No amor não há temor: há comunhão

Paulo Ueti
Sep 4, 2018 · 8 min read

Paulo Ueti

“Grava-me como um selo em teu coração,

Como um selo em teu braço;

Pois o amor é forte, é como a morte!

Cruel como o abismo é a paixão;

Suas chamas são chamas de fogo

Uma faísca divina.” (Ct 8:6)

O amor é forte! Gostaria de começar minha reflexão com essa declaração óbvia. Por ser óbvia precisa ser dita. Em muitos dos nossos diálogos, textos e contextos vivemos muitas formas de violência, morte e exclusão. Não se pode ficar calada/o diante disso pois essa prática, da opressão em qualquer nível, não revela o Deus de Amor que se apaixonou pelo mundo e viola a sua humanidade divina. Quando nos encontramos com a a Bíblia, para alimentar nossa fé e buscar orientação para nossa caminhada (Sl 119:105) percebemos que dois textos se encontraram: a vida (nossos corpos/o corpo do planeta) e os textos escritos (a Bíblia) e descobrimos que ambos são textos/tecidos sagrados, porque vieram da mesma boca de Deus. Deus falou … Desse encontro e dessa escuta aprendemos que a liberdade e a libertação, frutos do amor de Deus, são o caminho que nos é destinado a trilhar.

O amor é forte! O amor não é um sentimento, é uma força (um dínamo) excêntrica que nos move para o outro. O tema do nosso Concílio é “o amor lança fora o medo” (1Jo 4:18) em consonância com o tema da Confelider passada e do Sínodo pois todas nós somos “o Corpo de Cristo, e são membros dele, cada qual a sua maneira” (1Cor 12:27). E estamos realizando o Concílio na Paróquia da Santissima Trindade. A Trindade é expressão do amor que junta, mas não elimina a diferença, que conecta e respeita as diferentes vozes e carismas. Vamos ter isso em mente em nossas conversas.

O amor, que é uma prática, uma ação, é conteúdo, método, forma e destino para nós pessoas batizadas e comprometidas com o Reinado de Deus. O amor transforma (converte) a gente e o mundo. Deus é amor! E Deus não é uma ideia, um discurso, uma doutrina. Deus é, simplesmente, conosco. E todas as pessoas são uma imagem e semelhança de Deus. A natureza veio de Deus e também é sagrada. Essa “realidade” fundamental não pode nos escapar para que não incorramos no pecado, para que não erremos o caminho para que Deus seja Rei e para que seu reinado seja em todos os cantos da terra.

Nosso mandato para batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo todos os cantos da terra, nos lembra da responsabilidade de nos dar conta que somos colaboradoras/es da obra divina. E, como Deus, devemos SER amor, FALAR palavras que curam e apaixonam, AGIR de acordo com isso. Por isso Deus encarnou-se em Jesus, para fazer esse comunicado, expressar seu contínuo compromisso de alguém apaixonado que não abandona e toma riscos para proteger quem ama. Jesus é essa “parábola” e o convite.

Mas, como parecer-se com Jesus neste mundo? Como apaixonar-se a ponto de dar a vida? Deve ser por isso que a prática de Jesus foi tão conflitiva no seu tempo: ele é um homem diferente do tipo de homem que imprime medo, diz palavras violentas, oprime (particularmente as mulheres e meninas), ele é um homem diferente daquele que exclui quem não é igual a ele. Ele é um homem excêntrico e transgressor, assim como é o amor. Ele é um homem que cuida e se aproxima. Ele é um homem que se apaixonou e demonstrou isso. Deve ser por isso que seguir Jesus é tão difícil hoje em dia.

A igreja é chamada a ser uma parábola do Amor. O corpo só funciona em colaboração. O corpo é a metáfora da igreja e expressão do amor de Deus. Deus se fez carne em Jesus. Jesus se fez presença em nós. Essa tradição e responsabilidade são nossas de continuar e de multiplicar. Por isso a tarefa fundamental de amar e espalhar amor ainda continua, mais do que nunca em nossos contextos, em nossas vidas privadas. É pela prática do amor que seremos reconhecidas no mundo e seremos uma luz para o mundo. Ele é a mensagem extravagante do Evangelho de Jesus. E a mensagem é entregue através de nossas ações e palavras, em conjunto e inseparáveis.

Somos chamadas a uma profunda avaliação de nossas práticas e de nossas teologias, de nossas canções e nossos métodos, de nossa escola dominical e celebrações litúrgicas, de nossa missão (ou a falta dela) no mundo. A comunidade de João é muito incisiva em sempre lembrar que o amor a Deus só pode ser através do amor aos irmãos e irmãs. E o amor é uma pratica, não um discurso ou um sentimento. Somos chamadas ao discipulado intencional de transformação pois não devemos nos conformar com os esquemas desse mundo (cf Rm 12:2). E “quando as Escrituras Sagradas falam do discipulado de Jesus, proclamam a libertação do ser humano de todos os preceitos humanos, de tudo que o oprime, de tudo que o sobrecarrega, de tudo que lhe suscita preocupação e dor na consciência” (Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, pag 13).

O amor nos leva a tomar a decisão de dizer não ao pecado e sempre sim à permanência “em toda amplitude do amor de Cristo para com todos os seres humanos, na paciência, misericórdia e “filantropia” de Deus (cf Tt 3:4) para com os fracos e ímpios.” (Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, pag 14).

Para além do texto da carta de João, que é extremamente autoexplicativo (vamos ler mais o mesmo), quero recordar o texto de Lucas 7:36–50. Ela amou mais… Este é um tema difícil para refletir nas nossas igrejas e práticas pastorais. Como acolher à mesa, na comunidade, na nossa vida, (alguém) uma mulher pecadora (considerada pecadora desde um certo ponto de vista)? Em algumas igrejas, a doutrina e a legislação, nos diz que para aproximar-se da mesa é necessário ter confessado os pecados e ter recebido absolvição eclesiástica antes. Em nossa igreja temos uma absolvição que ainda expressa que o perdão de Deus só vai para aquelas pessoas que o buscam, ou “que, por sua grande misericórdia, promete o perdão a todos quantos, com sincero arrependimento e viva fé, a ele se convertem” (LOC, Rito I, pag 293). Certamente grande parte das nossas Sagradas Escrituras discordam dessa teologia. Será que o perdão de Deus e o acesso a Jesus são só para os “puros” ou para os que não tiverem pecados? O amor de Deus é condicional então? Acredito, e muita gente comigo, que não. O amor de Deus é incondicional. Mesmo quando o traímos e o abandonamos, ele não nos abandona. Essa é a fé que nos move e a fé que devemos compartilhar: o amor de Deus que joga fora todo o medo.

Como já disse antes, estes textos não são meras histórias do tempo de Jesus. Foram lembrados por algum motivo importante. Então é bom perguntar porque a lembrança deste texto naquela época. O problema colocado é que um fariseu convida Jesus para comer em sua casa. Os fariseus eram como nós hoje, pessoas bem de igreja. Eles conheciam muito bem a religião, os textos sagrados, a doutrina. E estavam convencidos de que somente pela prática correta das normas você seria digno do amor e da salvação que vem de Deus. Vários episódios relatados nos evangelhos demonstram esse cuidado exagerado pelo cumprimento da lei. Eles acabaram esquecendo que Deus é, em primeiro lugar, graça e poesia, amor e liberdade. Essa insistência em relatar esse tipo de conflito entre os fariseus e Jesus parece um recado bem direto: a comunidade tem que repensar essa rigidez em relação à lei e salvação, ao cumprimento da lei e vontade de Deus e também deve repensar suas próprias práticas cotidianas. Devem voltar a apaixonar-se novamente. Jogar fora o medo e a necessidade de punição do coração.

Muitas vezes acontece também nas nossas relações eclesiais e nas nossas reflexões teológico-pastorais. Ficamos muito presos a lei e ao cumprimento dela e esquecemos do amor e graça de Deus.

Mas, chegando na casa do fariseu e ‘reclinando-se a mesa’, uma mulher, pecadora fica sabendo que ele está lá e vai ao seu encontro (de Jesus). O amor sempre movimenta a vida, nos tira do lugar, nos aproxima sem perguntas prévias. Vai inteira, vai porque algo diz a ela que aquele homem, diferente dos outros homens de sua época, vai escutá-la, vai recebê-la, vai entender o que ela deseja. E parece que, pelo batismo, é nossa vocação (chamado) ser como esse homem Jesus.

O fariseu, como todas as pessoas que acham que são melhores do as outras porque são ‘certinhas’, cumpridoras da norma, frequentadoras da igreja, começou a recriminar Jesus por causa dessa atitude ‘pouco ortodoxa’. Jesus retoma a palavra e o faz enxergar que o critério que ele usa é outro. O amor é o novo critério da prática e do discurso cristão. Os pecados são perdoados porque ela conseguiu achar o rumo certo para a vida dela. Ela aqui se torna modelo de busca de Deus. Desejar, mover-se, entrar em lugares não permitidos, fazer coisas não ‘ortodoxas’ por causa do amor. Esse movimento salvífico está na base da experiência das comunidades com Jesus e que não pode se perder, especialmente num momento em que começam a aparecer estratificações sociais na comunidade, onde os ideais primeiros estão comprometidos.

O critério da fé agora vai ser o ‘movimento’ em direção a Jesus e não mais o cumprimento estrito da lei. Somos chamadas ao discipulado e à missão. Somos chamadas/os a:

· Proclamar as boas novas do reinado de Deus

· Ensinar, batizar e nutrir os novos crentes

· Responder às necessidades humanas com amor

· Procurar a transformação das estruturas injustas da sociedade, desafiar toda espécie de violência, e buscar a paz e a reconciliação

· Lutar para salvaguardar a integridade da Criação, sustentar e renovar a vida da terra

A transformação ocorrida aqui é que ela sai de casa, se arrisca, se dedica a outro além dela mesmo. Não importa aqui, antes de tudo, se existe pecado ou não. A atitude daquela mulher deve ensinar a Igreja daquela época, e quem sabe de hoje também, que o discipulado se dá no caminho, no risco, no desejo sincero e apaixonado de continuar se movimentando em direção ao amor, em direção a vida plena, dádiva gratuita de Deus para o mundo. É muito comum quando Jesus tem que elogiar alguém ou fazer alguma escolha preferencial, entre os fariseus (e até os/as discípulos/as) e os pobres, doentes e consideradas/os pecadores em geral, ele escolhe estes últimos sem pestanejar. Isso diz alguma coisa para nossa teologia, espiritualidade e prática pastoral? Deveria.

Nesse Concílio somos chamadas novamente a refletir sobre a natureza da nossa comunhão e da nossa comunidade (igreja), sobre a natureza do nosso ser vocacionado para o amor e a graça, sobre a missão que nos é confiada por Deus em Jesus no poder do Espírito Santo: cuidar, cultivar a terra, falar palavras de cura e salvação, praticar o amor e lugar pela libertação de TODAS as pessoas.

“Vem, ó Santo Espírito de Amor,

Vida em abundância, chama flamejante,

Vem trazer-nos o êxtase de tua presença

E inundar-nos com o fogo do teu amor!

Espírito de paz e harmonia, estrela da manhã,

Vem curar-nos com a plenitude de tua misericórdia

E transformar-nos segundo os teus desígnios de amor!

Hoje e sempre! Amém” (Vera Lúcia-Cultuarte Pentecostes, pag 20)

Paulo Ueti

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Bible Scholar, Anglican Alliance Facilitator, Researcher on Biblical Studies, living in Brasilia — Brazil most of the time, traveling a lot.