Radiohead e uma semana sem escitalopram

Eu começaria dizendo que esse texto não tem nenhuma afinidade com quem trata problemas como problemas em sua maior parte do tempo. É um ponto de vista que você talvez discorde por ter um caminho predefinido de “felicidade”.
Ele é bem masoquista. Tem seu jeito estranho de demonstrar paz.
Há mais de uma semana meu remédio que atenua minha tristeza acabou e eu não venho mostrando resistência ou crise de abstinência. Por motivos financeiros não vai ser tão imediato voltar com ele, e isso até seria um problema explícito se não fosse por uma coisa:
Eu senti saudades do meu lado triste.
É assustador o modo com que eu reencontrei sensações parando de tomar o remédio, é de uma diferença física enorme quando você sente o seu peito “enevoado” de novo. É única. É uma sensação pela qual você criou gratidão até onde ela era suportável.
De repente você se sente cheio de vida. “Vida” nos sentidos bons e maus de viver. De repente você tem um turbilhão dentro de si, o mesmo turbilhão que te fez companhia nos momentos malditos. Enfim.
Radiohead. Foi a primeira coisa depois de meses que me fez sentir isso de novo, e foi a primeira vez que eu me permiti ouvir Radiohead, talvez por sempre achar que “aquela tal banda da qual os fãs de Metallica e Pink Floyd sempre falavam” poderia ser mais uma das manifestações que só serviam pra personalidade do rock popular. Algo que eu tive um contato muito curto na pré-adolescência.
O álbum A Moon Shaped Pool foi muito importante nessa retomada de sentidos que eu estabeleci a curto prazo. Nele você consegue uma sensação de carinho pelo caráter calmo e contínuo da tristeza, como se enorme e incalculável parte da sua inspiração surgisse do chão se emaranhando entre os seus dedos dos pés enquanto um sopro de mil momentos tristes que te fizeram crescer como ser humano soam em seus ouvidos.
Longe de mim romantizar tristeza. A tristeza em excesso já me corroeu tanto que eu mesmo disse ter que apelar pros medicamentos, mas mesmo assim eu posso dizer que os remédios nunca vão me permitir olhar a tristeza como ela realmente é. A tristeza que eu insisto em apresentar aqui é aquela que vem no final de um livro. No final de um filme. No começo de uma conversa com amigos sobre a forma bosta com que você se vê, e depois disso você percebe como eles amam tanto esse ser que você diz ter vergonha de dividir um corpo.
Ela te aproxima de si mesmo. É a tal beleza da pintura melancólica que você descobre depois da primeira interrupção com os antidepressivos. Foi nesse momento que eu percebi que o antidepressivo é e eu quero que seja só uma fase de uma vida com altos e baixos não tão baixos.