Tesouro escondido

O Reino dos céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo. (São Mateus 13,44)
Esses dias um amigo me disse que eu tenho um “senso de humor peculiar”. Não é a primeira vez que ouço isso. Às vezes com outras palavras. “Estranho”. “Esquisito”. “Excêntrico”. “Não tem postura”. “Não sabe se comportar”. Já me acostumei.
Sei que o amigo não teve a intenção de julgar, porque o conheço bem, e ele falou na liberdade que só os amigos têm para falar. Mas sei que ele verbalizou uma ideia que muitos têm, mas nem todos verbalizam. São Josemaria Escrivá chamava essa atitude de “respeito humano”, e não a tinha em boa conta. Trata-se da atitude de quem se cala sobre algo para não ofender a sensibilidade alheia. Um amigo não deve ter respeito humano.
O fato verbalizado por esse amigo e sobre o qual os falsos amigos se calam é essa minha insistência em me comportar, em pensar e agir, de um jeito muito próprio. Com toda a tranquilidade, eu diria que sou um inadequado crônico. Uma contradição ambulante.
Tenho plena consciência disso. Durante muito tempo isso me pesou. Lutei para ser adequado, para agir conforme as circunstâncias. Eu me sentia como Bernard Marx, o personagem de Admirável Mundo Novo cuja chocadeira falhou, e que por isso não se inseria na sociedade perfeita e cientificamente estruturada.
Um exemplo é a minha visão de mundo. Eu sou um poço de contradições. Sou o católico mais ateu, o intelectual mais prático, o empreendedor mais esquerda que conheço. Não em uma personalidade fragmentada, mas em uma visão harmônica de contrários.
As pessoas se escandalizavam. “Ele não se comporta como um católico/intelectual/executivo/militante (preencher como quiser)”. Fui excomungado informalmente, tive promoção adiada, punido por partido, perdi amigos, perdi notas em provas.
E, no entanto, aqui estou.
Recentemente descobri o meu tesouro escondido no campo. Vi que minha forma peculiar de encarar as coisas não era uma maldição, como para Bernard Marx, mas uma benção, como para vários inconformistas que impactaram o mundo. É a minha vocação, o presente de Deus para mim e para quem opta por estar por perto. Não é um problema, mas um poder.
Sabe quanto me incomoda ser tido como “peculiar”. Nada. Nem um pouco. Sei que de perto ninguém é normal, mas alguns são menos normais que os outros. Por isso, minhas escolhas e minha visão dos fatos, frutos de uma jornada pessoal bastante minha, não serão compreendidas por muitos. É do jogo.
O campo da parábola foi visitado por muitos. Só um, que o observou de forma diferente dos outros, encontrou o tesouro. A maioria se prendeu às aparências e seguiu em frente. Quando aquele único cara decidiu comprar o campo, com certeza foi chamado de “peculiar”, “estranho”, “esquisito”. Mas foi ele que ficou com o tesouro.
