Por que nós, brancos, não falamos sobre nós?

Tanto já foi escrito sobre as mesmas coisas que sequer sei se vale a pena escrever. Aliás, não sei de muita coisa, mas desconfio de algumas. Uma delas é a de que os lugares incomuns, os incômodos, ou aqueles a partir dos quais não costumamos pensar, são os mais prováveis de nos desestabilizarem e gerarem alguma mudança.

Pois enquanto mulher lida enquanto branca no Brasil (porque as leituras sociais são relacionais e se na Europa e nos EUA eu sou latina, no Brasil eu sou branca sim), acredito ser este o lugar de pensar a branquitude: o de desconforto, de desestabilizar o naturalizado.

Não vou me ater aos últimos acontecimentos envolvendo a “polêmica do turbante” (nunca foi sobre “um turbante”, cara pálida!), mas sim aos incômodos provocados ao ler a recente coluna de Eliane Brum, “De uma branca para outra”. Longe de incômodos pontuais e destinados apenas ao texto da jornalista, são incômodos relacionados muito mais a aspectos da branquitude brasileira e do que a pesquisadora Maria Aparecida Silva Bento (2002) chama de seu “pacto narcísico”. Sobre tal pacto, ela afirma que tudo se passa como se houvesse um pacto entre pessoas brancas, que negam o problema do racismo para manter seus próprios privilégios, na medida em que também inventam um “outro” como inferior.

O “pacto narcísico da branquitude” (Bento, 2002) pode ser bem observado nas discussões on-line sobre racismo entre brancos

Afinal, desde quando pessoas brancas se percebem enquanto racializadas?

Não se trata aqui de alimentar uma corrente interminável de críticas infundadas, mas de tentar refletir, sem qualquer pretensão de respostas, sobre aquilo que possamos aprender (será possível?) a partir de todas essas discussões. Afinal, qual o lugar das pessoas brancas na luta antirracista? Será possível sair do discurso individual de apelo emocional e dos eternos rodeios em torno de um mea culpa?

Sobre as conceitualizações de branquitude, poderia-se defini-la rapidamente acionando o que Ruth Frankenberg (1997) e Liv Sovik (2014) apontam: um lugar sobretudo estrutural de onde parte o olhar do sujeito branco. Trata-se de uma relação de poder que não tem nome — e que a partir da não nomeação se supõe como natural. Um lugar confortável, não questionado.

Dessa forma, não se fala de branquitude quando se fala de racismo. Ele deixa, portanto, de ser um problema de pessoas brancas — ainda que estas sejam as responsáveis pela sua manutenção.

Bom, Eliane Brum não nega a existência do racismo — pelo contrário, procura falar sobre ele, fazendo um apelo que chega ao emocional para que outra mulher branca seja capaz de escutar.

O desconforto com o texto começa justamente na medida em que esse apelo emocional é invocado. É preciso falar com “muito cuidado”, “muita cautela”, “escrever uma carta para atravessar muros”, para acessar aquela que se recusa a ouvir o que “negras raivosas” (ah, o imaginário…) têm dito há séculos. Esta, afinal, parece uma “boa estratégia”: a estratégia branca, limpa. Estratégia ela mesma que faz parte do pacto narcísico da branquitude: fala-se sobre aquilo que não deveria-se falar — mas é preciso falar com jeitinho, para não magoar.

Repetir tudo o que vozes negras têm dito, para quem sabe essas sejam finalmente ouvidas — mas por pessoas brancas, enquanto as “outras vozes” permanecem deslegitimadas, vitimizadas e encapsuladas no lugar do outro. Ah, o white savior
 
 A jornalista chega a afirmar: “Eu não conseguiria compreender desta forma (…), não fosse elas [as mulheres negras] terem a paciência de me explicar com palavras que também atravessam seus corpos”. Em outro ponto, diz que gostaria de acreditar que a moça branca escutaria as negras, caso fosse abordada de outra forma. Ora, sem perceber, ela destina às mulheres negras a responsabilidade de lhe ensinar sobre racismo — quando isso deveria ser uma responsabilidade ética de quem o produz.

Reconheço, todavia, potencialidades no texto de Brum, na tentativa de acionar a escuta por parte de quem jamais ouviria este outro. Mas pergunto: é suficiente apontar o lugar do outro, quando não olhamos para nós mesmos, operando no sistema de centros-margens, reafirmando o branco enquanto centro intransponível? Não estaríamos assim acionando a ideia de uma superioridade moral branca, que permanece se enxergando enquanto lugar neutro e naturalizado? 
 
 É isso, inclusive, que questiona o pesquisador Lourenço Cardoso (2008; 2014), quando pesquisa pesquisadores brancos que pesquisam negros (!). A partir disso, ele questionará as relações branco-sujeito/negro-objeto. É dessa relação da qual Brum parece não ter conseguido sair, apesar de seus esforços, no texto publicado.

Incomoda nos discursos da branquitude a negação, ainda que inconsciente, das agências desse “outro vitimizado”. Novamente, não é disso que se trata. A compreensão da branquitude e da responsabilidade branca na luta antirracista deveria ser capaz de ir além, estabelecendo um diálogo mais franco, mais honesto, enquanto atores de um sistema de opressão que os privilegia. É sobre as intersecções entre capitalismo, racismo e sexismo, entre outros marcadores. Entender os mecanismos pelos quais isso ocorre, a partir dos quais poderia-se pensar em ações.

E isso, cara pálida, não é sobre tirar um turbante ou simplesmente respeitar a existência de mulheres negras (sério?!) . Muito menos sobre sentimentalismos e acionamentos de culpas individuais. É também, entre tantas coisas, sobre um enfrentamento coletivo a uma lógica branca de mercado excludente, sequer analisada com a devida cautela.

Escutar é um processo importantíssimo — nisso, concordo plenamente com a jornalista. Mas aquilo sobre o que falamos — na ciência, nos discursos médicos, nas análises sociais, na mídia e na vida — também deveria ser um questionamento.
 
 Disso tudo, fica uma pergunta. Por que, afinal, nós brancos não conseguimos — ou não queremos — falar sobre nós mesmos?

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Referências:

BENTO, Maria Aparecida Silva. Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público. 2002. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. Instituto de Psicologia.

BRUM, Eliane. De uma branca para outra. El País. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/20/opinion/1487597060_574691.html>. Acesso em: 21 fev. 2017.

CARDOSO, Lourenço. O branco “invisível”: um estudo sobre a emergência da branquitude nas pesquisas sobre as relações raciais no Brasil (Período: 1957–2007). 2008. Tese de Doutorado. Dissertação (Mestrado em Estudos Sociais), Universidade de Coimbra, Coimbra.

____________. “A BRANQUITUDE ACRÍTICA REVISITADA E A BRANQUIDADE.” Revista da ABPN 6.13 (2014):

RUTH FRANKENBERG. Displacing whiteness: Essays in social and cultural criticism. Duke University Press, 1997.

SOVIK, Liv Rebecca. Aqui ninguém é branco. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009.

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