O Método “Robert Greene” de Escrever Livros

Os quatro passos utilizados por um autor de 5 bestsellers


Um dizer muito comum, parte de nossa cultura, é que você não pode morrer antes de escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Essa visão, embora bastante reducionista (já que a vida é muito mais do que uma lista de coisas a fazer), transmite bem a importância que damos como sociedade à escrita de um livro. Está lá que em cima na lista de prioridades, junto com ter um filho.

Ao mesmo tempo, há muito mais filhos nascendo do que livros sendo escritos, o que diz bastante a respeito da dificuldade de se realizar as duas atividades. Escrever é uma atividade extremamente complexa. Assim como a leitura, temos a impressão de que, se todo mundo aprendeu a fazer na escola, então todas as pessoas fazem com a mesma qualidade. E não é bem assim.

Ser capaz de escrever um status grande no facebook é sensivelmente diferente de escrever um dissertação, que é diferente de escrever textos para blogs que, por sua vez, é muito diferente de escrever um livro. Não há linearidade aqui: quanto maior a escrita, muito maior a dificuldade em realizá-la.

Para navegar por águas tão complexas, contudo, nada melhor que um guia experiente, com um método de resultados reais.Quem melhor para fornecer esse método que Robert Greene, um dos maiores estrategistas de nossa era e autor de nada menos que 5 bestsellers? O cara é um monstro (da não-ficção), autor de As 48 Leis do Poder, 33 estratégias de guerra, A Arte da Sedução, A 50º Lei e Maestria.

Embora Robert não tenha escrito na internet sobre seu método — de modo geral, ele prefere escrever livros a textos em seu blog, eu consegui capturar partes espalhadas em várias entrevistas, de modo a montar o quebra-cabeça de seu processo criativo. Segue, então, o método Robert Greene para escrever livros matadores (e links para leitura adicional).

1. Assuma a mentalidade do principiante

Robert Greene não é apenas um autor de best-sellers, mas também uma das mentes mais brilhantes ainda em ação. Indubitavelmente por isso ele entende as armadilhas do sucesso. Em várias de suas entrevistas, ele gosta de enfatizar que a cada livro, posiciona-se novamente na estaca zero. Como ele diz em 48 leis do poder:

Não há nada mais intoxicante que vitória, e nada mais perigoso.

Seria muito fácil para ele, com fama e prestígio mundiais, alavancar-se sobre sucessos anteriores para vender novos livros, como outros autores fazem (é de você mesmo que estou falando, Robert Kiyosaki). Mas não, Robert posiciona-se como leigo em cada nova área que deseja abordar e vai à pesquisa.

“… você não pode apenas repetir o que você fez no passado. Não se trata da atenção que você está obtendo, mas do trabalho em si que deveria estar te motivando. Então, cada livro que eu faço, que seria talvez o equivalente a cada negócio no qual um empreendedor entra, é um novo desafio.Eu não vou repetir o que fiz no passado, não vou apenas aplicar as mesmas fórmulas.”

— Robert Greene, nessa entrevista

Se você quer construir algo valioso, tem que cultivar a mente de principiante: aberta a informações, pronta para ser moldada pelos conceitos das mais variadas fontes. Trazer pré-concepções para a mesa atrapalha seu julgamento e adicionará a influência dos vários vieses cognitivos, especialmente ao processo de pesquisa. Deixando-lhe, portanto, mais longe da verdade e de uma boa escrita. Como diz Shunryu Suzuki, um dos mestres Zen mais famosos do século passado: “Na mente do principiante, há muitas possibilidades, mas na mente do expert há poucas”.

2. Tudo começa com uma boa leitura

Schopenhauer certa vez disse que há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem porque têm algo que precisam dizer e aqueles que escrevem por escrever. A menos que você já tenha vivido uma vida absurdamente impressionante e cheia de lições, sua escrita será sobre outros temas além de você mesmo. E como masterizar um tema que não é sua própria vida? Lendo, mas lendo muito.

Ao discutir a produção de seu próximo livro (possivelmente entitulado “As leis da natureza humana”), que ainda deve levar uns 18 meses para ser lançado, Robert contou como lê entre 300 e 400 livros completos na fase de pesquisa para suas obras. Esse é um volume enorme: um brasileiro médio levaria em torno de 200 anos para ler tudo isso.

Como processar o grande volume de informações com o qual você se deparará na fase de pesquisas? É preciso ter um método para extrair o máximo de cada livro. Eu já escrevi aqui sobre o método que uso para ler e interpretar melhor os livros, que adaptei do próprio Robert Greene e de outros nomes ao longo da história. Inclusive, compartipatilho todo mês os melhores livros que li e nos quais apliquei o método.

Em poucas palavras, a base dessa melhor absorção está na interação mais significativa com a leitura, através do que chamamos de marginalia: destacar, comentar e criticar a obra nas margens do papel enquanto lê. Essa prática é a aplicação de um conceito já conhecido para salas de aulas, chamado elaboração interrogativa.

Com efeitos positivos já conhecidos, especialmente sobre a qualidade do aprendizado, a elaboração interrogativa é a prática de perguntar ao estudante o “porquê” do conteúdo ao qual estão sendo expostos fazer sentido ou ser inesperado. De certo modo, é isso que você está fazendo consigo mesmo quando interage mais ativamente com a leitura, aumentando a retenção.

Outro ponto importante é a manutenção de um livro de notas, que contenha todas as passagens, os aforismos, as citações e as ideias importantes que você extraiu de cada uma de suas leituras. Eles não são uma prática nova na histórica: grandes nomes, como Marco Aurelio, Petrarch, Montaigne, Ronald Reagan, mantiveram seus livros de notas. Todavia, o que eles não têm de novo, compensam em utilidade.

“Eu leio um livro, muito cuidadosamente, escrevendo nas margens tudo quanto é tipo de nota. Depois de algumas semanas, eu volto ao livro, transfiro meus rabiscos em cartões de nota, cada cartão representando um tema importante no livro.”

― Robert Greene, nessa entrevista coletiva

É dessa forma que Robert mantém o conjunto de fatos e ideias relevantes ao ler tanto material, que eventualmente virão a dar origem a um novo livro.

3. Reorganize e conecte

Um terço do esforço está realizado quando você tem um domínio sobre aquilo que deseja escrever. Outro terço dessa energia é investido em organizar e conectar as ideias de um modo que faça sentido e deixe o leitor mais próximo da compreensão que se pretende transmitir.

Por exemplo, se você deseja escrever um livro prático, com um público amplo, vai ser necessário escrever as partes técnicasde modo breve, em linguagem acessível, e preencher o volume com exemplos práticos, presentes no dia a dia das pessoas. Se você está extraindo lições da história, como é o caso de As 48 Leis do Poder e 33 Estratégias da Guerra, é essencial garantir que haja bastantes passagens e anedotas históricas.

Há muitas maneiras de manter o livro de notas que discutimos acima e o modo que Robert Greene escolheu é especialmente útil na hora de reestruturar as ideias. Você pode manter literalmente um livro de notas, ou seja, um caderno onde você vai registrando aquilo que vale a pena — quase como um diário, só que para sua leitura.

Você também pode usar uma abordagem mais tecnológica, utilizando um programa da notas, como o Evernote ou o OneNote do Windows, para manter seus registros. Estes ganham nos pontos velocidade e praticidade de busca.


No caso de Robert, ele escreve cada passagem, cada ideia, em um cartão, como essas fichas pautadas, categorizando cada uma por tema. Quando o livro é bom, é possível extrair vários cartões, 20-30. Ao final da leitura dos 300-400 livros da fase de pesquisa, ele possui acumulado em média um conjunto de 3000 cartões.


“Eu sou capaz de desmembrar um livro caótico. Por exemplo, para este novo livro, eu sempre amei Nietzsche e há um livro dele que li, um dos primeiros chamado “Humano, demasiado humano”, que é um livro incrível, mas caótico, com ideias para todo lado. Ele tem todos esses aforismos e pensamentos em todo lugar, é como se entrássemos numa toca de rato. Eu, com meus cartões, sou capaz de organizar todas as ideias e todos os pensamentos dele, trazendo alguma ordem e mostrando ao leitor os incríveis pedaços de sabedoria que esse cara extraiu de seu cérebro maluco”

Robert Greene, nessa entrevista

Ao definir o tema dos capítulos, ele separa as categorias dos cartões mais ou menos dentro dos temas de cada capítulo. A partir daí, é uma questão organizar os cartões novamente em seções do capítulo e estruturar a ordem das ideias dentro de cada trecho. De certo modo, é uma adaptação do que Ray Bradbury costumava fazer com ficções, preparando listas de palavras/ideias para guiar a escrita dos textos.

4. Escreva de modo intenso

Com o índice do livro bem estruturado e as ideias à disposição, o último terço de esforço vai ser investido no processo de escrita em si (que é divido entre autor e editor). Aqui entram vários fatores: modo, estilo e rotina de escrita, por exemplo. E muitos nomes da literatura já deixaram considerações sobre o processo criativo e o estilo de produção de textos.

Por exemplo, tal qual Robert (é possível inferir com segurança a partir das obras dele), os princípios de Kurt Vonnegut sobre estilo são atraentes: escreva sobre algo que você se importe, não fuja do ponto, mantenha simplicidade, corte o que for necessário. Assim como a ideia de Stephen King sobre simplicidade e o não uso de advérbios.

Sobre a jornada de trabalho, há quem recomende uma escrita planejada, com hora marcada para iniciar e terminar. Como também há aqueles que falam do “fluxo”, de escrever sem parar sempre que puder. Não há um jeito certo ou errado de fazer; assim como para qualquer trabalho criativo, o método se adapta bastante ao criador. É até um debate moderno, inclusive, se todo esse processo é ao menos prazeroso; grandes nomes discutem se o processo de escrever é uma tortura para o artista ou não.

Quanto ao Robert, ao entrar nessa fase de “mão na massa”, ele trabalha em longas jornadas e passou a impressão de ser um processo doloroso, tanto que ele menciona como ranzinza nessas fases de sua vida.

“Eu normalmente não estou escrevendo, porque meus livros requerem pesquisa demais. Agora, estou em um período de pesquisa, lendo vorazmente livros sobre a natureza humana, psicologica, etc. Daqui a um ano, começarei a escrever e então entro em um tipo diferente de rotina, quando sou mais maníaco e menos sociável”

— Robert Greene, nessa entrevista

De uma forma ou de outra, esse é o momento de trabalho focado e exaustivo. Se manter os pedaços de informação na cabeça até conectá-los já é trabalhoso quando se escreve uma redação, imagina um livro? Como é de se imaginar, ter um editor para sua obra tem um impacto enorme, já que além dos problemas de português, problemas com a própria escrita ficam no ponto cego do autor.

É difícil, mas vale a pena

Tal como a leitura, escrever é um processo mágico e que de alguma forma sintoniza com nossa natureza humana. Faz parte de nós essa vontade de compartilhar histórias, de dividir um pouco nosso conhecimento, nossas vidas (e da vida de terceiros) com outras pessoas.

O processo pode ser excruciante, mas não quer dizer que não está a seu alcance. Alguns clichês realmente fazem sentido, como aquele que diz que qualquer jornada longa, começa com um pequeno passo. Mesmo esses mestres, autores famosos, com obras de impacto universal, começaram pequeno. Deixo você, para inspiração, com esse quote fantástico do Nietzsche (retirado de um dos livros do Robert, Maestria):

“Como nos vemos com bons olhos, mas, mesmo assim, nunca nos consideramos capazes de produzir uma pintura como as de Rafael ou cenas dramáticas como as de Shakespeare, convencemo-nos de que a capacidade de fazê-lo é algo extraordinariamente maravilhoso, um acidente incomum, ou, se tivermos inclinação religiosa, uma graça.
Assim, nossa vaidade, nosso amor-próprio, promovem o culto do gênio: pois, se o julgarmos muito distante de nós, se o encararmos como milagre, sua falta realmente não nos incomodará (…) Os gênios, por mais que façam, primeiro aprendem a juntar tijolos para depois aprender a construir, e sempre buscam materiais ao redor dos quais sejam capaz de desenvolver-se. Todas as atividades humanas são incrivelmente complexas, não só as dos gênios: mas nenhuma é um ‘milagre’.”
— Friedrich Nietzsche

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