no interior do Brasil. Dom Hélder Câmara enfrentando os militares, padre Josimo e Ezequiel baleados por defenderem os índios.

O Magistério da Igreja avaliou que a teologia por trás desses martírios não era ortodoxa. E os católicos entenderam que o espírito de aventura era herético. Trocaram a teologia política da libertação por uma espiritualidade bem comportada e não profética.

O resultado é a combinação de superficialidade espiritual, um arremedo de teologia da prosperidade e um moralismo exagerado, que afasta da fé os mais brilhantes da sociedade. Mesmo o pentecostalismo católico não passa de um pastiche: enquanto os evangélicos neopentecostais vivem de travar uma guerra cotidiana contra o demônio e seus bruxos, o movimento carismático fica no “louvor forte”.

Quando comecei a me envolver com o empreendedorismo, essa distância ficou mais evidente. Os neopentecostais sabem fazer a ponte entre a experiência empreendedora e o evangelho de forma integrada. Antroposofia, zen-budismo, judaísmo estão todos falando aos empreendedores. Mas não os católicos. Os católicos oscilam entre a indiferença e o medo.

E ninguém melhor que os católicos podem falar aos empreendedores sobre a sua vocação à aventura. A História da Igreja é uma história de empreendedores: Paulo, Bento de Núrcia, Francisco de Assis, Teresa de Ávila, Inácio de Loyola, Afonso Maria de Ligório, Tiago Alberione, Josemaria Escrivá, Chiara Lubich… A lista é enorme.

Ao meditar na vida e no ensinamento desses homens e mulheres que responderam ao chamado de Deus, vi as respostas espirituais que precisava em minha jornada empreendedora. Inspirei-me neles. Neles vi o empreendedorismo como vocação, entendida nos termos propostos pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset:

A vida humana, por sua própria natureza, tem que estar direcionada a algo, a uma empresa gloriosa ou humilde, a um destino ilustre ou trivial. Trata-se de uma condição estranha, mas inexorável, inscrita em nossa existência. Por um lado, viver é algo que cada um faz por si e para si. Por outro lado, se a minha vida, que só importa a mim, não me é entregue por mim a algo, caminhará desvencilhada, sem tensão e nem forma.

Em sua primeira encíclica, o papa Francisco nos falava da vocação como um convite à aventura:

Esta Palavra comunica a Abraão uma chamada e uma promessa. Contém, antes de tudo, uma chamada a sair da própria terra, convite a abrir-se a uma vida nova, início de um êxodo que o encaminha para um futuro inesperado.

Precisamos recuperar o caráter heróico da experiência cristã e católica. Esse caráter está diretamente relacionado ao aspecto profético de nosso batismo. Não somos chamados para viver confortáveis, mas, como Jeremias (Jr 1,10),

Vê: dou-te hoje poder sobre as nações e sobre os reinos para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares.

Destruir e reconstruir. Destruição criativa. O profeta é um design thinker por excelência. Movido pela fé e pela esperança, ele vê o novo se materializar diante dele e o constrói. Enfrenta as provas e sofrimentos necessários. É faz isso movido pelo Espírito Santo:

Se enviais, porém, o vosso sopro, eles revivem e renovais a face da terra. (Salmos 103,30)
Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão. (Isaías 55,10-11)

Ao final da jornada, constata (Deuteronômio 8,2-4):

Lembra-te de todo o caminho por onde o Senhor te conduziu durante esses quarenta anos no deserto, para humilhar-te e provar-te, e para conhecer os sentimentos de teu coração, e saber se observarias ou não os seus mandamentos. Humilhou-te com a fome; deu-te por sustento o maná, que não conhecias nem tinham conhecido os teus pais, para ensinar-te que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor. Tuas vestes não se gastaram sobre ti, e teu pai, não se magoou durante estes quarenta anos.

Pobre do catolicismo que não é heróico. Que não se propõe a uma aventura. Que se resume a canções água com açúcar. Não foi nessa fé que me batizei.