Discipulado de Iguais: iguais mas diferentes

Paulo Ueti
Aug 8, 2017 · 15 min read

Gêneros e sexualidades no debate da IEAB[i]

Paulo Ueti[ii]

Cada vez mais somos colocadas frente a frente com a questão da diversidade e da unidade. E o tema das sexualidades e gênero é lugar fundamental para continuarmos esse debate e procurarmos mais fidelidade ao projeto de Deus.

E como pessoas religiosas somos desafiadas a “amar incondicionalmente” e “permanecer juntas”, mesmo na dissensão e no conflito. As tentativas de higienização e homogeneização na religião sempre resultou em violência e expressa uma “desobediência” (não ouvir) a Deus. Escrevo esta nota como uma opinião de um membro da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Esta é uma tentativa de continuar o processo de diálogo permanente e fraterno sobre o tema de gênero, sexualidades e direitos. Certamente continua sendo um campo minado e doloroso de passagem e de experiências. Infelizmente essa jornada tem sido carregada, em diferentes níveis e lugares, de intolerância, dogmatismos e certezas (que imediatamente interrompe qualquer diálogo). Por isso quero opinar ao invés de dissertar algo supostamente científico, a partir de meu campo de estudo e especialização. Quero insistir nessa palavra diálogo. Quero insistir nesse caminho (método) dialogal onde somos convidadas a irmos mais longe, por isso a exigência é maior e a necessidade de vontade e desejo fundamentais de seguir juntas. Precisamos continuar repetindo e realmente pondo significado na expressão de Jesus para seus discípulos/as: “Desejei ardentemente comer essa Páscoa com vocês…” (Lc 22:15).

Em minha opinião é fundamental conectar esse diálogo com o olhar atento para a realidade em que vivemos e a realidade em que queremos viver, a leitura e interpretação da Bíblia (como fazemos, para quem fazemos, quais objetivos temos, quem ajudamos e fortalecemos) e com a escuta atenta e amorosa desta palavra na vida e na liturgia (como celebramos, como nos preparamos para escutar Deus, a natureza e a humanidade, como isso nos modifica e nos faz mais parecidas com Jesus). Toda teologia como ato de reflexão precisa levar em conta esses aspectos. A corporeidade, as sexualidades, os direitos que temos são elementos fundamentais desse caminho teológico. Afinal é para que a justiça e o direito floresçam que fomos chamados (Am), também é para não ficar conformadas com o sistema atual e mudar nossa maneira de pensar e agir (Rm 12:2).

Gostaria de lembrar com nosso irmão Rubem Alves que:

“Toda teologia é um jeito de falar sobre o corpo.

O corpo dos sacrificados.

São corpos que pronunciam o nome do sagrado: Deus.

A teologia é um poema do corpo,

o corpo orando,

o corpo dizendo as suas esperanças,

falando sobre o seu medo de morrer,

sua ânsia de imortalidade,

apontando para utopias,

espadas transformadas em arados,

lanças fundidas em podadeiras…

Por meio dessa fala

os corpos se dão as mãos,

se fundem num abraço de amor,

e se sustentam para resistir e para caminhar.” (Alves, 2005)

Gostaria de recordar também que a “Palavra de Deus” que encontramos na Bíblia (mas não somente nela) tem por objetivo: ser lâmpada para os pés e luz para o caminho (cf. Sl 119:105), nos ajudar a crer em Deus e a ter a vida em Jesus (cf. Jo 20:30–31), a nos corrigir e a nos manter na retidão (cf. 1Tm 3:14–17), a verificar a solidez da fé (cf. Lc 1:1–4). A Bíblia não nos foi legada para que creiamos nela, mas para que, através dela, creiamos em Deus (cf. Jo 20:30–31). E, não esqueçamos que crer é viver. É um testemunho, é um ato. “Crer é uma experiência vital e comunitária; o mistério deve ser acolhido na oração e no compromisso, é o momento do silêncio e da ação.” (Gutierrez, 1990). É importante não esquecer deste dado da Revelação para que não percamos nosso foco nesta nossa caminhada, para que não erremos nosso alvo (=pecado), para que sejamos capazes de ‘verdadeiramente’ e de coração aberto escutar o que Deus tem para nos dizer, do jeito que Deus quer nos dizer.

Não é demais voltar a lembrar que a convivência humana é um desafio desde sempre. Como conviver com o diferente? Como ‘harmonizar’ a criação de Deus? Quando lemos os textos bíblicos já nos deparamos com vários relatos sobre esse desafio e como lidar com ele. Infelizmente algumas de nossas leituras são extremamente seletivas e feitas com óculos embaçados ou com óculos emprestados de outros projetos que não são os de Jesus, nosso modelo. Para as nossas comunidades cristãs é um desafio inerente a identidade nossa. A convivência com o que é diferente de mim é estruturante, é exigido como parte de quem eu sou como pessoa batizada. A intolerância e o julgamento que exclui e desumaniza (ataca a humanidade de alguém afirmando que ela é menos humana e querida que eu) não podem fazer parte do nosso jeito de viver a fé.

Para a teologia, Deus revelou-se aos seres humanos através de sua capacidade (ou será sua essência?) de relação. Se nós procuramos a Deus é porque Deus nos procurou primeiro. (Gen 1–2; Os 1–3.11). Ele tomou a iniciativa de, por amor incondicional (mesmo sabendo que a iniquidade habita em nossos corações — cf. Gn 9; Os 11), revelar-se e autocomunicar-se. Poder-se-ia dizer então que uma das privilegiadas experiências de Deus se faz na relação. Deus é Relação (Deus é Amor. 1Jo 4:19). É no outro e na outra que encontro uma revelação de Deus: “…Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25:40). “Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4:20). A tradição bíblica é testemunha desta ‘simbiose’ total entre Deus e o povo.

Neste sentido durante nossa história foi-se esquecendo a fundamental diferença entre unidade e uniformidade. Cada vez mais somos chamados, e somos patrulhados, para sermos uniformes: dizer as mesmas palavras, realizar os mesmos ritos do mesmo jeito, utilizar os mesmos manuais, dizer a mesma teologia, organizar-se do mesmo jeito, ser homem e mulher a partir de um modelo só. É um caminho que levou muitos sistemas ao totalitarismo, violência e rupturas. É um caminho que mata cotidianamente, conforme temos vistos vastamente em nossa realidade.

Por isso é fundamental voltar nosso coração e nossa mente para a espiritualidade bíblica: centrada na misericórdia e no Reinado de Deus. Paulo nos ajuda a olhar para essa realidade carismática e de poder na igreja primitiva e isso lança luzes (e com elas vêm as sombras inevitavelmente) para um ‘retorno ao primeiro amor’, uma mirada ao projeto original de Jesus. Paulo utiliza o sinal dos membros do corpo para falar da igreja cristã: os membros são essencialmente diferentes mas todos igualmente necessários e com a mesma dignidade.

Desenvolve-se aqui o que se chama em nossa teologia de ‘o discipulado de iguais’. Como compreender essa premissa teológica enraizada em toda a tradição bíblica hoje em dia? Como compreender a diversidade de carismas e sua equidade na vida da igreja (da instituição e dos fieis)?

Falando de Gênero e sexualidades

Para fazer uma boa eisegese (entrar no texto e também analisar a realidade) a fim de que a exegese e a hermenêutica sejam correspondentes utilizo a categoria de gênero para analisar nossa perícope e fazer uma interpretação.

O instrumental de gênero elucida as realidades históricas construídas, que definem no âmbito cultural e social o que significa ser mulher e ser homem. O termo e seu referencial ajudam a definir as características que não são biológicas, mas que são atribuídas às mulheres e aos homens, num processo de construção social e cultural. “O gênero é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder.” (Scott, 1990)

A perspectiva de gênero é relacional, ou seja, engloba ao mesmo tempo outras categorias e interpretações em relação a um conjunto de fenômenos sociais e históricos em relação à identidade. O gênero perpassa as relações sociais e como não é uma categoria estática e fixa, mas dinâmica e ativa. Não cabe nesta forma de análise a oposição fixa entre as categorias sexo, como a diferença biológica entre macho e fêmea e gênero como as construções sociais e culturais. O risco que se corre com essa fixidez é que “na insistência no caráter de construção social do gênero, o sexo e a natureza não foram historiados e, com isso, ficaram intactas ideias perigosas relacionadas com identidades essenciais, tais como “mulheres” ou “homens”.

O instrumental de gênero permite elucidar que determinados valores e símbolos são culturalmente construídos e assim estão presentes na distribuição de poder social. O gênero não é categoria absoluta na análise da situação social das mulheres. Ele precisa ser atravessado por outras categorias como idade, cultura, classe, etnia. Gênero é um instrumento de análise política das relações sociais entre homens e mulheres, é um modo de ser no mundo, que destaca a pluralidade do humano. Como instrumental o gênero dá a hermenêutica feminista um leque maior de análise. A hermenêutica feminista perpassada pelo instrumental de gênero levanta alguns pressupostos metodológicos. Aqui não se trata de isolar as mulheres para analisá-las, mas buscar pelo contexto de relações sociais. É ir além da visibilização para perguntar pelas relações de poder, de classe, gênero, geracional presentes no texto.

Gênero aponto para a noção de que, ao longo da vida, através das mais diversas instituições e prática sociais, nos constituímos como homens e mulheres, num processo que não é linear, progressivo ou harmônico e que também nunca está finalizado ou completo. O conceito também acentua que, como nascemos e vivemos em tempos, lugares e circunstâncias especificas, existem muitas e conflitantes formas de definir e viver a feminilidade e a masculinidade. Gênero introduziu mais uma mudança que continua sendo, ainda hoje, de polêmicas importantes no campo da construção das identidades. Nós nos fazemos o que somos, não nascemos prontas/os. Precisamos ir para além de olhar gêneros a partir dos papeis que homens e mulheres desempenham em diferentes instituições, papéis esses também construídos e, portanto, mutáveis. A tradição bíblica, por exemplo, é uma expressão rica e diversa de diferentes papeis e lugares em que homens e mulheres ocuparam na história. Muitas das vezes homens e mulheres agiram, conscientemente, contra o senso comum e a norma de sua época. Muitas masculinidades e muitos jeitos de ser mulher encontramos na nossa história. Isso também implica na maneira como enxergamos e lemos as sexualidades diversas apresentadas na historia bíblica.

Falando de sexualidades e homossexualidades

Aqui gostaria de introduzir a conversa, que espero continuar em outros lugares e de outras maneiras nesse caminhar que fazemos juntas e juntos na igreja e na sociedade. Quero continuar essa conversa num ambiente onde pessoas estão sendo ameaçadas, violentadas e mortas por sua expressão de sexualidade, por seu jeito de ser no mundo. Como pessoas religiosas o imperativo de cuidar da vida e construir o Reino são fundamentais e são o critério para o desenvolvimento da fé e da espiritualidade (o jeito de viver a fé no mundo). Em minha opinião não posso julgar ou desejar sequer que alguém seja como eu ou como eu queira que ela seja e viva. Meu olhar, minha leitura bíblica e minha teologia não podemos ser instrumentos de sofrimento e morte, mas produtores de vida e fraternidade.

Eu fortemente acredito que muitas de nossas incompreensões e muitas palavras e gestos violentos que produzimos como pessoas religiosas provem de uma leitura desatenta da Biblia e de um arcabouço cultural que acostumamos chamar de natureza, de natural e de normal. Precisamos desafiar isso e mais com os ouvidos do coração escutar o que Deus tem a nos dizer e o que realmente é importante nesse caminho do Reino e da fraternidade.

O Verbo se fez carne — diálogo e método. As palavras tem poder. Empoderam, enfraquecem. Criam e destroem realidades. Produzem saúde e doença. Matam e ressuscitam. Abrem portas e as trancam. Quando Deus fala algo acontece. Quando eu falo algo acontece. Palavra é criação, é arte (beleza e travessura). Deus expressa-se como um artista, por isso é comunicação e diálogo. O que eu estou fazendo acontecer quando eu falo, quando eu leio a Biblia e a interpreto, quando faço escolhas?

Para gente religiosa a Palavra/palavra tem muito poder. Tem o poder de libertar e de dominar. Para quem lê ou conhece as histórias bíblicas é mais evidente. Já no primeiro capítulo do livro das origens (Gênesis) podemos escutar (visto que o capitulo 1 é uma canção e não um discurso) que quando Deus pronuncia uma palavra, algo de extraordinário acontece. Isso é importante notar: fala = acontecimento. Quando falamos não estamos simplesmente decodificando algo de nosso cérebro para comunicar. Não falamos simplesmente com sons e com a boca. Quando falamos também produzimos uma realidade, somos capazes de transformar (alquimizar) o mundo e nós mesmos. Do mesmo jeito que Deus o fez.

Com essa memória podemos percorrer vários textos bíblicos e acontecimentos da vida. Quanta palavra pronunciada foi responsável pela morte, destruição, opressão e exclusão. Quanta palavra pronunciada fez exatamente o contrário: aliviou, libertou, incluiu, reconheceu, empoderou. Que palavra nós carregamos e compartilhamos? Que projeto político (de bem comum) está incluído nas nossas escolhas de palavras e de contextos para pronunciá-las (criar/transformar realidades)?

Rubem Alves gosta de um conto que compartilho com vocês.

Lembro-me de um cavalheiro, educado num mundo de proibições alimentares, que aprendera a detestar miolo sem nunca haver provado um. Foi jantar em uma casa em que foi servida couve-flor empanada. Após a refeição dirigiu um elogio à anfritriã:

-Divina, a couve-flor…

- Couve-flor? O senhor se enganou. É miolo empanado…

E, sem que tivesse havido uma única alteração nos componentes físico-químicos da situação, a linguagem que envolvia o corpo se encrespou, e a educação do hóspede se transformou em palidez de um corpo cujo estômago vem à boca, seguida da corrida inevitável ao banheiro, para vomitar.

Vomitar o que?

Miolo?

Absolutamente.

Vômito de palavras, rótulos, etiquetas.” (ALVES, 2005).

Por isso, “o ser humano não vive somente do pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4:4). A comunidade de Mateus quis deixar essa lembrança forte para todo mundo.

Nossas palavras deve ser palavras da religião — religar, juntar, agregar. Mas nossas palavras as vezes podem ser satânicas — acusar, impedir a comunicação e atrapalhar o diálogo. O Verbo (logos) se fez carne (acontecimento) e acampou (dialogou) entre nós. Parece que a encarnação não é parte de um processo metodológico de comunicação de Deus, como muitas vezes é tratado. A encarnação tem sua significância em si mesma e diz muito da nossa experiência de Deus. Porque é tão íntima é perturbadora. Tira-nos da nossa zona de conforto e nos provoca a mover-se: missão e caminho (método). As palavras enfrentam o silêncio e o silenciamento. A Palavra acontece e transforma, provoca reação.

Sobre o tema das sexualidades em geral, e aqui o plural é proposital e importante, vivemos nos últimos anos um momento de democratização da palavra e da realidade. As diferentes maneiras de expressas a sexualidade não são um “tema” em nossas vidas. Elas são de carne e osso, e afetam a vida da sociedade. É necessário falar. É um mandato de Deus que a palavra se espalhe e transforme.

Escutar, como disse no começo dessa conversa, é essencial em nossa espiritualidade judaico-cristã. Escutar para obedecer — seguir o mesmo caminho, reagir ao amor de Deus incondicional e perturbador (o amor perturba — desconforta e movimenta excentricamente).

No que diz respeito a conversa que tem se estabelecido em muitas igrejas sobre matrimônio (termo que necessita de debate e desconstrução) entre pessoas do mesmo sexo está plena fase de conflitos, tensões e criatividade. Duas grandes igrejas nos últimos anos aprovaram este procedimento: a Igreja Luterana e a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos e a Igreja Luterana da Suécia. Depois de mais de 10 anos de diálogo difícil e tenso, porém criativo e espiritual, chegaram a decisão de aprovar o casamento de pessoas do mesmo sexo. Esta decisão quase gerou uma quebra da comunhão entre igrejas luteranas do norte do mundo e do sul do mundo, especialmente as igrejas africanas. Os motivos são conhecidos por nós. Leituras fundamentalistas e completo desconhecimento do assunto e do processo levaram a comportamentos violentos e nada cristãos.

Este assunto e essa realidade das homossexualidades, não somente do casamento de pessoas do mesmo sexo, ainda urge em nossa parte do mundo de escuta e de diálogo. Os documentos e as conversas, não sei se eu classificaria como diálogos, ainda não atingem as congregações locais das igrejas. A discussão teológica e ética ainda é privilégio de um pequeno grupo. Há forças ocultas que impedem que se estabeleça diálogo e processos de enfrentamento desse tema e dessa realidade.

Metodologicamente penso que não podemos incorrer no equívoco midiático que nos leva a apressar decisões e simplesmente atropelar o caminho (método). Em contextos religiosos os temas e as realidades devem ter forte componente religioso. Não são suficientes para crentes afirmações somente éticas e estéticas. É necessário fazer teologia desse contexto e a partir desse contexto. E para as pessoas crentes que vivem no sul do mundo, ainda é mais importante percorrer leituras bíblicas que se expressem libertadoras e criadoras de vida.

Em alguns círculos das nossas sociedades essa questão das homossexualidades já se tornou “arroz com feijão” (para utilizar uma imagem brasileira). Mas na maioria dos círculos, especialmente religiosos, ainda são conversas atravessadas por violência, intolerância e fundamentalismos (e não só fundamentalismos religiosos e escriturísticos). Isso precisa ser enfrentado com carinho, cuidado e profundidade, no espírito do diálogo, não como método mas como objetivo em si.

Posso concordar que já existem muitos argumentos e já uma longa trajetória de debates. Mas não posso concordar que foram democráticos e democratizados. Ainda precisa-se aprender a dialogar. Precisa-se aprender a viver na incerteza e enfrentar a violência em todos os seus níveis. Também não posso concordar que a reflexão bíblica está tranquila e já acertada em termos da sexualidade humana, na verdade em vários outros assuntos. Aqui falamos não simplesmente de tradução dos textos (absolutamente ideológicas e muitas vezes descontextualizadas — há vários exemplos disso em nossas traduções modernas, tremendos anacronismos violentos e absurdos). Estamos falando do lugar da Escritura Sagrada em termos de discurso teológico, de experiência e estrutura eclesiológica bem como de espiritualidade. Falamos de normatividade, de relação (o texto é em si ou o texto é “em relação?). Mas insisto que é fundamental estudar mais a escritura. Infelizmente muitos argumentos são simplistas e baseados nas versões portuguesas (ou nas línguas modernas) da Bíblia. Precisamos considerar aqui os aspectos das traduções e do universo cultural e histórico em que os textos foram contados, escritos e repetidos. Formação bíblica adequada ainda é uma lacuna grande nas igrejas. Isso precisa ser corrigido se queremos continuar no caminho das mudanças e na defesa da vida e dos direitos.

E os argumentos de que “já temos o bastante” para tomar decisões nunca será um bom argumento. Nunca vamos “ter o bastante”. Claro que isso não pode ser uma desculpa para não tomar decisões, mas é importante levar em conta os níveis do que é “o bastante”. Neste caso particular das conversas sobre homossexualidades, sexualidade humana e teologia, Bíblia e pastoral, um dos elementos fundamentais, estruturantes e definidores é o componente democrático das conversas. Onde está sendo discutido, com quem, de que jeito, com que metodologia e com quais recursos? O diálogo é expressão da encarnação e não simplesmente um jeito para se chegar a uma decisão.

Nosso compromisso de amor e cuidado é para incluir todas as pessoas. Não podemos deixar gente pra trás porque elas deixaram gente pra trás em algum momento. Nossas verdades precisam encontrar as outras verdades e as vezes quem tem mais pressa e mais urgência pode ser mais caridoso e cuidadoso.

A espiritualidade beneditina tem como um dos seus pilares a busca do Senhor e a hospitalidade. Os mosteiros eram considerados escolas do Senhor. As igrejas consideradas edifício santo (hospital — onde se pratica a hospitalidade). O diálogo, a escuta, tão cara para Bento de Núrsia e para a espiritualidade cristã devem ser parâmetro para continuar o processo, que em minha perspectiva ainda está sequestrado por um grupo privilegiado (do qual eu sou parte inclusive). O encontro com gente diferente de mim que nunca sequer pronunciou a palavra Homossexual me desafia e acho que deveria desafiar a igreja neste contexto de debates tão acalorados nestes últimos meses.

Não creio que seja uma questão de ser a favor ou contra. Esse é o equivoco da discussão do aborto ou da interrupção da gravidez indesejada. Essa provocação de ser contra ou a favor impede (ou mascara) o debate, a tomada de posição, o pronunciamento de palavras que podem transformar e o desafio de dialogar (produzir argumentos e enfrentar a normatização e os fundamentalismos políticos religiosos). A maioria das pessoas ainda não tem sequer vocabulário para essa conversa das homossexualidades, do matrimonio e do matrimonio de pessoas do mesmo sexo. Não há vocabulário suficiente ainda para a conversa sobre a família (outro debate árduo e normalmente esquivado nas igrejas) e a identidade cristã. Se não há sequer vocabulário suficiente democratizado imagino que não haja uma gramática organizada para que haja um dialogo que seja processo de intercambio e não simplesmente catarse verbal.

A igreja é o espaço de dizer a palavra e ajudar que palavras “mal/ditas” ou não ditas apareçam e tenham seu lugar. É parte do processo terapêutico de cura e salvação.

Relações novas

A leitura da Bíblia, a prática da liturgia, a vivencia da mística e nossa inserção na comunidade cristã colocam-nos num movimento que quase não tem mais volta. Mudamos radicalmente nosso paradigma para olhar o mundo e sua criação, não mais com os olhos e o coração do pecado, mas pela graça de Deus que abunda, mesmo entre nossos limites.

“… se morremos com Cristo, temos fé que também viveremos com ele, sabendo que Cristo, uma vez ressuscitado dentro os mortos, já não morre, a morte não tem mais domínio sobre ele. Porque, morrendo, ele morreu para o pecado uma vez por todas; vivendo ele vive para Deus. Assim também vós, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus.” (Rm 6:8–11) Este texto, da liturgia batismal, é lido na vigília Pascal. As pessoas que entram na comunidade de fé ouvem esta exortação e se comprometem mudar de vida (metanóia). É um chamado, uma exigência, para vivermos uma vida nova de um jeito novo.

Este é o constante desafio para nossas igrejas hoje. E também para nossas vidas pessoais, marcadas pela ação do Espírito de Deus, que ‘faz novas todas as coisas’.

[i] Artigo publicado no Estandarte Cristão #1821 — Janeiro 2017

[ii] Teólogo e biblista. Membro da Catedral Anglicana de Brasilia. Diocese de Brasilia, IEAB.

Paulo Ueti

Written by

Bible Scholar, Anglican Alliance Facilitator, Researcher on Biblical Studies, living in Brasilia — Brazil most of the time, traveling a lot.

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