Diários do Metrô — Sem saída

Paulo Vollmer
Jul 23, 2017 · 3 min read

Existem dias em que algumas coisas acontecem por motivos que só conseguimos entender mais à frente.

Quase chegando à estação, dei falta da minha carteira. Detesto quando isso acontece, significa que vou me atrasar e detesto me atrasar; já por isso escolho o metrô como meio de transporte. O esquecimento me tomaria quase 10 minutos. Pois bem, carteira no bolso, suor no rosto, entro no vagão. Não consigo ir para o meio; fico bem ao centro, espremido entre as pessoas e de frente a uma garota. Deve ter seus 30 anos, e o olhar distante de alguém que tentasse enxergar o horizonte.

Não aguento mais. Hoje, termino tudo, Adriana pensou.

Havia quase um ano, fora diagnosticada com depressão. Mas a verdade era que Adriana já estava daquele jeito por três anos. A quantidade de remédios que tomava a fazia se se sentir um robô. Tudo era automático. Acordar. Banho. Trabalho. Almoçar. Sorrir. Voltar para casa. Jantar. Outro banho. Dormir. Tristeza? Não sentia. Não sentia quase nada. Não se sentir triste era temporário e durava menos que o efeito do remédio. O espaço de tempo sem química era o pior momento. Era quando Adriana se sentia tragada para um buraco sem fundo. Sem forças para reagir.

Antes de começar o tratamento, essa sensação era diária. Mas a cada novo dia Adriana tinha a impressão que os antidepressivos faziam menos efeito. A escuridão chegava cada vez mais cedo.

O que mais a incomodava, porém, era a falta de carinho e compreensão dos mais próximos. Em pleno século XXI a depressão ainda era vista como “frescura”. Poucos conseguiam entender que aquilo era uma doença. Falta de vergonha, diziam uns. Você tem que se esforçar para sair dessa situação, sugeriam outros. Nada disso. Não bastava apertar um botão em sua cabeça e mandar tudo embora. Em muitos momentos tudo que Adriana queria era acolhimento, um abraço forte para se sentir protegida. Quando levantava os olhos, no entanto, só via uma multidão de desconhecidos seguindo suas vidas. Os dias se tornavam cada vez mais cinzentos.

Não farei falta a ninguém aqui. Estou tão cansada.

Estava tudo planejado. No dia anterior, despediu-se dos colegas ao sair do trabalho, tomando cuidado para não levantar suspeitas. Passara dias cuidando de todas as pendências para dar o mínimo de trabalho burocrático aos que tivessem que lidar com alguém que tirou a própria vida. Encerrou sua conta no banco. TV por assinatura. O apartamento onde morava era de seu pai. Não seria um problema. “Não sou nada aqui”. À noite, escreveu uma carta para os pais. Pedia perdão. Se culpava. Enquanto escrevia recordou sua vida, sua mãe, seu irmão mais novo. Ligou para eles. Teve uma sensação boa, desistiu, parou de escrever. Mas poucos minutos depois a avalanche tornava tudo fosco e sem brilho, e lá estava ela outra vez no fundo daquele poço tão próprio e particular. Terminou a carta, já sem lágrimas nos olhos. Foi dormir sem comer nada.

Era um mundo cruel, que exigia sempre mais. Onde as pessoas cada vez cuidavam menos umas das outras. Cada vez mais fechadas em seus mundinhos, presas à perfeição alheia exibida nas redes sociais. Falsos. Egoístas. Adriana não era perfeita, porém humana. Tinha consciência do que o mundo se tornara. Tentou durante um tempo não sucumbir a toda aquela mentalidade de excelência, mas não era forte o bastante. Era um rolo compressor que lhe esmagava diariamente a alma, aniquilando pouco a pouco qualquer espécie de vontade de viver. Ela sobrevivia apenas. Tudo era automático. Acorda-toma banho-come-pega metrô-trabalha-almoça-ri das mesmas piadas-trabalha mais-metrô-volta para casa-come algo-dorme-acorda.

Saímos na mesma estação. Estava desatento quando ouvi o aviso de fechar as portas. Entre pedidos de desculpas e breves xingamentos, consegui sair a tempo. Adriana estava um pouco adiante, de modo que pude perceber quando ela tirou a carta do bolso e encarou o trem que se aproximava na plataforma à frente. Nesse momento nossos olhares se cruzaram. Apesar de não ter plena consciência, sabia o que Adriana faria. Era o olhar de quem tinha desistido de tudo, os últimos segundos. Foi quando, ao cruzar Adriana enquanto ela caminhava em direção ao vão, segurei-a delicadamente pelo ombro.

“Tudo bem?”, perguntei.

Ela guardou a carta.

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