Pablo Villaça é um gênio

Defender o indefensável é um trabalho de gênios.

No livro “The year of living biblically”, o escritor americano A. J. Jacobs passa um ano seguindo tudo o que a Bíblia manda. Absolutamente tudo, incluindo ordens aparentemente sem sentido como não usar roupas de tecidos mistos, não trabalhar aos sábados (o que o faz cair em um paradoxo, afinal o trabalho dele é seguir a Bíblia e ao não trabalhar, ele acaba trabalhando), não encostar em sua esposa durante o período que ela está menstruada e, evidentemente, acreditar no criacionismo.

O criacionismo é realmente algo difícil de engolir. A teoria bíblica de surgimento do Universo começa literalmente com “E no começo, Deus criou o Céu e a Terra” e é essa a base do criacionismo. É realmente incrível o tanto de informação que foi sendo empilhada na teoria, que hoje chega a até ser complexa e chega a ter pontos aonde sugere que o nosso planeta tem pouco mais de 6500 anos. Acreditar em algo assim é extremamente complicado para pessoas com um mínimo de senso lógico e, para ajudá-lo nessa missão de fé, A. J. Jacobs foi visitar e conhecer o pessoal por trás do Museu do Criacionismo, no Kentucky.

Porém, ao invés de ridicularizar essa turminha e encher o livro de piadas fáceis, o autor vai por outro caminho: ele resolve tentar imbuir-se da fé dessas pessoas e tentar convencer-se internamente do fato de que tudo o que existe foi criado por um indivíduo de poder infinito. Quanto mais ele conhece os argumentos criacionistas, mais maravilhado ele fica.

Afinal, sustentar teorias que a ciência já comprovou, que há milhões de provas e argumentos contundentes e, principalmente, que fazem sentido lógico é algo extremamente fácil. Complicado é arrumar bons argumentos para corroborar uma teoria que defende que todos nós vivemos em um planeta ligeiramente mais velho do que o Cid Moreira. E os criacionistas conseguem, usando justificativas tecnicamente plausíveis (muito inóspitas, mas ainda assim plausíves) para cada pedaço de fóssil atirado pela ciência. Acreditar que o planeta é redondo e orbita em torno de uma bola de fogo flutuando no Universo parece extremamente simples se formos comparar com o pessoal que busca justificativas no mundo moderno para comprovar que a Terra é plana. Esses são os verdadeiros gênios.

É por isso que, neste momento delicado, devemos dar mais valor ao árduo trabalho daqueles que ainda defendem o governo petista em meio ao temporal de merda em que o partido vai se afundando.

Ver alguém defender o governo hoje é como assistir a um equilibrista de pratos no meio de um terremoto. É quase uma apresentação artística. Cada argumento petista que morre (ou é indiciado ou é preso) é astutamente reposto, quase inabaladamente. O trabalho de indivíduos como Pablo Villaça ou Cynara Menezes de tirar argumentos do rabo pra justificar cada desvio de conduta do atual governo devia ser um esporte olímpico.

Um amigo, após (em um ato de coragem) ler a última defesa de Pablo Villaça ao Lula comentou que "ou esse cara é muito inocente ou é muito mau caráter". O apoio governamental ao cinema em cena, blog cinematográfico que o crítico mantém, mostra que inocente ele não é.

Sério… pelo tanto que o Pablo trabalha pelo governo, tá saindo barato, hein… (Diário Oficial — 16/10/2007)

Mas, cada desvio de conduta defendido, cada argumento cuidadosamente elaborado, cada terceirização de culpa, por vezes contradizendo a si próprio, é sempre um trabalho de arte de Pablo Villaça, que finge ser o guia míope para seus seguidores que não querem ver.

Porque ser contra o governo, no meio de uma das maiores crises políticas e dos maiores escândalos de corrupção que o país já viu é extremamente fácil. Difícil é defender.

Por isso Pablo Villaça é um gênio.

Like what you read? Give Who cares? a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.