Hoje eu não vou comemorar o Natal


Um ano atrás, a essa hora, eu estava animado tentando fazer uma torta (que acabou dando errado) e cantando repetidamente Jingle Bell Rock: o espírito natalino havia dominado a minha casa e eu tive a melhor véspera de Natal de todas. Esse ano, no entanto, estou deitado no chão do meu quarto escutando Taylor Swift e adiantando o texto que será postado na sexta-feira. A magia parece ter ido embora, e eu cheguei a uma conclusão: hoje não vou comemorar o Natal.

Pode me dar qualquer dica, eu já tentei de tudo. Ouvi diversas playlists natalinas, procurei receitas especiais na internet, li contos de Natal, embrulhei presentes. Nada disso adiantou. Se ano passado eu escrevi que a “magia do Natal” só aparece se você se entregar a essa data, hoje eu vejo que isso não passa de uma visão romântica que nada tem a ver com a realidade. Por mais pessimista que isso soe, é fácil perceber que em alguns momentos as coisas não são perfeitas e nenhum esforço é capaz de mudar tal situação.

2014 — e especialmente esse segundo semestre — foi um período diferente. Muita coisa aconteceu, muita coisa mudou; altos e baixos que me desconectaram completamente do que estava à minha volta. Nessa reta final, então, eu me mantive tão focado em terminar de uma vez o ano letivo que todo o resto não passou de um borrão. Não vi os pisca-piscas iluminarem as fachadas das casas, não vi a decoração dos shoppings mudar, não escutei os jingles natalinos tomarem conta da programação de tv e nem a propaganda de fim de ano da Globo eu assisti ainda. Dessa vez, aquelas pequenas mudanças que vão aparecendo em outubro e novembro avisando a chegada das grandes festas de fim de ano passaram completamente despercebidas por mim.

Não foi uma ignorância voluntária, eu simplesmente não tinha como me empolgar com qualquer coisa. Ao longo dos meses eu depositei toda a minha energia em cada atividade e cada sentimento que apareciam, esperando sair de um tormento sem mesmo perceber que estava saindo dele, até que, no fim, me vi completamente esgotado. Não havia mais força para comemorar, havia apenas o vazio, o torpor.

O Natal chegou sem que eu me desse conta da sua presença e agora não consigo encontrar nem mesmo uma fagulha do espírito natalino que eu sei existe dentro de mim. Em vez de escrever cartas, participar da ceia com a família ou trocar presentes, tenho vontade apenas de deitar e observar tudo o que aconteceu esse ano. Para mim, o Natal de 2014 continua sendo um período de renovação e fé, porém com um novo sentindo: é uma data de autoconsciência, de reflexão individual e solitária.

Não estou dizendo que irei ficar completamente isolado nessa noite de Natal — meu corpo estará na comemoração com a minha família, mas não meus sentimentos. Às vezes, um tempo para recarregar as energias e preparar-se para outros tormentos é necessário.

Posso não comemorar o Natal hoje, mas acredito que daqui a um ano estarei com um gorro de Papai Noel distribuindo lembrancinhas àqueles que eu amo. Natal é renovação, e um ano nunca será igual a outro.


Originally published at www.conversacult.com.br on December 24, 2014.