Potencial estuprador

Esse texto originalmente era um post no facebook. As discussões sobre as tags #primeiroassedio e #meuamigosecreto me instigaram a editar o post e trazê-lo à luz novamente.

O texto problematiza principalmente relações heterossexuais entre pessoas binárias, porque é onde reside a minha experiência com abuso e os exemplos que dou. O que não significa que não possa ser aplicado em outras configurações de relação.


“Todos os homens são potenciais estupradores.”

Certamente você já ouviu essa frase crítica por aí, provavelmente em um contexto polêmico e controverso. Mesmo entre feministas ela provoca discussões acaloradas e é uma das que mais assusta meus amigos homens, que respondem “Que exagerado!”, “Não pode generalizar!”, “Eu nunca estupraria alguém!”. Temos motivos para termos nossas dúvidas — basta pesquisar as tags mencionadas.
Primeiro, à conceituação:

Estupro é sexo sem consentimento.
E sexo não se resume à penetração.

No me proponho a delinear as possíveis fronteiras entre sexo e carícias/atos sexuais, porque o ponto no qual eu quero chegar é: Consentimento. E é importante que você o obtenha sempre que estiver lidando com o corpo alheio.
Vamos supor que você ache que “leitura” signifique “abrir um livro e passar os olhos por suas páginas, absorvendo linha a linha o significado de suas sentenças”. Mas na verdade para “ler” você não precisa de um livro. Estando no mundo, você é um potencial leitor. Você estava lendo placas, rótulos, e, suponhamos que posts de facebook.
O ponto é: se você não entende o que exatamente é uma ação, pode praticá-la sem estar ciente disso. E se você não entende o que é estupro…
O que me preocupa é que sem a compreensão plena do que é consentimento, não dá pra falar sobre estupro. E eu não sinto que consentimento seja entendido enquanto conceito.

1. Quem cala não consente. Sério.

Existem muitas formas de consentimento. Uma pessoa pode dizer “Sim, por favor, me acaricie de forma sexual”. Ou “Vemk, delícia”. Ela pode entrelaçar os dedos nos seus. Ela pode enroscar as pernas nas suas. Ela pode direcionar o seu toque. A pessoa pode te dar beijos mais intensos.
Silêncio não é consentimento.
Especialmente se a pessoa está paralisada de medo ou constrangimento, por causa de chantagem, intimidação, agressão ou manipulação emocional. Não se arranca consentimento sob ameaças. Se você obteve um hesitante “sim” sob essas condições, adivinha só: não é consentimento. Consentimento não é mera permissão verbal.

2. Muito l0k0.

Se a pessoa com quem você quer fazer sexo está sob o efeito de quaisquer substâncias e parece não estar em condições de tomar decisões e/ou se lembrar do que pode acontecer: espera até o dia seguinte, encontro seguinte, o mês que vem. O nome que do ato de tirar proveito sexual de alguém que não está em plena consciência (ou não tem discernimento na situação) é “estupro de vulnerável”. Quando todos os envolvidos estão alterados, a coisa fica mais difícil de avaliar.

Se você está num rolê/festa e parece que alguém está tirando proveito de outra pessoa: Intervenha. “Mas eu não quero ser empata-foda”. Seja um empata-estupro, amigo. Pergunte se está tudo bem (e é palpável quando não está) e não deixe que só uma pessoa responda. Pode ser que ela precise de uma lição sobre consentimento. Se uma das pessoas não pode responder porque está inconsciente e a(s) outra(s) insistem, chama a polícia. Sério.

3. Mas é minha …namorada(o)/esposa/marido/peguete/date

Volte duas casas. Sério.

Não é porque existe um relacionamento/encontro que o sexo é “garantido” ou compulsório. Respeite os limites diários de seu parceiro. Respeite as vontades de seu parceiro. Se a outra pessoa está bêbada/drogada/dormindo, releia o item 2.
É relativamente comum que casais combinem de beber/se drogar e transar. Nesse caso, o consentimento foi dado previamente. Mas se você vir que o seu parceiro está desconfortável ou que ele não está consciente o bastante, só para. Especialmente se for pedido pra você parar. Não seja mimado a ponto de vir com o argumento “Mas a gente já tinha combinado…”. Não.
Mesmo se o seu parceiro não estiver bêbado/drogado, vocês estão ~dando uns amassos~ e você não tem a certeza absoluta de que a pessoa quer avançar nas carícias… PERGUNTE. “Ain, mas vou cortar o clima”. Migo, não precisa ser “Posso esfregar minha genitália em você?”. Pode ser “Posso por minha mão aqui?”, “Você não se sentiria mais à vontade sem [peça de roupa qualquer]?”, “Você gosta de ______?”. Enfim, pergunta.
Não é porque alguém fez sexo com você uma vez que você tem direito a ter mais sexo dessa pessoa. Se essa pessoa fizer sexo com você diariamente por vinte anos, você continua não tendo direito de exigir nada. Se você estiver fazer sexo com a pessoa e ela quiser parar no meio, só para. Não é porque vocês estão fazendo sexo que você ganhou acesso livre ao corpo da pessoa naquele dia. Nem nunca.
Não interprete os sinais fisiológicos do seu parceiro sem ele. O corpo pode mandar várias mensagens. Mas nunca avance se baseando somente nelas, não importa quão bem você pensa que conhece o corpo alheio.
Se você tem acordos com o seu parceiro que envolvem carícias enquanto o outro está dormindo, existiu um momento de consentimento. Se vocês curtem um BDSM, já demonstra que existiu alguma conversa sobre isso. Lembrem-se se usar uma safeword e que em uma relação sub/Dom, o controle verdadeiro da situação está com o submisso. Não importa que acordo você tem com a(s) pessoa(s), todo mundo pode mudar de idéia. E há de se ter maturidade o bastante para não fazer biquinho e ficar de mau-humor caso seus planos não sejam seguidos.
Não seja passivo-agressivo se o seu parceiro não der o que você quer na hora que você quer. Isso é punitivo, infantil e pode ser bem traumático a longo prazo.

4. Last night I stuck in the wronghole…

Consentir com um tipo de sexo não significa consentir com todas as modalidades. Estar nu com alguém não é permissão para tudo. Portadores de pênis: a desculpa “Mas são orifícios tão próximos…!” não cola. Honre a confiança de quem está fazendo sexo com você e não enfie o pinto onde você bem entender.

Expresse previamente qualquer desejo que você tenha de fazer algo novo, de preferência em uma situação em que o seu parceiro esteja confortável e seguro. Dica: durante o sexo, a maior parte das pessoas se sente vulnerável. Pergunte antes.

5. O famoso cu doce

Acho que se há o gosto por joguinhos, que seja explícito.
O cu doce é culturalmente considerado como parte do flerte — o que é extremamente problemático, porque incentiva os homens a ignorar negativas às suas investidas. Não vou dizer que ele não existe. E isso está fortemente ligado à repressão do desejo feminino, que é historicamente estigmatizado quando expresso livremente [o que mereceria um textão à parte].
Mas devo dizer que não conheço nenhuma amiga minha adulta que se utilize desse tipo de artifício. E nenhuma gosta de homem insistente e invasivo. Meu círculo social pode não servir como amostragem estatística, mas os relatos dessas moças são significativos.
Se você ouvir um “Não.”, respeite. Se ouvir um “Talvez.”, pare. “Talvez” não é “sim”. Mesmo que você ache que é uma tentativa de charme. Mesmo que pareça cu doce. Se a pessoa estava “fazendo charme”, ela vai mudar a estratégia quando perceber que está perdendo o interesse da outra parte.

6. Mas por que “os homens”?

Você pode não ser um estuprador. Seu melhor amigo pode não ser um estuprador. Mas vocês podem já ter atropelado o consentimento de alguém.

É necessário reconhecer o privilégio. É preciso abstrair sua pessoalidade.

Os homens são ensinados constantemente que o corpo feminino é uma posse pública. Mesmo que você tenha sido criado pela sua mãe, avó, irmã, é esse o input cultural constante ao qual esteve exposto. Sendo homem, você aprendeu que o corpo feminino é seu por direito.

Você também aprendeu que as opiniões femininas não têm importância. Você desconsidera sistematicamente a vontade da sua parceira — porque não foi culturalmente dado a você que ela poderia ter desejos que não fossem satisfazer os seus. É aceitável fazer piadas com estupro. E considerado que o seu desejo pode ser irrefreável, como um instinto masculino alheio ao seu controle.

Assim, é naturalizado que um homem exija sexo de sua namorada. É normal que um estranho se sinta à vontade de me avaliar na rua, com seus olhos, com seu toque, com sua opinião. É comum que um colega levante a saia de uma mulher, só para dar uma espiadinha. É automático que eu tema um homem desconhecido. Afinal, se estou no mesmo ambiente que ele, eu só posso estar…

Segundo a famosa pesquisa do Ipea “Tolerância social à violência contra as mulheres”, boa parte da população brasileira acha que se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros. Ou seja: a maioria da população acha que a culpa dos estupros é da vítima. Vou repetir: pensam que não é do estuprador, mas da vítima. E as estatísticas de estupro são absolutamente aterrorizantes — especialmente se levarmos em consideração que muitas ocorrências não chegam sequer a ser denunciadas, justamente porque a vítima corre o risco de ser humilhada e repreendida por quaisquer comportamentos que possam “estar pedindo”.

Ela não está pedindo.

Ela não está pedindo com a roupa. Ela não está pedindo com o jeito de andar. Ela não está pedindo com o olhar. Ela não está pedindo com um abraço.

Não há a possibilidade de alguém “estar pedindo para ser estuprada”. Se está pedindo mesmo, há consentimento.

E, adivinha só: se sua parceira realmente estiver pedindo sexo, não é estupro.


Então quando você, que discorda daquela frase impactante, tente empatizar. Escute a vivência daquelas que te cercam.

Potencial:
adj. Relativo a potência; virtual; que exprime possibilidade.
S.m. Quantidade de eletricidade de que um corpo está carregado.
Força, poder de que se pode dispor.
Potencial energético, quantidade de energia elétrica de que pode dispor um país, uma região etc.

Você não precisa concordar. Mas não expresse desprezo. Não se melindre. Não argumente com “Mas eu sou diferente”.

Escute.

Recomendo:
http://project-unbreakable.org/

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