Porque voltei a escrever

Confesso que já escrevi. Dos doze aos dezoito anos, tive uma produção profícua, embora ainda verde e imatura, mas da qual rendeu a publicação de um romance já esgotado, As Duas Faces da Vida. Depois foram dezoito anos em que escrevi muito mas não escrevi nada. Por que então agora, já na maturidade, retomar esse desafio?

Em certo sentido, os últimos dezoito anos conduziram-me por um caminho de libertação. Se eu tivesse continuado, teria me adaptado à estrutura do mercado de bens simbólicos tal como estruturado no Brasil. Ao afastar-me, mantive aquele incômodo de quem admira o abismo da condição humana, e permaneci com os nervos e tendões da alma em permanente estado de tensão. O retorno maduro à literatura é fruto desta busca de sentido, desta condição de alma em permanente estado de luta.

Busca de sentido

A vida do homem nesta terra é uma luta, seus dias são como os dias de um mercenário” (Jó 7,1)

Não há escravidão maior do que ser um homem de seu tempo, cumprir exatamente o papel que a sociedade espera de ti de acordo com o seu lugar na estrutura social, ou sua função no campo social que lhe diz respeito. Porque isso nos faz cegos, nos faz repetir o discurso que se espera de nós de acordo com nosso papel. Ainda que seja o papel de um revolucionário.

Sim, pois o Espírito de nosso tempo espera que nos comportemos conforme rótulos pré-fabricados. Assim se espera que o católico seja um obscurantista ignorante, enquanto o intelectual seja um relativista cultural. E, desta forma, vamos lado a lado rumo ao abismo.

Porque o mundo é mais complexo do que sonha nossa vã ideologia. E ao cumprirmos exatamente o que se espera de nós, nos tornamos incapazes de ver o perigo que nos cerca, e que nos pega de surpresa.

“Sede vigilantes”, diz o Evangelho. Pois a vida nesta terra é uma luta constante, e não podemos nos acomodar ao espírito de nosso tempo. Temos que desafiá-lo, temos que encarar o abismo que nos espera e alertar o mundo sobre esta angústia. E a literatura pode ser o veículo deste alerta.

O papel transformador da narrativa

Por que contar uma história? No ambiente universitário fui convencido de que a ciência poderia ser mais transformadora que a arte. Primeiro porque me senti intimidado por aqueles que pareciam saber escrever melhor que eu. Por isso me encastelei no discurso dissertativo.

Nos últimos dezoito anos tenho escrito muito. Escrevi reportagens, releases, relatórios, dissertações, ensaios. Mas não tenho contado as histórias do abismo humano, desta tensão dos nervos da alma.

E este exílio me fez bem. Pois vi aqueles que pareciam escrever melhor que eu se tornarem arautos da mesmice, profetas do lugar nenhum. E enquanto esses gênios faziam exatamente o que se esperaria deles, no governo do povo ou nas ONGs que promovem giros de 360 graus, a vida protegeu em mim aquele incômodo que nos impedem de aceitar uma mentira de bom grado.

Ai de mim se não escrever

“Anunciar o Evangelho não é para mim motivo de Glória, mas uma obrigação que se impõe. Ai de mim se não anunciar o Evangelho” (1Cor 9,16)

Neste ano algumas experiências me mostraram que deveria voltar urgente a escrever. A primeira foi voltar a ler ficção, com Submissão de Houellebeq. A segunda foi participar dos Bastidores da Família, um encontro no qual todos contaram histórias de suas vidas como uma experiência de terapêutica transformadora.

Escrevi e publiquei A Prostituta e o Reino dos Céus para externar parte do resultado desta tensão nos nervos e tendões da alma. É a história de um encontro de dois mundos, da experiência com o outro como força de redenção. Os personagens principais, padre Tomás e a prostituta Maria, se transformam por não agirem como se esperaria de seus papéis sociais. Pelo contrário, abrem-se ao desconhecido.

Não ligo se está mal-escrito, ou se não tem a experimentação estética que se espera de um escritor de nosso tempo. Foi uma narrativa escrita com as vísceras. Ai de mim se não escrever. E vem mais por aí.