As Manifestações do dia 04/12/16: O Depois

Como antecipado aqui em meu texto anterior, as manifestações de domingo não atingiram a relevância esperada por quem está com um nó na garganta, e até pelas autoridades que tinham nela a esperança de não precisarem renunciar.

O que se viu nas ruas foi um número pequeno de pessoas, 75 mil, segundo a Polícia Militar e 488 mil, de acordo com os manifestantes. Estimativas que deixam esses protestos em posição muito semelhante aos realizados em dezembro do ano passado, dias após Eduardo Cunha aceitar o pedido de Impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Vale ressaltar que a Polícia Militar do Rio de Janeiro não divulgou o número de manifestantes presentes, mas pelas imagens podemos inferir que foi o local com maior concentração e, sem dúvida, poderiam alavancar a estimativa final apresentada pela tabela e gráfico abaixo:

É com essa quantidade de dados, trazidas por fontes e método de coleta confiáveis, que iniciamos nossa análise:

  • Fator Dezembro: é possível que o fim do ano tenha influência na diminuição do engajamento em protestos, o que pode ser explicado pelo cansaço psicológico/físico, proximidade das festividades, férias e até “saco cheio” desse tipo de assunto. Porém, por se tratarem de justificativas subjetivas, dificilmente entrariam em algum relatório analítico direcionado a entidades públicas e privadas;
  • Janela Apertada! as manifestações de 13/12/15 e 04/12/16 têm em comum o fato de estarem próximas aos motivos que as causaram. No ano passado, os organizadores tiveram apenas dez dias para reunir seus seguidores a tomarem as ruas, neste ano, apenas cinco;
  • Kim, cadê você? mesmo com publicações e vídeos no YouTube, o Movimento Brasil Livre, um dos maiores influenciadores políticos nas redes sociais, não participou da organização de eventos no Facebook. Sendo assim, outro fator de redução do número de pessoas nas ruas, já que menos internautas foram atingidos pela mensagem de convocação;
  • Quem e o quê estou defendendo? uma parcela do público-alvo deixou de comparecer às manifestações em dezembro de 2015 por terem medo de estarem apoiando a figura controversa de Eduardo Cunha. Neste ano, muitos artigos escritos por influenciadores, tanto da esquerda, quanto da direita, mostraram um receio de estarem apoiando a continuidade, ou a queda, de Michel Temer. Segundo apoiadores do presidente, tomar as ruas significa desestabilizar o poder executivo, seus detratores, por outro lado, argumentaram que ir às ruas era uma forma de apoiá-lo, pois o tiraria dos holofotes;
  • Por que sair de casa? além disso, as manifestações de domingo não tinham um motivo claro. Enquanto em 2013, a maioria lutava pelo Passe Livre, em 2014, queriam o cancelamento da Copa, e em 2015/16, a queda de Dilma, neste domingo até os nomes dos eventos organizados no Facebook eram genéricos: “Manifestações 04/12”, ou “Vem Pra Rua 04 de Dezembro”. Porém, após a cobertura da mídia, com manchetes e artigos definindo-as como “Pró Lava-Jato”, a tendência é que elas se concentrem em criticar a lei de abuso de autoridade trazido à tona pela Câmara no último dia 30;
  • Quem vai estar lá? mesmo com um fator em comum, ou seja, revolta pela queda do pacote de 10 Medidas Anticorrupção, o público ainda insiste em se dividir em “nós” contra “eles”. De exemplos deixo dois textos compartilhados por amigos meus no Facebook que expõem essa divisão: o “petralha” e o “coxinha”.

Dessa forma, com a definição, elaborada pelas manchetes dos jornais, de que as próximas manifestações serão em defesa à Lava-Jato, em outras palavras, contrárias à lei de abuso de autoridade proposta pela Câmara dos Deputados, a tendência é que a mobilização online seja mais intensa e tenha influência no número de pessoas nas ruas.

De dúvidas, ficam se elas serão suficientes para ter algum impacto nas decisões do Congresso e se o caso de Renan Calheiros pode, ao menos uma vez, unir coxinhas e petralhas nas ruas.