Sobre o Orgulho LGBT

Viado nojento! Raça imunda! Deviam matar toda sua raça do planeta!

Seus promíscuos! Gostam de alargar o ânus e querem que achem normal!

Deviam enfiar uma tora no rabo de vocês, já que gostam!

Sua raça morre de AIDS!

Chocante, né? Dói, né?

Pois é…

Hoje, 15 de Novembro de 2015, foi a 20ª Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro. Um momento de celebração, um momento de felicidade, também um momento de reivindicação dos nossos direitos, a comunidade LGBT.

Mas, ainda em 2015, essas frases aí de cima são ouvidas diariamente, numa coisa que já virou lugar comum pros diversos gays do Rio de Janeiro (e claro, de outras cidades do Brasil). Frases que desumanizam, desvalorizam, desmerecem e depreciam um ser humano a ponto de ele acabar se sentindo um ser inferior à sua própria espécie, indigno de sua própria humanidade.

Por que a gente precisa de uma Parada do Orgulho LGBT? Aliás, POR QUE sequer precisamos do orgulho LGBT, você pergunta? Bem simples: numa sociedade que tenta nos lembrar diariamente que não somos nada, lembrar-nos que somos pessoas plenas é também um trabalho diário. Lembrar que, por mais que eles tentem nos humilhar, nos depreciar diariamente, temos que estufar o peito em orgulho e erguer a cabeça.

Eu sou viado, mas não nojento. Sou gay, mas não sou uma raça imunda.

É muito triste ver o regresso se instaurando como norma na sociedade brasileira. O progresso pelo qual lutamos tão bravamente está sendo dilapidado, arrancado de nós, como se não fossemos merecedores.

“Família é homem e mulher!”. Por que eu não posso ter uma família com meu marido?

“Dois iguais não procriam!”. Por que o Estado dificulta tanto a adoção por casais homoafetivos?

“Viado tem que morrer!”. O que eu fiz de errado? Nasci?

Dói, diariamente, e pra ser gay tem que ter fibra.

Você enfrenta uma onda de ódio todos os dias, de todos os lados. Há os que sofrem na rua, em casa, na escola, no trabalho, nos círculos sociais. E há os que não resistem e sucumbem. Tem que ter muita fibra. Ser gay não é fácil, ainda mais quando a homofobia tá incrustada em coisas mínimas da sociedade, onde a luz da nossa consciência nem chega, de tão profundo.

Ter que pensar duas vezes antes de demonstrar carinho pela pessoa que você ama, já que você nunca sabe quem pode te atacar simplesmente por andar de mãos dadas ou dar um beijo simples no seu namorado. A constante paranoia quando passa um carro do seu lado, abaixa a janela e grita “VIADO!” e você reza na cabeça “por favor, só me xinguem! Não desçam pra me bater”.

É difícil ser gay. É difícil mesmo!

E quantos pensamentos de “melhor não fazer isso” e “melhor não ir pra lá” ou talvez “melhor não falar assim” ou ainda “melhor vestir outra coisa”, tudo pelo constante medo de que, se eu for plenamente o que eu realmente sou, posso não voltar vivo pra casa nunca mais.

Essas coisas não passam na mente de um homofóbico ou mesmo de quem não entende e acha que gays já estão “querendo privilégios”. A gente não quer privilégio. A gente quer viver plenamente. A gente quer ter certeza de que nós não vamos sofrer por ser o que somos.

“Violência todo mundo sofre! Vocês que são vitimistas”. Realmente: assalto não escolhe gênero, orientação sexual, cor, classe social, nada. Mas ser afrontado, fisicamente agredido simplesmente porque sou gay não é vitimismo. É real. É real pra caramba!

Coisas simples, do cotidiano de todo mundo, que parecem ser de acesso a todos, alguns gays sofrem por terem que repensar mil vezes antes de fazer, simplesmente porque uma sociedade não aceita que o mundo não é só heterossexual.

Você já foi aconselhado a “agir mais normal” no ambiente de trabalho porque pegava mal pra sua área, pro seu setor, pra sua empresa? É… dói bastante.

Ser gay é muito difícil quando a gente é tratado como cidadão de segunda-classe.

Ser gay é muito difícil quando você tem que pensar cada gesto, cada passo, cada palavra.

Ser gay é muito difícil.

Mas

Ser gay é maravilhoso quando eu sei que não preciso escancarar uma falsa masculinidade pseudo-superiora.

Ser gay é maravilhoso quando sei que nossas festas são as mais pacíficas e divertidas.

Ser gay é maravilhoso quando eu posso ser eu mesmo.

Mas quando eu posso ser eu mesmo? Quando eu quiser.

Ser gay não é crime, não é pecado, não é errado, não é sujo, não é abominação.

Ser gay é apenas o que é. Nada mais, nada menos do que ser hétero. É exatamente a mesma coisa.

Ame-se diariamente.

Orgulhe-se do que você é diariamente.

Você já vai ter um mar inteiro de gente que vai tentar te provar diferente.

Mas nunca se esqueça: você é lindo e perfeito desse jeito.

Eu sou Paulo Sora e eu tenho muito orgulho de ser gay.