Sete teses sobre a crise do jornalismo, as novas tecnologias de informação e a política, por Luis Felipe Miguel

1. A velha mídia continua central na configuração do debate público. As novas tecnologias da informação geraram uma multiplicidade de novas plataformas para a publicização de conteúdos. Permitem que grupos marginalizados construam suas redes e disputem a interpretação do mundo social. Trata-se de uma abertura importante, cujo impacto não deve ser desprezado. No entanto, sua posição ainda é sobretudo de reação à agenda e aos enquadramentos dominantes nos veículos tradicionais. A capacidade de produção da agenda, em particular, permanece quase de mão única: a velha mídia pauta sites, blogs e redes sociais todos os dias. O contrário ocorre apenas vez ou outra.

2. A crise de financiamento do jornalismo compromete a reprodução de suas práticas profissionais atuais. As novas plataformas favorecem a circulação de informação grátis. Isso compromete, em primeiro lugar, a vendagem dos veículos impressos. Mas elas permitem também que os consumidores de informação escapem da publicidade comercial. Apesar dos gigantescos esforços das empresas, a propaganda online se mostra menos eficaz, seja porque é eliminada nos múltiplos compartilhamentos da informação, seja porque existem ferramentas para fugir dela, seja ainda porque enfrenta a resistência dos usuários que a veem como imposições que prejudicam a fruição dos conteúdos que desejam acessar. No entanto, a produção da informação continua tendo custos. Eles podem ser pagos por patrocinadores que não desejam dar visibilidade a marcas e produtos, mas influenciar no debate público — e então o jornalismo é colocado a serviço de interesses políticos ou comerciais. Embora o financiamento pelo mercado (de anunciantes e de leitores) tivesse problemas, ele permitia sustentar uma deontologia apoiada em valores de independência e imparcialidade, que nunca eram inteiramente realizados, mas formavam um horizonte normativo. Hoje, este horizonte está cada vez mais longínquo. É necessário pensar em novas formas de sustentação econômica do jornalismo, do crowdfunding cidadão ao financiamento público para empreendimentos independentes, nos moldes da pesquisa acadêmica, como propõe Robert McChesney.

3. Continuaremos a precisar de gatekeepers. Essa busca por novas formas de sustentar um jornalismo que não seja inteiramente refém de determinados interesses políticos e empresariais é necessária porque a função que o jornalismo exerce precisa ser suprida por alguém. O jornalismo é um sistema que recolhe, seleciona, hierarquiza e “empacota para consumo” um conjunto de informações. Mesmo que as novas tecnologias possam ter viabilizado o acesso direto a algumas dessas informações, as funções específicas do jornalismo precisam ser supridas. Não quero ter que ler milhares e milhares de páginas de documentos vazados pelo Wikileaks ou assistir horas intermináveis de vídeos postados por mídias-ninjas. Quero que alguém faça isso por mim e me aponte o que é o mais importante. Pode ser que a função de selecionador da informação seja ocupada por mais pessoas e por pessoas mais diferentes entre si, o que é bom. Mas não é imaginável que cada um de nós precise se defrontar com uma avalanche de informação não selecionada e não hierarquizada a cada dia.

4. Continuaremos a precisar de uma agenda pública comum. A multiplicidade de gatekeepers pode gerar uma multiplicidade de critérios de seleção diferentes, o que também é bom. Mas leva ao risco de formação de bolhas que não se comunicam entre si. De fato, a disponibilidade quase inesgotável de informação pode levar a níveis antes inimagináveis de alienação. Se alguém quiser, pode dedicar toda a sua vida a conhecer e discutir a liga de baseball juvenil das Filipinas — se isso existe, certamente deve produzir informação suficiente na internet para nos manter ocupados full time. Os algoritmos do facebook já geram suas próprias bolhas. No entanto, isso não elimina o fato de que haverá uma agenda pública que norteará as decisões de alcance coletivo. Se a multiplicidade de gatekeepers permite equalizar um pouco a disputa pela construção dessa agenda, isso é bom. Mas se serve apenas por nos tornar menos conscientes dela, por nosso isolamento em nossas próprias bolhas, isso é ruim.

5. A desigualdade na capacidade de prover informação não desaparecerá. A fantasia de que, graças às novas tecnologias, todos somos igualmente provedores de informação — cada um de nós é seu próprio canal de televisão — deve ser deixada de lado. Gerar informação é fácil, publicá-la tornou-se fácil. No entanto, blogs ou páginas em redes sociais são, para quase todos nós, muito mais uma forma de desabafar do que de reconfigurar o debate público. Essa desigualdade é mantida não por imperativos tecnológicos, mas pela divisão social do trabalho. Se a gente não imagina um mundo sem qualquer forma de divisão do trabalho, continuaremos a ter que aceitar o fato de que somente alguns serão os principais responsáveis por colher e disponibilizar informações.

6. A desigualdade na capacidade de prover informação continuará politicamente importante. Os sistemas que recolhem e disponibilizam as informações ocupam uma posição-chave para influenciar as decisões políticas, seja pela definição da agenda, seja pela capacidade de orientar as escolhas. Por isso, permanece válida a ideia de que um indicador fundamental da qualidade do debate público — logo, da democracia, para aqueles que a têm — é o pluralismo, tanto político quanto social, dos agentes que estão nessas posições.

7. A discussão sobre mídia e política precisa incorporar as dimensões da privacidade e do consumo. Por fim, as novas tecnologias geram desafios crescentes para a manutenção da privacidade de seus usuários. Houve e ainda há muitos utopistas da revolução tecnológica, que proporcionaria plataformas de participação e democratização em todas as esferas da vida social. Mas eles são profetas desarmados. Os profetas armados — com os grandes laboratórios, as grandes equipes de pesquisa, as grandes verbas — são os que projetam um mundo de rastreamento permanente e consumo incessante. (E, como dizia Maquiavel, profetas desarmados perecem, profetas armados vencem.) Estamos sendo vigiados, a cada segundo, por corporações e por governos, que recolhem sobre nós uma massa de informações tão grande que eles (ainda) processam apenas superficialmente. Ao mesmo tempo, o estímulo à realização pelo consumo é onipresente, uma vez que o objetivo é fazer do mundo virtual um shopping global aberto 24 horas por dia. Num duplo paradoxo, a esfera pública virtual nos empurra para a privatização sem privacidade. As consequências disso para a ação política são enormes.

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