Como salvar o Pânico?

O Programa Pânico começou na rádio Jovem Pan em 1993. Já com Emílio Surita, que ficava fulo da cara com ouvintes que ligavam para pedir brindes ou camisetas, então desligava o telefone na cara do cidadão.

Dez anos depois, com um imenso sucesso nas rádios, o Programa Pânico na TV debutou na telinha. Seu jeito caracteristicamente escrachado, seu humor transgressor, disruptivo, as idéias absurdas sendo colocadas em prática… não demorou para o programa conquistar espaço e cativar um público carente por uma revolução no humor na TV.

O que fazia o Pânico um sucesso tão grande no começo?

A Sátira

Apesar de estar passando na TV, aquele não era o ambiente do Pânico. Aquele grupinho eram comediantes de rádio. O programa era uma crítica à própria televisão e, pelo amor de Chateaubriand, como eles faziam bem.

Pânico na “fase de ouro”

O programa recriava todo o ambiente e clichês de um programa dominical: a platéia ao vivo, as luzes fortes em um palco comandado por uma trupe que emanava falsidade na condução do programa. As mulheres em trajes mínimos tinham closes de câmera ginecológicos, capturando seus melhores ângulos. Havia a “mulher samambaia” (sério, pára pra pensar quão genial é esse conceito) e já havia a idéia da “Panicat”, no começo brilhantemente estrelada pela Tânia Oliveira(❤), aonde ela fazia entrevistas deixando acidentalmente o seio à mostra nas ruas e já participava daquilo que viria a ser uma constante no programa até hoje: garotas gostosas em situações adversas. As reportagens de festas com famosos também eram uma sátira escancarada de programas como Amaury Jr. e o baixíssimo orçamento que o programa tinha obrigava o uso de cenários e produções toscas e caseiras.

“Putz… Esse programa tem mais erros que acertos!!!” ~ até os GCs eram uma piada com eles mesmos

O início do programa foi realmente sua fase de ouro. Um atrapalhadíssimo Emílio tentava prender a audiência entre quadros — “vocês gostaram dessa palhaçada?”, ele perguntava sinceramente à platéia depois de alguma atração. Ele usava a mesma camisa que o técnico Dunga e todo o elenco freqüentemente usava fantasias tosquíssimas. É memorável o dia em que eles construíram um muro de tijolos no palco durante o programa, sem ninguém comentar nada, separando o apresentador da platéia, como se nada estivesse acontecendo. Ou quando eles terminaram o programa lendo poesia para rebater as críticas de baixaria na televisão. Eles levaram o grupo Banana Split para dançar e cantar, mas tocaram música clássica no lugar.

Tudo isso foi um choque na época. Os famosos, sempre acostumados a serem bajulados publicamente enfrentavam essa nova realidade, aonde eles eram os principais alvos de chacotas — e eles claramente não gostavam disso. Se recusavam a dar entrevistas para um bando de arruaceiros em uma emissora de pequeno porte. Isso só piorava a situação e dava mais motivos para piadas (como as sandálias da humildade).

O sucesso do Pânico foi baseado nisso: uma imensa crítica, que apesar de parecer improvisada, popularesca e mal-feita era cuidadosamente trabalhada e inteligentíssima.

15 anos depois

Ano que vem o Pânico vai completar 15 anos no ar. É um tempo respeitável. O Pânico viu o CQC surgir e morrer. Viu late-shows aparecerem e dominarem as noites televisivas. Hoje o melhor programa de humor da Globo é uma sátira à televisão; e se é inimaginável 10 anos atrás que a Globo fizesse piada dela mesma, é parcialmente graças ao sucesso do Pânico que eles tiveram que engolir essa reestruturação. O Pânico supriu um desejo de uma geração cansada da própria televisão. Quando o programa surgiu, não existia nem o Youtube para entregar uma experiência diferente da que todo mundo fazia.

Mas o Pânico não é mais o mesmo.

Há um problema da sátira: Ela não se sustenta por muito tempo. Se no início, o Pânico fazia uma paródia da televisão, hoje eles SÃO A TELEVISÃO. Se no começo eles mostravam garotas de biquini dançando bobamente com closes ginecológicos como uma deliciosa (e prazerosa) crítica às atrações televisivas, depois de tanto tempo fazendo o mesmo, eles se tornaram puramente O programa de garotas de biquini dançando com closes ginecológicos. Se o Tá no Ar fizer isso hoje em dia, ele soará como uma paródia ao Pânico.

A situação do programa não é fácil. Foram anos sendo satíricos e irônicos, porém sem oferecer uma solução. Assim, eles foram aos poucos e contra a própria vontade se tornando aquilo que eles sempre criticaram. É como se um rei autoritário fosse destronado por um indivíduo que virasse depois também um rei autoritário.

Ironicamente, a culpa da atual situação do programa é seu próprio sucesso.

…o Pânico ainda consegue ser genial

Ele já não funciona como sátira. E eles não são bons em fazer esquetes. Os melhores momentos do programa nos últimos anos são quando eles fazem piadas de si mesmos, como nas “trollagens”. Os atuais quadros são incapazes de sustentar um programa por duas horas e, por isso, as idéias geniais que o programa ainda têm acabam sendo soterradas por um punhado de quadros simplesmente medianos.

Compreensivelmente e evidentemente, o Pânico não gosta de reciclar quadros. Uma coisa que ninguém pode acusar o programa é de não se renovar constantemente: com freqüência uma nova idéia ou hype iniciado pelo programa dominava as ruas e imprensa. Basta ver também quantos humoristas que começaram lá suas carreiras e que não conseguiram fazer o mesmo sucesso fora da atração.

Infelizmente, o Pânico precisa ser enxugado — em diversos sentidos. Menos tempo de programa já poderia cortar uma gordura, eliminando alguns quadros medíocres que diminuem a audiência média do programa. Um budget menor (isso dói, eu sei) poderia forçar o programa a ser mais criativo, indo completamente na contra-mão da solução básica para salvar uma atração, que seria injetar dinheiro nela. O Pânico é composto por algumas das mentes mais criativas e revolucionárias do humor brasileiro atualmente e quando forçados a trabalhar com um orçamento menor podem vir com idéias melhores. Isso pode ajudar a resgatar o espírito tosco do início de vida do programa.

A edição clássica do programa, com uma narração dramática do Emílio (“siiiim, caro tele-espec-tador!”) e imagens toscas sendo sobrepostas criando piadinhas que serviam de setup de contexto em certos quadros também não é mais usada. Isso parece um comentário deslocado mas, no fundo, significa que os quadros não têm mais a continuidade de enredo que eles tinham entre os programas. (hoje, nas situações em que uma continuidade de enredo é exibida, o programa faz uso de imagens passadas em retrospectiva — uma saída mais preguiçosa que não causa o mesmo efeito no mood do público assim que a matéria começa)

No começo deste texto, também, quando eu me forcei a lembrar dos momentos mais geniais da atração em seu período mais clássico, o que mais me veio à mente foram ações de palco. Esses momentos, de interações simples entre os integrantes são raríssimos atualmente. Um corte de budget nos quadros pode talvez forçar mais ações do tipo.

Não só isso, mas talvez o Pânico possa se espelhar no que mais funciona lá fora: O Saturday Night Live. Não aquela coisa horrenda que o Rafinha Bastos tentou trazer, mas uma versão brasileira de baixo-custo. O programa é o mais próximo que a televisão brasileira já chegou de recriar o SNL, então poderia tentar incorporar algumas de suas ações mais características: como a inclusão de celebridades-surpresa entrando ao vivo ou um pequeno quadro de stand-up abrindo a atração.

O Pânico na rádio ainda é um dos melhores programas de entrevista e a recepção de convidados especiais na televisão pode trazer um pouco desse espírito da Jovem Pan no palco. O resultado pode ser uma mistura de Hebe Camargo com Jackass com Casseta e Planeta, com os quadros dividindo espaço com a presença de palco ao vivo, ao invés de serem o tema principal do programa. Hoje, numa TV de grande porte e com uma estrutura mais consolidada, o programa é bem mais aceito pelos famosos, que podem até vir a aceitar com mais freqüência uma aparição por ali. Evidentemente que o Brasil ainda sofre com o problema de ego de suas celebridades, que se recusam a fazer piadas de si mesmos, mas se alguém está aí para resolver esse problema, é o Pânico.

O programa ficaria cada vez menos Pânico, menos crítico à TV ao seu redor; mas é difícil manter a sátira viva quando se faz parte dela. A continuidade a isso pode ser a paródia de si mesmo, feita com a tosquidão característica.

Não é uma mudança que pode ser abrupta também. Seria necessário adicionar itens aos poucos para ver o que funcionaria ou não, mas mudanças parecem necessárias.


Mas mesmo com todas as mudanças, a situação do programa parece extremamente difícil por um forte motivo: o seu principal público migrou para a internet. A geração que cresceu assistindo Pânico talvez não tenha simplesmente perdido o interesse no programa em si, mas simplesmente tenham perdido interesse em uma atração que necessite de um horário fixo para assistir. O canal do Programa Pânico no Youtube, por exemplo, possui mais de 5 milhões de assinantes e é comum que seus vídeos tenham mais de 100 mil visualizações. Como efeito de comparação, o canal do Programa do Porchat possui 700 mil assinantes; o The Noite possui pouco mais de 3 milhões e a “Praça é Nossa” (que teoricamente registra o dobro de audiência do Pânico) possui meros 500 mil assinantes.

No fundo, o principal problema do Pânico hoje é a forma como seu sucesso é mensurado: seu público existe, mas a audiência é incapaz de registrá-lo. Isso e o fato dele ter se tornado aquilo que ele tanto satiriza. Mas o programa só consegue mesmo é resolver um desses problemas.

…E talvez voltar com a Tânia Oliveira. Saudades, Tã! ;*

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