Você já sofreu linchamento virtual? Eu já, mas não sabia

Paulo Roberto Silva
Aug 9, 2017 · 5 min read

Eu achava que nunca tinha passado por um linchamento virtual. Até que comecei a debater melhor o tema mais recentemente. Um amigo, vítima de um episódio de linchamento virtual de grandes proporções, criou uma espécie de safe space onde ele pode expressar suas opiniões. Ali, de vez em quando, discutimos casos de pessoas submetidos ao tribunal da internet.

Foi assim, refletindo sobre esses casos, que um episódio de 2001 começou a ganhar um novo significado. Até então eu não havia interpretado aquilo como cyberbullying. Mas a palestra da Mônica Lewinski no TED me fez pensar. Ela viu no sensacionalismo político e midiático a que foi submetida o primeiro caso global de linchamento virtual. E isso ficou ruminando na minha cabeça por semanas.

O meu episódio

Era 1998, eu era jovem, idealista e tinha uma visão romântica da política. Acreditava no ideário da esquerda marxista, e tinha pretensões de fazer uma revolução. Também queria ter uma banda. Ou seja, tinha as atitudes normais para o otimismo e a imaturidade dos meus 18 anos.

Eu me filiei ao PSTU em novembro de 1998. Estava no movimento estudantil da USP, e o partido era um dos mais ativos da FFLCH, onde estudava. Era também diretor do Centro Acadêmico da Filosofia, gestão Jaguá.

Quando entrei havia uma luta interna em curso. Como o PSTU segue o regime de centralismo democrático, toda discussão deve ser exclusivamente interna e a formação de minorias é restrita ao período de Congresso interno. Este já havia passado, mas a minoria de então seguia sendo questionada internamente, acusada de adotar posições sectárias.

Empolgado e recém convertido, rapidamente me alinhei à posição da maioria do partido, o que me assegurou um crescimento rápido na estrutura: fui membro do secretariado estadual da Juventude do partido, diretor vogal da UEE-SP e do DCE da USP. Era um militante aguerrido para dentro e fora do partido.

Quando chegaram as eleições municipais de 2000, o desempenho do partido foi pífio. Na esteira do balanço das eleições surgiu uma nova minoria, questionando a direção em favor de posições mais moderadas e menos sectárias. Eu, que atuei intensivamente na eleição de São Paulo e tinha minhas críticas, aderi à minoria.

Eu tinha 20 anos e pouca experiência com o lado cruel da política. Achava-me um intelectual. Por isso, redigi um “manifesto de adesão” que primava pela ingenuidade, e mandei por e-mail à liderança da minoria. Quando conversei com o destinatário, vi que ele desconversou em relação ao meu texto. Acredito que ele via ali potencial explosivo a ser explorado contra toda a minoria, e por isso queria deixá-lo escondido. Especialmente, havia um tom duro contra a direção, que poderia ser interpretado como “fracionalismo”, ou seja, desejo de rachar o partido, e esse era o maior pecado de um militante. A minoria anterior foi expulsa sob essa acusação.

Mas um amigo, que também fazia parte da minoria, disse-me que queria muito ler meu texto. Ingenuamente eu confiei e encaminhei. Foi aí que meu transtorno começou.

Até hoje não sei como aconteceu. Esse “amigo” alega que seu e-mail foi hackeado por gente da direção do partido. Outros interlocutores desconfiavam que ele era um quinta coluna na minoria. Mas o fato é que de sua caixa de emails meu texto foi enviado para cinco quadros de juventude relacionados à direção do partido.

O que vi foi meu e-mail publicado em um boletim interno de discussão do Congresso de 2001, como um “documento interno da minoria”, acompanhado de vários ataques e uma resposta formal de um membro do Comitê Central. Como eu havia usado a expressão “bois de princípios” que Trotsky usava em Revolução e Contra Revolução na Alemanha contra a direção do partido, o texto vinha intitulado “Resposta de um dos bois de princípios”.

O texto foi usado para massacrar a minoria no Congresso. Como defesa, a minoria me abandonou aos tubarões. Vi-me abandonado por todos e com a reputação interna esmigalhada. Foi um dos piores momentos da minha vida.

Desdobramentos imediatos

Ali eu tinha na minha frente duas opções. Uma era baixar a cabeça e permanecer no partido. A outra era romper. A aposta de todos era que eu permaneceria, baseados em uma visão messiânica de que o PSTU era “o partido da revolução”. Mas eu nunca tinha levado esse dogma muito a sério. Por isso rompi.

Não tinha mais o que fazer ali. Sentia que qualquer coisa que eu fizesse estaria marcada pelas suspeitas abertas pelo meu texto ingênuo de 2001. Deixei uma dívida de R$ 25,00 em cotas partidárias. Disseram que se não pagasse estaria mal com o partido. “Beleza”, pensei.

A ruptura com o PSTU tornou-se também uma ruptura militante. As correntes da esquerda do PT fecharam as portas para mim, alimentando uma suspeita de que minha ruptura era fake. Após ter a reputação destruída pelos burocratas do meu partido, ela era esmigalhada pelos burocratas das correntes que poderiam me abrigar. O MES, por meio do Roberto Robaina, foi a única corrente que me abriu as portas, mas eles não tinham nada em São Paulo naquela época.

Restavam duas opções. Lindbergh Farias, que havia rompido com o PSTU após o Congresso, ofereceu a mim e a um amigo trabalho na sua campanha a deputado federal pelo PT do Rio de Janeiro. A outra era me concentrar na faculdade e na carreira profissional. Agradeci a Lindbergh e fiquei em São Paulo.

Impactos de longo prazo

O pior aprendizado que tirei de tudo isso foi de que não poderia jamais ser autêntico, sob pena de me tornar anátema. A partir de agosto de 2001 deixei de ser eu mesmo nos ambientes em que me inseria e passei a viver um personagem mais adequado às circunstâncias.

Convivi desde então com medo das consequências de minhas opiniões. Dei razão aos que me tratavam como inadequado, inconveniente, sem postura. Eles tinham razão. Quando eu disse exatamente o que pensava, tive minha reputação totalmente destruída, e não queria viver aquilo novamente.

Isso alimentou um círculo vicioso de problemas. Quanto mais eu buscava me adequar, mais inadequado eu me tornava. Uma piada se tornava um problema. Os julgamentos me pesavam. O stress de tentar satisfazer a opinião geral — e nunca conseguir — destruiu o meu esôfago e me tirou o prazer de tomar Coca-Cola sem sentir dor. Os danos causados a mim pela burocracia do PSTU duraram mais ou menos quinze anos.

Só agora estou superando tudo isso. Justamente por decidir não me importar mais com a opinião alheia, começam a vir luzes sobre esses fatos. E talvez por isso só agora eu consiga enxergar o que aconteceu sem me sentir culpado. Porque errado é o sistema que me negou o direito à autenticidade, não eu.

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