Revendo os “Jovens em busca de Cristo”

Éramos todos jovens, no século passado. Agora sobravam barriga, cabelos brancos ou a falta deles, filhos, problemas de saúde. É o peso do tempo. Cada um com uma história, uma biografia, uma luta particular. O que nos unia era uma experiência única, um grupo de jovens católico que era também um grupo de amigos.

À época não tínhamos a menor ideia — gosto da frase em espanhol, “no teníamos una puta idea” — da importância que aquilo teria para nossas vidas. Não sabíamos que aquilo já era diferente do que se fazia como Pastoral da Juventude, uma iniciativa mais política que espiritual ou pastoral. Também era diferente do que viria a surgir depois, coisas cheias de fanatismo e de medo do mundo real. Não éramos nada disso.

O que nos fazia diferentes era a naturalidade. Era tudo tão natural que não conseguíamos perceber o quanto aquilo era diferente. Percebíamos sim que era algo especial. Ali podíamos ser verdadeiramente jovens e verdadeiramente católicos, sem contradição entre os termos.

Basicamente o que fazíamos era rezar, discutir livremente algum tema de espiritualidade ou de juventude, e depois saíamos juntos. Nenhum tema era proibido, e nada era encarado com preconceito ou moralismo. Falávamos desde homoafetividade até vocação, de RPG à História da Salvação.

O nome era curioso. “Jovens em busca de Cristo”. À época me perguntaram “ora, como estão em busca? Já não O encontraram na Igreja e nos sacramentos?” Mas sim, sabíamos que viver é estar sempre em busca. Não sabíamos, mas repetíamos Santo Agostinho: “nosso coração está inquieto enquanto não descansar em Vós”.

Claro, tivemos conflitos. Vários. Conflitos entre nós, com o padre, a paróquia. E seja pelos conflitos, seja porque amadurecemos, seja porque era a Vontade de Deus, nos separamos e nos espalhamos. Eu me afastei da fé, e depois retomei. Outros seguiram outros caminhos. Alguns casaram-se com namoradas e namorados que conheceram no grupo. Houve quem se tornasse padre. Houve quem deixasse de ser cristão ou católico.

Mas ao nos reencontrarmos, ainda que poucos de nós, vimos que todos guardam boas lembranças daquela experiência. Esse grupo marcou a trajetória de todos nós. E pena que esse espírito esteja tão em falta duas décadas depois.