A Pedra-Sabão e a tradição artesanal mineira

A partir das oito da manhã, todos os dias, começam a chegar os primeiros artesãos na Feira do Largo de Coimbra, em Ouro Preto-MG. A cidade, considerada pela UNESCO desde os anos 1980 como Patrimônio Cultural da Humanidade, é conhecida por sua imponente arquitetura colonial e também sua relação com o Esteatito, rocha metamórfica e porosa com a qual se faz talco e pode-se esculpir as mais variadas peças artesanais. Foi com esse material que Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, produziu os Doze Profetas, um conjunto de esculturas em pedra finalizado entre o final do século XVIII a início do XIX, expostos no município mineiro de Congonhas.

Artesã finaliza peça no Largo do Coimbra (Foto: Bárbara Nóbrega)

A feira, tradicionalmente conhecida como “Feirinha da Pedra Sabão”, localiza-se no centro histórico de Ouro Preto, em frente à Igreja São Francisco de Assis. Essa construção que data o século XVIII foi feita por Aleijadinho no estilo Barroco, e possui pinturas do Mestre Athaíde. No Largo de Coimbra, é possível contabilizar no mínimo 25 estandes, cada um deles com peças de valores variados, desde mini-caixinhas com detalhes feitos à mão a grandiosos jarros que, embora possuam tamanho, conservam a delicadeza de um trabalho que exige tamanha concentração e paciência.

Em um dos estandes, Hedeli Gomes, que trabalha há 15 anos com a finalização das peças esculpidas pelo marido, Milton, encontra-se concentrada no desenho de pequenas caixinhas redondas nas quais desenha flores em traços precisos, enquanto conta que aprendeu a desenhar observando os artesãos durante dois anos no Largo.

Portando um riscador, instrumento de madeira e com um prego na ponta que permite fazer desenhos na pedra porosa, semelhante a um pincel, ela conta que a maioria dos homens fica responsável por esculpir as peças em seus ateliês, enquanto as mulheres as finalizam, desenhando formatos específicos e até mesmo as colorindo.

“A pintura das peças é um processo recente”, diz, pois no formato tradicional as peças possuíam apenas as cores originais do Esteatito, em suas variadas formas, e atualmente podem ser coloridas com a utilização de corantes Xadrez misturados à tinta branca, possibilitando uma variada tonalidade de cores a serem utilizadas.

Hedeli acrescenta que Milton, no momento trabalhando em seu ateliê no bairro de Liberdade, cresceu em meio à tradição da Pedra, e aprendeu a manusear as ferramentas de polir e esculpir com seu pai, o senhor Geraldo, que parou de produzir peças apenas aos 83 anos.

A Pedra Sabão é também um elemento repleto de curiosidades. Em 1990, o Cristo Redentor, definido no século XXI como uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno, foi restaurado pela iniciativa privada, com patrocínio da petrolífera Shell e a Rede Globo, e teve blocos de Pedra Sabão levados de Santa Rita de Ouro Preto-MG, cuidadosamente levados para o Rio de Janeiro para serem utilizados no processo.

Igreja São Francisco de Assis (Foto: Bárbara Nóbrega)

Fabíola Marques Rodrigues, artesã presente na Feira do Largo de Coimbra, conta que José Albano, seu grande amigo de infância e morador de Santa Rita, foi o responsável por fornecer o estoque de Pedra Sabão para a obra, mediando a retirada do material da região a ser destinada para a capital fluminense. Além disso, seu falecido sogro e criador da Indústria e Comércio São José, Mário Rodrigues, foi o primeiro a fornecer para a Granado, empresa tradicional carioca e mais antiga botica do Brasil, o pó de talco para se fazer o polvilho antisséptico, que é símbolo da marca desde 1903.

A Granado, segundo aponta, até hoje encomenda um grande número de pequenos saquinhos de 1kg desse pó, enquanto “as outras empresas utilizam o amido de milho ao invés do pó de talco (Esteatito), elemento geológico esse que comprovadamente resfria a frieira e, com a química total do produto, seca e dá resultado”, diz. A artesã também é responsável pelo acabamento das peças devido à sua mão firme, e conta que seu pai, Flávio Raimundo da Silva, 66 anos, trouxe diretamente de Santa Rita de Ouro Preto na década de 70 o artesanato em Pedra Sabão para Ouro Preto.

Sobre Aleijadinho: informações inusitadas

De forma inusitada, Fabíola conta sobre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. “Fala-se muito em Aleijadinho, mas o que muitos não sabem é que seu pai já era um arquiteto, e que ele ficou deficiente por levar uma vida de muita boemia. Há a desconfiança de que ele possa ter tido Lepra”, diz. Quanto às suas obras, ela declara que “nem que ele vivesse mil anos daria conta de fazer (sozinho) a quantidade de obras atribuídas a ele”, complementa.

Na época em que o famoso artesão produzia as peças, as pessoas que tinham conhecimento sobre a produção de peças eram aliadas à Coroa Portuguesa, e descobriam os melhores artesãos para formarem equipes em função do artesão principal, que por fim dava traços originais às obras. Nesse ciclo, os que já possuíam renome lucravam e eram reconhecidos.

Em sua dimensão geológica, é importante compreender que a Pedra Sabão não é um elemento de fácil classificação. As definições são feitas de acordo com a sua formação mineral, que pode ser Talco, Malacacheta, Pedra Amarela, Verde Extra e Cinza, cada uma delas utilizada para a produção de diferentes objetos. Ao observar as peças presentes na feirinha, percebe-se que a Pedra Amarela, por exemplo, serve para fazer Relógios de mesa e outros pequenos objetos. A Talco serve para esculpir objetos artesanais e a produção de pó para ser comercializado, enquanto a Cinza, de material mais firme, serve para a fabricação de panelas e toda a linha utilitária.

Ouro Preto mantém assim sua tradição cultural, tornando possível aos visitantes da cidade análise do processo artístico de um elemento tão importante para a história e a formação social local.