O jornalismo e o seu umbigo

Se todo mundo fizesse o exercício de refletir sobre aquilo que viu, ouviu ou leu, saberia que o mundo não é feito só de preto ou branco.

A essência do jornalismo está em servir como mediador entre a realidade e o público, servindo como referência sobre como as pessoas veem e interpretam o mundo. O jornalista, como qualquer indivíduo, possui experiências de vida que fazem parte do seu ser e de sua visão de mundo. A partir disso, ele sabe (ou deveria saber) que a interpretação dos acontecimentos que ele mostra ao mundo não é somente sua. Ela está impregnada das diversas influências que incidem sobre ele, que vão desde sua formação e história de vida, às pressões referentes a seu ambiente de trabalho: o patrão, a linha editorial, assim como os interesses políticos e econômicos que sustentam a empresa que paga suas contas no início de cada mês.

Na última semana, meu feed do Facebook, conversas de Whatsapp e conversas diárias foram invadidos pela repercussão do caso da jornalista atropelada por um ônibus, em Fortaleza. Poderia ser só mais um episódio cotidiano, como os que acontecem todos os dias na Capital, mas este envolvia uma colega de classe. A ciclista foi imediatamente tirada da invisibilidade e elevada a categoria de jornalista e ativista, com nome e sobrenome, diferente de muitas outras vítimas por aí. O episódio foi abraçado pelo corporativismo e incorporado à cobertura diária, com direito a diversos desdobramentos.

Casos como esse tendem a ser utilizados como exemplo, a fim de chamarem atenção para um problema recorrente do dia a dia. O assunto passa, então, a ser explorado à exaustão, com direito a clímax, reviravoltas e desfechos. O corporativismo, porém, acaba tirando o foco do debate que realmente importa a toda sociedade e transformando o jornalismo em uma narrativa novelesca, com direito a mocinhos e vilões. Ao público, tal qual um episódio de Você Decide, cabe escolher seu personagem favorito e de que lado irá ficar.

Na busca pelo próximo link que irá render algumas centenas de compartilhamentos no Facebook, é comum que se vá em busca do espetacular, do contraditório e daquilo que choca. É disso que a maioria das narrativas sobrevivem desde que o mundo é mundo. E é sempre aí que o Jornalismo patina.

Muitas vezes levado pela rotina produtiva, em sua busca incessante de relatar o agora, o Jornalismo não é capaz de refletir sobre si mesmo. Os questionamentos do público, porém, não poupam ninguém na hora de cobrar responsabilidade acerca do que foi publicado. A falta de reflexão leva o profissional a errar contra seus princípios. O principal deles, talvez, seja o de que o jornalista não deve emitir opinião sobre aquilo que relata. Todavia, é sua responsabilidade ouvir todos os envolvidos com o fato, além de cercar-se de provas complementares, a fim de oferecer a seu leitor o relato mais fiel possível da realidade. Neste infeliz caso que serve como referência para este texto, porém, esse princípio é abandonado diversas vezes.

Em diversos momentos, o episódio foi narrado sob o ponto de vista de uma das testemunhas, um amigo da vítima. O relato, porém, acaba por não mostrar-se totalmente fiel ao acontecido ao ser confrontado com as imagens de câmeras que monitoram o tráfego. Aqui chamo atenção para o fato de que entre a primeira matéria e a última há um intervalo de cinco dias. Neste meio tempo, toda a narrativa foi sustentada com base em um único relato, não havendo da parte acusada nenhuma manifestação em sua defesa. Não se sabe se chegou a ser procurado. O que se sabe apenas é que foi identificado.

Não cabe aqui a defesa ou acusação de nenhuma das partes envolvidas, mas a constatação de que o relato incompleto, provocado pela necessidade de ser o primeiro a publicar, leva-nos a uma compreensão fragmentada da realidade. Quando não se oferecem subsídios suficientes para que o leitor faça uma leitura adequada da situação, acaba-se provocando distorções da realidade, causadas por interpretações equivocadas. O erro jornalístico coloca em xeque a credibilidade do veículo e pode levar a consequências gravíssimas.

No jornalismo, quando se erra, as consequências podem tomar proporções inimagináveis, que quase sempre levam a linchamentos virtuais das partes envolvidas. Vítimas passam a ser acusadas. Os outrora acusados passam a categoria de injustiçados pela mídia. E jornalistas passam a ser execrados por seus pares. Já não vimos esse filme antes?

Não podemos esquecer, porém, que, quando um jornalista erra, ele não está sozinho. Seus superiores são co-responsáveis e cúmplices do erro. Erram juntos todos os seus pares, que também passam a ser questionados pelo público quanto a suas competências. E, principalmente, erra junto o Jornalismo, que passa cada vez mais a ser encarado com descrédito pelo público, cansado de ser manipulado por interesses alheios, sejam eles corporativos, classistas, políticos ou econômicos.

O Jornalismo (e o jornalista) precisa parar de defender a si mesmo, como forma de isentar-se dos erros alheios e justificar sua relevância na sociedade atual. Para recuperar sua importância de outrora, o Jornalismo precisa parar de olhar para o próprio umbigo e voltar seu olhar para o que realmente importa: o público.

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