Ode ao cinema

Quando lançada, a comédia escrita e dirigida pelos irmãos Cohen “Hail, Caesar!” foi tida como uma homenagem ao cinema dos anos 50. Tomando como base a indústria cinematográfica da época, a homenagem se dava pelo seu contexto, com George Clooney como um ator de um épico bíblico hollywoodiano, Channing Tatum dançando lindy hop, Alden Ehrenreich como o caubói capiau que é forçado a ser um galã e Scarlett Johansson como uma sorridente estrela. Divertida, mas nada de especial, pareceu um filme feito para agradar especialmente os mais entusiastas fãs de cinema, mas daquele cinema antigo, cinema arte, cinema moleque, cinema Molejo.

No mesmo 2016, um outro filme foi lançado como uma imensa homenagem ao cinema dos anos 50 — mais especificamente se voltando aos musicais.

La La Land é lindo. Suntuoso. Obrigatório. O filme merece todas as indicações ao Oscar que certamente terá e todos os prêmios que fatalmente ganhará. Tal qual Hail Caesar!, o filme remete o público às películas dos anos 50. Porém ele não simplesmente presta uma homenagem: ele É um musical dos anos 50.

Com uma direção bem acertada que coloca Damien Chazelle (de Whiplash) na lista dos grandes diretores de Hollywood, os elementos da era clássica dos musicais cinematográfico se destacam: músicas bem colocadas no andamento da história, o sapateado dos personagens, longos planos seqüência nas apresentações dançantes. Até as câmeras usadas na gravação são as mesmas usadas nas produções dos anos 50 e 60 (modelos CinemaScope provavelmente comprados no brechó da Warner). Chazelle abusa de metáforas e faz um excelente uso das cores, com imensa representatividade cinematográfica, inclusive na caracterização dos personagens e no relacionamento entre eles — Sebs representado pela cor azul e Mia pela cor vermelha. Quando estão juntos, por exemplo, o apartamento de Sebastian começa a adquirir a cor vermelha enquanto Mia abusa das roupas azuis.

Mia e Sebs, aliás, provam que Emma Stone e Ryan Gosling realmente possuem, além de uma química comprovada, um talento incrível. Ryan aprendeu a tocar piano-jazz para encarar o personagem, tendo apenas 3 meses de aulas (2 horas por dia, 6 dias por semana). No primeiro dia de gravação dois dublês de mãos que deveriam auxiliar nas cenas de piano foram dispensados pois claramente não seriam necessários. Emma canta, dança e interpreta com seus gigantescos olhos passando toda a emoção necessária. Ambos não eram as primeiras escolhas para os papéis (a idéia era que Emma Watson e Miles Teller protagonizassem o filme), mas levam o filme tão bem e com uma química tão intensa que é muito difícil imaginar outras pessoas no lugar — e praticamente impossível não torcer pelos dois, que merecem as indicações que fatalmente vão levar ao Oscar.

O filme é coroado com um roteiro fofo e redondinho, mesmo sem ter nada de especial. A retratação do romance dos dois dispensa cenas mais quentes, tal qual seria um romance dos anos 50: Há alguns beijos, mas basicamente é isso; o resto da força da paixão de ambos se limita aos atores levando sozinhos o filme nas costas. É um romance bem estruturado e extremamente racional.

Pra coroar, a trilha sonora é algo que eu estou ouvindo assiduamente no Spotify desde meados de dezembro: ela é linda, com canções bem encaixadas (Lovely Night é contextualmente maravilhosa) e vai com certeza garantir um Oscar nas categorias musicais para o filme.

Mas, além de original score, La La Land deverá ter indicações para diretor, atores principais e também melhor filme. E não me surpreendo se ganhar: pra mim, ele foi o melhor que eu vi em cinema de 2016.

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