Eu tô com o Mário Sérgio — e nem preciso concordar com ele


A história é a seguinte: repercutiu na semana passada entre os fãs de futebol e a crônica esportiva uma declaração do comentarista Mário Sérgio, ex-jogador de futebol e hoje funcionário dos canais Fox Sports, em que pergunta a Marcelinho Carioca se o ex-jogador do Corinthians não acha que, na época em que o entrevistado atuava [se referindo ao futebol dos anos 1990], ele e outros atletas não eram mais constantes durante os 90 minutos de uma partida em comparação com o argentino Lionel Messi, que, para Mário, é um “jogador de lampejos” em relação à essa constância de outros tempos.

Aqui, a frase principal de Mário Sérgio na íntegra:

“Eu cobro do jogador que ele não viva só de lampejos, eu cobro que ele seja constante durante o jogo, aí ele estará prestando um serviço relevante ao conjunto. O Messi é um jogador excepcional, mas é um jogador de lampejos, não é como você [Marcelinho], constante, que participava os 90 minutos armando, chutando no gol, batendo falta, batendo escanteio. Então mudou-se muito o conceito do que é o jogador fora de série. Até porque o que temos de referência é o Messi. Você não acha que essa constância do jogador considerado craque hoje é muito pouco para o coletivo, e na tua época era mais exigido?”

Depois, já com interferências dos colegas de bancada Mauro Beting e Paulo Vinicius Coelho, Mário ainda disse que Messi foi eleito o melhor jogador da Copa do Mundo “vivendo de lampejos”.

Ambos os companheiros discordaram do raciocínio geral de Mário. PVC: “Para não falar de memória, fui procurar direitinho: 58 gols e 28 assistências. É muita coisa. A Copa do Mundo eu estou de acordo que estava um pouco abaixo, porque estava abaixo fisicamente, também”. Mauro: “Messi é de um nível de constância absurda. Duas jogadas do Messi valem por 600 de nós”.

Na noite de terça-feira, 16 de junho, foi a vez do comentarista Edinho, da Sportv, ganhar o destaque no portal UOL, tirado de um comentário durante a transmissão da vitória da Argentina, por 1 a 0, sobre o Uruguai. “Edinho repete Mário Sérgio e fala em ‘lampejos’ de Messi”. A frase do ex-zagueiro foi: “Na seleção, [Di María] sempre fez grandes partidas, é o desafogo também do Lionel Messi que às vezes tem aquele lampejo de grandíssimo jogador, mas tem vezes também que se apaga um pouco na partida. E aí é que aparece o Di María”.

Dado o caso, segue a repercussão se deu no sentido de condenar a declaração de Mário Sérgio, em algumas frases tiradas do Twitter. “PVC deve estar se perguntando: onde fui amarrar minha égua?”; “E ainda pagam ele para comentar futebol?”; “É tão ridículo que eu achei engraçado”; “Eu só espero que Beting e PVC recebam adicional por insalubridade para trabalhar com esse cara”; “O mais impressionante da frase é que não, ela não é fake”; “O que fazer com um cara desse? Mandar internar?”; “E o pior é que pagamos para ver essas coisas”.

A partir da galhofa que se deu depois da declaração e repercussão, pensei em pontos que me incomodaram nessa questão — e isso não significa que eu assino embaixo no que disse Mário, apesar de concordar com algumas coisas ali.

1. Opinião sobre futebol, lembre-se, futebol
Esporte é esporte, arte é arte, são coisas diferentes, mas gosto da comparação, ainda que não seja equivalente, só para abrir a discussão. Digamos que alguém ache o Irandhir Santos um ator mais intenso que o Jack Nicholson. Ou que considere o Luiz Gonzaga um músico mais impressionante que o Miles Davis. Enfim, que confronte, por inúmeros motivos, nomes pop, referências no que fazem. É tão ridículo assim? Ou seja, considerar Marcelinho Carioca um jogador de futebol mais constante que Lionel Messi no que diz respeito à participação coletiva durante os 90 minutos de partida é assim tão absurdo? Não estamos falando da alta da taxa Selic ou dos números da exportação de grãos, estamos falando de duas pessoas que praticam um esporte e, enfim, lidam com diferentes aspectos do jogo para além da técnica e da tática — responsabilidade, tomada de decisão, protagonismo, clima do estádio, peso da camisa, contexto de times e campeonatos etc — e, dada a conjuntura dessa loucura que é uma mistura de competição, teatro, dança, jogo de tabuleiro, guerra de nervos e outras coisas mais, a análise também segue a mesma complexidade. Enfim, o mundo pode amar Messi, mas, não, ele não é melhor que qualquer mortal em todas as coisas que envolvem a prática.

2. Futebol brasileiro x craques do ‘eixo’ europeu
Copa de 2010, eu trabalhava na redação da ESPN. O Sneijder acabara de ganhar a Copa dos Campeões como meia da Internazionale, e depois comandava a armação das jogadas da Holanda na África do Sul. Falei, numa discussão meio de boteco e numa época que eu começava a me incomodar com um certo pragmatismo do futebol globalizado, que preferia Marcelinho Carioca [olha ele de novo] ao careca da Inter. Pronto, virou a minha gafe da redação [e nem corinthiano sou, o que me exime da crítica por clubismo]. É impensável para os fãs do futebol europeu que acreditam que a Copa dos Campeões é o oásis de futebol vistoso no planeta comparar alguns de seus grandes nomes com brasileiros com história restrita ao futebol local. A cada passe de Sneijder no Mundial, ouvia um “Marcelinho já deu vários desses em Copas, né?”. Ou então lembravam que o carioca fracassara no Valencia, enquanto o holandês era campeão europeu. É isso: diante da atual forma com que tratamos o futebol, onde somos colônia da Europa, você precisa ter argumentos muito consistentes — e números, a globalização do jogo precisa de números! — para comparar alguém que joga no Pacaembu com quem passa na ESPN HD. Mesmo que for uma comparação sensorial, não científica — é só futebol, lembremos. Como se fosse um mundo inferior, como se o futebol brasileiro fosse aspirante à europeu, vivemos uma geração que relativiza tudo que é feito por aqui.

3. Aprofundar o debate, ou manchetar
Lampejo é a manifestação rápida e brilhante de uma ideia ou de um sentimento. Alguém escreveu no Twitter que, sim, Mário Sérgio está certo, Messi vive de lampejos, com a diferença que, na maioria deles, decide os jogos. É isso. Quem disse que jogar em lampejos é um demérito, algo menor? O comentarista não disse que Marcelinho Carioca é melhor que Messi. Ou que, no time dele, jogaria Marcelinho, não Messi. Ou ainda que se jogasse hoje Marcelinho seria titular do Barcelona, com a 10. O comentário diz que, na visão dele, os protagonistas dos times da geração anterior eram mais constantes na partida, precisavam participar mais ativamente de toda a coletividade do jogo. Nisso eu concordo. Acho que o Edilson, no Palmeiras ou no Corinthians, se desdobrava mais em campo que o Bale. Acho que o Giovanni, no Santos, buscava mais o jogo que o James Rodrigues. É isso. Eu vi o Marcelinho pegar a bola de um lado, virar o jogo, buscar do outro, chutar de fora, arrumar a briga, comprar a briga, cavar a falta e fazer o gol do título. Não vejo nada de anormal alguém achar que ele servia mais ao todo do jogo de seu time que o dez argentino.

4. Cuidado com o autoritarismo
Quer dizer que questionar Messi o faz um boçal? Um estúpido? Há algumas semanas, no programa Titulares, na Central 3, recebemos um amigo torcedor do Brasil de Pelotas. Na conversa, falamos sobre a paixão da torcida rubro-negra, famosa em todo o país. E o companheiro de bancada Vitor Birner destacou muito bem: acreditar que a beleza do jogo está só no nível de final de Copa dos Campeões é quase acreditar numa raça ariana do futebol, numa elite que é capaz de desenvolver algo que os outros não podem, sendo que a beleza de um jogo é muito mais que uma suposta diferença estética ou de qualidade técnica. Essa colocação autoritária de um futebol melhor que o outro é uma imposição midiática, comercial, mas não nos esquecemos que é plenamente aceitável você achar o moleque que joga bola no teu time de várzea melhor que o Ronaldo — repito, diante de todas as circunstâncias físicas, técnicas, táticas, psicológicas e de ambiente que envolvem cada jogo em particular -, imagina então achar que o Marcelinho é mais constante no jogo que o Messi.

5. Pelo bem do futebol, os valores imateriais
Quando o Mário Sérgio fala em constância durante os 90 minutos de jogo e o PVC vem com o número de gols e assistências do Messi, que relação se pode fazer? Nenhuma. Não tem estatística, mapa de calor nem MisterChip para medir o poder que um cara tem de colocar um jogo debaixo do braço técnica e psicologicamente. Nem para aquela lembrança de arquibancada do meia que está em todos os lugares do campo no momento das jogadas decisivas, ou que ora faz uma milonga para ganhar tempo, ora acelera e aterroriza o ritmo do confronto. Não tem um instrumento de medida preciso para mensurar quem espera mais a bola para fazer sua jogada característica em comparação com quem usa a capacidade para elevar o nível de todos os setores do campo, em todos os quesitos. Falando em medição, como se calcula a diferença entre se jogar no Corinthians do final dos anos 1990, que mesmo líder de Campeonato Brasileiro tinha torcida pressionando no estacionamento do clube, com o Barcelona atual, no geladíssimo Camp Nou? Enfim, os valores imateriais estão aí para serem flexionados para cá ou para lá, muito além de contar Bolas de Ouro.

6. O jogo mudou, mas comparações fazem parte
Meu pai garante que o Rivellino jogou “muito, muito mais” que o Messi. Vá saber. Comparações, preferências, é disso que é feito o futebol. Eu não tenho dúvidas que o Edmundo foi muito melhor que o Cristiano Ronaldo. Que o César Sampaio era tipo o Xabi Alonso, o Kross e o Rakitic, só que somados. E que seguiremos sempre inspirados em nossas divagações de futebol absurdas, mesmo que sob a música do tribunal do Twitter.

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