Bissexualidade, preconceito e objetivos de um ativismo bissexual

Um guia básico para a compreensão do apagamento bissexual através da história e como a bissexualidade pode subverter o entendimento das sexualidades, gênero e monogamia

Antes de falar sobre os porquês da existência de um movimento político voltado especificamente às problemáticas da bissexualidade, é essencial entender como são formuladas nossas definições prévias sobre esse assunto, sempre nebuloso.

É perceptível que se tornou mais comum nos últimos tempos presenciar ou até mesmo participar de discussões sobre temas ligados ao que convencionamos chamar de preconceitos, isto é, as relações de poder que cercam certas características humanas, como situação econômica, sexo/gênero, sexualidade, raça, etnia, nacionalidade, condições morfológicas como pessoas com deficiência etc. Ressalto, portanto, que esse artigo parte da premissa de que essas dinâmicas modificaram a sociedade humana através da história e estruturam o mundo como o conhecemos hoje, uma premissa largamente comprovada.

Atualmente, devido à crescente democratização do acesso à internet, a visibilidade e o compartilhamento de informações sobre assuntos antes considerados de nicho — e que, conforme viemos a perceber, são propositalmente silenciados — aumentou progressivamente e possibilitou às pessoas pertencentes a categorias sociais sistematicamente subjugadas, as “minorias”,[1] produzirem conhecimento científico e cultural centrados nas suas experiências, assim como se vincularem em diferentes movimentos sociais que demandam direitos iguais, emancipação social e transformações nos alicerces da sociedade, modificando lentamente o imaginário social sobre o que se considera serem formas naturais de estruturação do mundo e que na verdade são produto direto de uma constante reificação e normalização da marginalização, subalternização e discriminação através do discurso e da prática.

Com a bissexualidade não é diferente: temos visto um crescimento na identificação das pessoas como bissexuais, da reprodução de termos como bifobia e da discussão das problemáticas bissexuais. É importante ressaltar que, embora pessoas que seriam hoje consideradas bissexuais e transexuais participassem diretamente desses movimentos e tenham ajudado a iniciar vários deles, como a Revolta de Stonewall e a primeira Parada do Orgulho LGBT americana (idealizada por Brenda Howard, uma mulher bissexual), elas eram vistas como gays e lésbicas.

No que concerne à sexualidade, a separação dos indivíduos entre heterossexuais e homossexuais é bastante recente, considerando-se que antigamente não existia uma interpretação dos desejos e práticas sexuais no âmbito das identidades e grupos sociais. Homens eram reprimidos em alguns contextos por praticarem “sodomia” ou serem “efeminados”, p. ex., mas não por serem objetivamente agrupados como heterossexuais ou homossexuais.

Estas categorizações foram gestadas e reproduzidas posteriormente pelo próprio saber médico-científico, de forma a, é claro, patologizar (transformar em doentes) as pessoas que desviavam da norma vigente de gênero. Essa normatividade de gênero incluía e inclui fundamentalmente o relacionamento sexual entre homens e mulheres como a única configuração possível e natural de existência. Hoje consideramos que as pessoas podem ter diversas orientações sexuais sem isso necessariamente afetar a constituição de seu sexo/gênero, sendo categorias distintas, embora relacionadas; no entanto, a homossexualidade foi por muitos anos considerada um transtorno, uma degeneração e um desvio, e uma distinção na própria interpretação de qual seria o sexo/gênero das pessoas homossexuais.

Essas premissas sobre a homossexualidade só foram revisitadas nas últimas décadas, principalmente devido a movimentos políticos que estouraram nos Estados Unidos demandando liberdade sexual e igualdade de gênero, com os hippies, as feministas e demais indivíduos que desviavam das normas de gênero e sexualidade de certa forma afrouxando os estigmas em cima dessa orientação sexual.

Assim, pessoas que se identificavam como gays e lésbicas — ainda que timidamente, e na maioria das vezes no armário — começaram a desenvolver pesquisas em diversas áreas do saber científico centradas no tema da homossexualidade e sua relação com o mundo, denunciando uma ideologia presente em todos os âmbitos da sociedade, inclusive na estruturação das instituições, que estimula uma interpretação de mundo fundamentada na norma heterossexual e considera a homossexualidade uma irregularidade inferior a ser violentada e silenciada, a heteronormatividade.

Essa heteronormatividade perdura até o presente, intimamente relacionada aos papeis sexuais/de gênero desenvolvidos através da história (noções sobre o que é ser homem ou mulher), e reforçada devido ao peso de fato científico que teve por muito tempo. Ainda assim, esses novos estudos e a participação de gays e lésbicas na academia trouxeram luz a essas questões e as formalizaram, desafiando todas as noções pré-concebidas e afetando a própria produção de parte do conhecimento científico e do imaginário social.

De forma similar, embora obviamente em outro contexto histórico, a inserção social de pessoas que não são identificadas como brancas resultou na produção de conhecimentos científicos racializados, ressaltando a existência e importância ancestral de povos negros e indígenas na constituição da humanidade, em oposição à história eurocêntrica que era e é proposta por vários estudiosos como verdade universal[2]. A inserção de mulheres na ciência também resultou em inovadoras pesquisas e teorias voltadas a uma análise não patriarcal das relações de gênero e do mundo[3]. Ou seja, é fato que a participação efetiva de minorias políticas em toda a sociedade transforma em diferentes níveis a visão de mundo das pessoas e, portanto, altera de forma intrínseca nossos juízos morais sobre uma coisa ou outra.

Essa mudança nas definições de homossexualidade, apesar de significativa, não teve muita influência na forma como se enxerga a bissexualidade, já que se convencionou dividir o mundo das orientações sexuais entre heterossexualidade e homossexualidade, continuando a invisibilizar nesse processo outros desejos e práticas sexuais que escapam desse ínterim.

Segundo expressa Elizabeth Sara Lewis:

(…) a bissexualidade e outras classificações da sexualidade “não simplesmente descrevem a existência, mas a constituem em maneiras histórica e culturalmente específicas” (Sullivan 2003: 2). Ou seja, essas categorias também são performativas: têm o poder de produzir o que nomeiam (Butler 1990), e refletem certas épocas e culturas. Na nossa época, as sexualidades são definidas com base no sexo/gênero do objeto de desejo — os/as heterossexuais desejam o sexo/gênero “oposto”, os/as homossexuais desejam pessoas do “mesmo” sexo/gênero e os/as bissexuais (se/quando reconhecidos/as) sentem desejo por “ambos” os sexos/gêneros. As categorias “heterossexual” e “homossexual” têm se tornado os dois grandes eixos e, por causa da insistência nesse binário, as pessoas que se identificam como bissexuais (e qualquer que não se encaixe em um dos lados dos extremos) frequentemente sofrem discriminações. A desconstrução da oposição presumida entre homossexualidade e heterossexualidade é importante porque nos permite “começar a imaginar modos alternativos de pensar e viver” (Sullivan 2003: 51). Como observa Sedgwick, todas as categorias de sexualidade que usamos hoje em dia são inadequadas porque “a sexualidade se estende em tantas dimensões que não podem, de modo algum, ser bem descritas em termos do gênero do objeto escolhido” (1990: 35; ver também Bornstein [1994] 1995).

Entendendo a bissexualidade

A palavra apareceu pela primeira vez no fim do século XIX, quando biólogos, ao descobrirem que embriões humanos não demonstravam características sexuais nem masculinas nem femininas até a 12ª semana de gestação, começaram a utilizar o termo para se referirem à capacidade hipotética de um organismo se tornar um macho ou uma fêmea da sua espécie. Darwin define a bissexualidade em sua teoria da evolução no sentido de ambiguidade sexual ou hermafroditismo[4], como um estágio inicial na jornada evolutiva do homem. Como sabemos, essa definição do termo foi apropriada e ressignificada posteriormente, resultando na compreensão da orientação sexual bissexual que temos hoje em dia.

É impossível formular um entendimento sobre orientações sexuais sem revisitar o próprio entendimento do que seria sexo e/ou gênero. Existe um debate constante acerca dessas definições, principalmente no que se refere à separação de “sexo biológico” e “gênero”. Sobre isso, Kenji Yoshino observa:

Possuir desejos “bi”sexuais pressupõe a existência de dois sexos — homem e mulher. Embora a bissexualidade seja vista às vezes como salientando e desconstruindo por si só a existência do binário sexual, ela nominalmente reifica a premissa de que existem apenas dois sexos. Essa premissa tem sido contestada no âmbito de que uma porção significativa da população é intersexual ao nascer, com genitálias que não se conformam às duas categorias convencionais de sexo. Ainda assim, um homem que se sente atraído por mulheres e indivíduos intersexuais, mas não por homens, não é considerado bissexual, porque indivíduos intersexuais não contam como sexo para esses propósitos. Bissexualidade também sugere que esses dois sexos são definidos biologicamente, ao invés de culturalmente. Essa é a divisão clássica feita entre sexo anatômico e gênero social. Portanto, uma lésbica que se sente atraída por ambas as “sapatões bofinhos” e as “femininas” não vai entrar na definição clássica de uma pessoa bissexual, porque mesmo que ela se sinta atraída por dois indivíduos que podem ser ditos como tendo diferentes “gêneros”, ambos são do mesmo “sexo”.
Irei novamente deixar ambas estas premissas — a de que existem dois sexos (homem e mulher) e a de que sexo anatômico pode ser coerentemente distinguido de gênero social — sem serem avaliadas para os propósitos dessa análise. Eu gostaria de reconhecer, entretanto, que essas premissas são profundamente contestáveis, e gesticular brevemente para os custos de não endereçá-las. Primeiramente, as pessoas intersexuais ocupam um lugar entre os dois sexos convencionalmente ordenados (homem e mulher) que as pessoas bissexuais ocupam entre as duas orientações sexuais convencionalmente ordenadas (heterossexual e homossexual). Fazer a bissexualidade visível no âmbito de que categorias intermediárias merecem atenção social ao mesmo tempo que se deixa a intersexualidade permanecer invisível cria uma assimetria irônica. Mais importante ainda, deixar de lado a discussão da intersexualidade representa uma oportunidade perdida de interrogar a orientação sexual em si. Porque assim como a bissexualidade desafia nossas concepções de sexo, a intersexualidade também pode ser usada para desafiar nossas concepções de orientação sexual. Para visualizar isso, pense no homem que se sente atraído mais por indivíduos intersexuais do que por homens ou mulheres. Qual é a orientação deste homem? E se ele se sente atraído apenas por intersexuais? O bissexual, que também é compreendido às vezes como “pansexual”, também é entendido como sendo atraído por intersexuais?
De forma mais familiar, a distinção entre sexo e gênero está sob fogo crescente na teoria queer/LGBT contemporânea, tanto que seus usos requerem defesa. A defesa é puramente pragmática — bissexuais simplesmente não seriam entendidos atualmente como pessoas que se sentem atraídas por ambos os gêneros, em oposição a sexos. Embora não seja abordada aqui, essa extensão deve ser teorizada. Isso porque é claramente verdade que as pessoas têm orientações de gênero, assim como orientações sexuais — uma pessoa pode se sentir atraída não por todos os homens, mas apenas os mais “masculinos”, ou não por todas as mulheres, mas apenas as mulheres mais “femininas”. Por que algumas pessoas se sentem atraídas por ambos os tipos de performance de gênero dentro de um sexo, enquanto outras se limitam a pessoas que performam gênero de apenas uma forma? A resposta está indubitavelmente conectada às maneiras com que elas percebem e contemplam o sexo “biológico”. De fato, é a força dessa conexão que tem levado teoristas como Judith Butler a afirmar que não há nenhum substrato pré-discursivo de sexo que possa ser distinguido de gênero.

Ressaltadas essas problemáticas conceituais, no contexto contemporâneo a bissexualidade é considerada uma orientação sexual que constitui basicamente a existência em um indivíduo do desejo sexual por mais de um sexo, o que chamo de desejo bissexual, em oposição à monossexualidade e o desejo monossexual, que se direciona a apenas um sexo (abrangendo heterossexuais e homossexuais).

Por que fundamentar essa perspectiva no campo dos desejos e não das identidades? Porque, como observa Kenji Yoshino, “mesmo que indivíduos com ambos os desejos pelo ‘mesmo sexo’ e o ‘outro sexo’ claramente existam, isso não significa necessariamente que estes indivíduos devem ser classificados juntos como um grupo”. Ou seja, a identificação de pessoas que possuem desejos bissexuais com o termo bissexual e a divisão em grupos é posterior à existência do próprio desejo bissexual, que sempre existiu. Portanto, apesar das pessoas que se identificam como bissexuais serem um fenômeno relativamente novo, como o são as pessoas que se identificam como homossexuais, a atração por mais de um sexo em si é uma característica constante em toda a história, independente de conceituações modernas identitárias. O desejo sexual bissexual e a identidade bissexual são conceitos separados que muitas vezes se mesclam.

Nesse sentido se institui o uso do conceito de monossexualidade nos estudos da bissexualidade: para salientar que a própria compreensão das categorizações e orientações sexuais através da história (incluindo os estudos de teóricos queer, que em sua ávida busca por fluidez sexual tendem a ignorar a bissexualidade e sua condição constante de invisibilidade e repressão) criou e naturalizou uma dicotomia binarista que não tem base real nenhuma entre heterossexualidade e homossexualidade (respectivamente, o desejo sexual único pelo outro sexo e o desejo sexual único pelo mesmo sexo), invisibilizando e deslegitimando no processo a existência do desejo bissexual, assim como a ausência de desejo sexual direcionado a qualquer um dos sexos, a assexualidade.

Do mesmo modo que se utiliza o termo bissexual para se referir às pessoas que experienciam atração sexual por mais de um sexo, o termo monossexual surge para denominar claramente a existência de pessoas que experienciam atração sexual por apenas um sexo, rompendo com o costume de simplesmente presumi-las como “normais”. Diferente do que acontece com a bissexualidade, a monossexualidade não é um conceito conhecido, interpretado como uma identidade ou característica palpável — exatamente porque a atração sexual por apenas um sexo é estabelecida como a norma e não precisaria ser catalogada ou identificada; assim sendo, a bissexualidade é relegada ao campo do mito e da fantasia.

A criação desse termo para denunciar uma diferença de tratamento entre pessoas bissexuais e monossexuais também se reflete no uso estratégico similar do termo heterossexualidade com relação à homossexualidade e do termo cisgeneridade com relação à transgeneridade, deixando explícita na linguagem a existência de diferentes conceituações de sexualidade e gênero que não partem mais da premissa do indivíduo heterossexual, monossexual ou cisgênero como “normal” e do indivíduo homossexual, bissexual ou transgênero como “anormal”.

A categorização linguística das pessoas que apresentam e não apresentam esse desejo em grupos denominados bissexuais e monossexuais é essencial para delimitar como essas pessoas se beneficiam e são prejudicadas de formas distintas pelo estabelecimento das discriminações, pois “embora sejam construídos socialmente, os grupos de heterossexuais, homossexuais, bissexuais e assexuais têm consequências políticas e materiais”.

O preconceito, a invisibilização e a patologização da bissexualidade

É comum encontrarmos no posicionamento das pessoas monossexuais[7] diversas manifestações de discriminação contra indivíduos que apresentam o desejo bissexual, como as frases marcantes “bissexualidade não existe”, “isso é só uma fase”, “se decide!” e “sai do armário”, bem como associações a infidelidade e promiscuidade, o estigma da bissexualidade como responsável por fazer a “ponte” entre heterossexuais e homossexuais no que se refere às doenças sexualmente transmissíveis etc.; entretanto, também é recorrente ouvirmos coisas como “o preconceito contra bissexuais não existe”, “gays não podem ter preconceito contra bissexuais” ou, até mesmo, que “o preconceito contra bissexuais não é estrutural”.

Isso não faz sentido nenhum frente aos recentes estudos sobre bissexualidade, que são categóricos em demonstrar como, através dos séculos, apesar de sempre ter existido de forma expressiva e tangível, o desejo bissexual foi sistematicamente apagado, inclusive institucionalmente estigmatizado (vide a definição específica da bissexualidade como comportamento de risco em editais da Organização Mundial da Saúde).

Como afirma Kenji Yoshino:

(…) eu observo o que os estudos majoritários de sexualidade dizem sobre a incidência de bissexualidade e homossexualidade na população. Duas coisas são surpreendentes nessa investigação. Primeiro: pelo meu conhecimento, ninguém formulou previamente essa comparação sistêmica. Segundo: quando essa investigação é feita, ela revela que cada um dos estudos majoritários de sexualidade demonstra que o número de bissexuais é maior ou comparável ao número de homossexuais. Isso sugere que a invisibilidade bissexual não é uma reflexão do fato de que há menos bissexuais do que homossexuais na população, mas sim um produto de apagamento social.

As interpretações de Yoshino na introdução do artigo The Epistemic Contract of Bisexual Erasure sobre sua experiência participando de aulas sobre Orientação Sexual e Direito salientam a existência de uma tendência frequente a invisibilizar a bissexualidade:

Eu percebi que eu e a classe estávamos caindo nos mesmos usos “instáveis” que havia trabalhado duro para retirar — especificamente os usos das palavras “heterossexual” e “homossexual” como termos mutuamente exclusivos e cumulativamente exaustivos. Embora nós às vezes usemos “LGBT” ao invés de “gay”, ou adicionemos um posterior “e bissexual” a “gay”, esses esforços são simbólicos e erráticos. Em face das discussões legais e comentários acadêmicos que eram persistentes em reificar o binário hétero/gay, foi difícil manter a bissexualidade visível, mesmo como uma breve possibilidade. E embora essa falha em resistir ao que eu havia criticado como uma distorção estivesse proeminente numa aula que buscava tratar a problemática da orientação sexual com sofisticação, isso se tornou simultaneamente mais reconhecível como uma inconsistência que permeia e distorce discursos cotidianos. Muitos que não negariam a existência de bissexuais quando o tema da bissexualidade viesse à tona ainda assim se voltariam à dicotomia hétero/gay ao mudar de assunto. Eu me pego falando profusamente sobre bissexuais em um momento e, no próximo, formulando uma questão como “O fulano é hétero ou gay?”, sem instintivamente sentir como se uma possibilidade importante — a possibilidade bissexual — estivesse sendo ignorada.

É um fato observado que se costumou classificar pessoas bissexuais como homossexuais ao se interpretar a história da humanidade, apagando a existência do desejo bissexual e dos indivíduos bissexuais e gerando uma sensação de inexistência e deslegitimação no imaginário social que afeta diretamente a forma como pessoas bissexuais são entendidas e entendem a si mesmas.

Na mídia, assim como nas relações cotidianas, quando uma celebridade se identifica como bissexual as presunções automáticas são de que: (1) essa pessoa faz isso para tentar esconder a homossexualidade, pois se assumir publicamente como bissexual seria supostamente “mais fácil”; (2) essa pessoa faz isso por modismo e para chamar atenção; (3) essa pessoa está confusa quanto à própria sexualidade.

Uma das formas de institucionalização da bissexualidade como uma característica pejorativa e inferior — e que também pode explicar o preconceito e a invisibilização das pessoas e do desejo bissexual — se deu no âmbito da psicanálise. O desejo bissexual seria uma forma primitiva e infantilizada de sexualidade a ser abandonado no decorrer da vida, em oposição ao desejo monossexual, que seria natural e civilizado. Como formula Esther Rapoport:

Freud, unido a alguns outros, estendeu a noção [darwinista] de bissexualidade ao campo psicológico, sugerindo que humanos eram psicologicamente, assim como fisicamente, bissexuais. Entretanto, a bissexualidade psíquica para ele permaneceu para sempre secundária aos aspectos essenciais do desenvolvimento psicológico humano. Era, vulgarmente falando, a manifestação da biologia no campo psicológico. Considerando-se que o conceito de gênero como algo distinto de sexo biológico ainda não tinha sido articulado, ter as características físicas dos dois sexos era “naturalmente” entendido como contendo as características psicológicas dos dois gêneros.

Essa definição, ao contrário da definição de homossexualidade, nunca foi revista dentro da teoria psicanalítica, sendo reforçada por diversos teóricos através das décadas — como Bettelheim, que propôs rituais “primitivos” em que os adolescentes participantes tinham que adotar papeis masculinos e femininos, argumentando que o propósito de tais cerimônias era ajuda-los a abandonar a perversidade polimórfica da infância bissexual e aceitar completamente os papeis sexuais genitais e maduros pré-concebidos socialmente; ou Fast, que reforçou em 1984 a teoria de que as crianças começavam com uma identidade de gênero bissexual primitiva e desenvolviam características definidas de gênero no decorrer da vida. Ironicamente, diferente de Freud, Fast teve ao seu dispor uma definição de gênero separada de “sexo biológico” e orientação sexual; entretanto, não fez nenhuma diferenciação nesse sentido ao tratar da bissexualidade.

Esses conceitos são aplicados clinicamente por analistas clássicos freudianos até hoje. Por isso, não é incomum se deparar com relatos de indivíduos bissexuais que sofreram discriminação dos próprios psicólogos e psicanalistas, tendo sua bissexualidade deslegitimada, patologizada e vista como uma anormalidade no desenvolvimento psíquico. Rapoport observa que a insistência desse conceito ultrapassado de bissexualidade na teoria psicanalítica resistiu a estudos contundentes que demonstravam seu caráter irrefletido:

O establishment psicanalítico conseguiu ignorar a pesquisa pioneira de Kinsey e Masters e Johnson, sem mencionar o trabalho de Fritz Klein e qualquer outro escritor com um tema especificamente bissexual. A falta de consequências na comunidade psicanalítica mainstream pelos estudos de Kinsey, que chocaram, escandalizaram e mudaram para sempre a sociedade americana, é particularmente surpreendente, embora não totalmente inexplicável. A psicanálise clínica da época era uma disciplina provinciana, possessivamente se guardando contra intrusões e desafios. As conclusões de Kinsey, baseadas em uma enorme amostra de 5.300 homens, representavam uma ameaça direta a uma disciplina que enxergava a si mesma como um ramo de ciência médica objetiva, ao mesmo tempo em que se afastava de pesquisas quantitativas empíricas e continuava a derivar suas ideias de um punhado de estudos de caso. Na ausência de um contra-argumento convincente, um desprezo de cenho franzido e o silêncio dignificado foram provavelmente a melhor estratégia.

A analista clássica contemporânea Joyce MacDougall chega a afirmar categoricamente que a transformação da bissexualidade primitiva e instintiva em uma monossexualidade evoluída é natural e esperada:

A responsabilidade de abandonar esses propósitos bissexuais instintivos requere um processo de luto que não é alcançado facilmente. Talvez uma das feridas mais narcisistas e escandalosas da humanidade para os nossos desejos infantis megalomaníacos é infligida pela necessidade de aceitar nossa inevitável monossexualidade.

Além disso, de forma similar às tentativas conservadoras e homofóbicas de “cura gay (que hoje são condenadas pelas associações de psicólogos como uma infringência dos Direitos Humanos), essa postura, que confunde gênero e orientação sexual, tenta converter indivíduos bissexuais em monossexuais. Levando-se em conta que essas pessoas já se encontram numa situação de fragilidade psicológica muitas vezes causada pela própria bifobia e é esse o motivo que as leva a procurarem o serviço de um profissional da área, essa ocorrência se torna especialmente cruel e intensifica a falta de uma sensação de pertencimento e legitimidade com relação à própria sexualidade das pessoas bissexuais.

No que concerne a esse assunto, Rapoport conclui:

Considerando-se que a bissexualidade é associada aos estágios mais primordiais do desenvolvimento psicológico — aqueles em que o pensamento mágico predomina — , não é surpreendente que ela seja frequentemente relegada ao âmbito da fantasia: “Nos sonhos, somos todos mágicos, bissexuais e onipotentes” (MacDougall, 1986, p. 215); “a impossibilidade de ter tudo significa tanta miséria que a noção de desejos bissexuais universais é quase inescapável” (Richards, 2000, p. 38).

De acordo com uma pesquisa feita com dez mil adolescentes LGBTs americanos pela Human Right’s Campaign Foundation chamada Supporting and Caring for Our Bisexual Youth, jovens bissexuais enfrentam muitos dos mesmos problemas que afetam seus colegas gays e lésbicas, como o processo de saída do armário e a aceitação da família e da comunidade, assim como outros desafios específicos que concernem a sua bissexualidade.

De forma geral, jovens bissexuais apresentaram níveis menores de aceitação familiar em comparação a gays e lésbicas. Outra forma notável na qual bissexuais diferem de gays e lésbicas é na sua consciência de pessoas e instituições que poderiam ajudá-los na sua jornada de auto aceitação. Jovens bissexuais eram muito menos propensos a conhecerem espaços seguros para LGBTs nas suas comunidades, ou de conhecer algum adulto na sua família, escola ou comunidade que poderia compreendê-los e apoiá-los. Basicamente, jovens bissexuais frequentemente apresentavam desconforto com sua orientação sexual e sentiam como se não tivessem ninguém a quem pedir ajuda, além do medo constante de se assumir para seus colegas, mais do que os jovens gays e lésbicas que participaram da pesquisa; bissexuais também eram muito menos propensos a estarem fora do armário.

Essa falta de apoio se refletiu na forma como bissexuais avaliaram sua felicidade e seu otimismo quanto ao futuro, como ambições referentes a relacionamentos amorosos, ingresso na universidade e sucesso na carreira.

Também foram observados os seguintes dados estatísticos:

Apenas 5% das pessoas bissexuais que participaram da pesquisa se definiram como “felizes”, contra 8% de gays e lésbicas e 21% de heterossexuais.
Apenas 44% das pessoas bissexuais afirmaram ter alguém na família para quem poderiam pedir ajuda quando estivessem tristes, contra 54% de gays e lésbicas.
Apenas 56% das pessoas bissexuais disseram conhecer um adulto confiável fora da família, menos do que os 65% de gays e lésbicas.
Apenas 1 em cada 10 jovens bissexuais afirmaram sentir que se “encaixavam” na sua comunidade.
44% das pessoas bissexuais afirmaram sentir que de alguma forma sua comunidade estava melhorando com relação à aceitação, contra 53% de gays e lésbicas.
Apesar dos níveis de discriminação que os jovens bissexuais reportaram dentro e fora da escola serem comparáveis àqueles reportados por gays e lésbicas, as respostas revelaram que garotas bissexuais afirmaram se sentir submetidas a assédios sexuais diretamente relacionados à sua bissexualidade. “Meninos me perguntam se podem me olhar com outra garota. Eles me tocam de forma inapropriada”, “as pessoas me chamam de puta porque eu sou bissexual”.
Um estudo do Williams Institute mostrou que 76% das pessoas que se identificam como bissexuais são mulheres; da mesma forma, a pesquisa do BiNet USA demonstrou que 76% dos jovens bissexuais eram mulheres, e muitas delas declararam sofrer assédio sexual.
Mais da metade (51%) dos jovens bissexuais afirmou serem mais honestos sobre quem são online do que no mundo real.
Apenas 9% dos jovens bissexuais afirmou sentir que eram aceitos na comunidade LGBT.
Os jovens bissexuais afirmaram ter ouvido constantemente as seguintes frases em seu círculo social: que a sua sexualidade não existe ou não é real; que ser bissexual é apenas uma fase; que eles estão confusos, indecisos ou querendo chamar atenção; e que eles são muito obcecados por sexo ou “atraídos por todo mundo”.

As seguintes frases foram articuladas pelos jovens bissexuais:

“Eu gostaria que mais pessoas dentro da comunidade gay apoiassem minha decisão de me considerar bissexual. Eu não estou sendo egoísta. Eu não sou um mentiroso. Eu não sou gay. Eu não sou hétero. Eu sou bissexual.”
“Eu me assumi pra minha família e eles não acreditaram em mim.”
“Eu gostaria que a pressão pra ‘escolher um lado’ acabasse.”
“Na única vez que eu toquei no assunto com a minha mãe, ela disse que eu ia deixar isso pra lá quando crescesse e me ignorou.”
“Ser gay é aceito na minha família, mas ser bissexual não é.”
“Meus pais não são homofóbicos, mas quando diz respeito a mim eles definitivamente não são receptivos. Eles dizem que eu não posso ser bi, que eu tenho que ser gay ou hétero.”
“Quando eu conto a homens sobre minha bissexualidade, eu recebo muitas reações como ‘nossa, isso é muito excitante’, o que eu sinto que fetichiza minha orientação sexual.”
“Eu estou cansado de me dizerem que é só uma fase.”
“Pessoas me disseram que minha vida é inútil porque eu sou bissexual, e que eu não valho nada.”
“Eu tentei me assumir pra minha mãe, mas ela disse que eu podia ser apenas gay ou hétero e que não existia nada no meio.”
“Como bissexual, eu me sinto excluído da comunidade gay e lésbica.”
“Minha mãe disse: ‘você tá dizendo que é bissexual, o que é isso? Isso nem existe!’”
“Eles pensam apenas que eu estou confuso.”
“Eu fui empurrada nos corredores, chamada de ‘homossexual suja’ e ‘sapatão’, e me disseram que eu vou pro inferno e deveria ter vergonha de quem eu sou.”

Em face destas informações, embora se refiram a um contexto americano particular (e a falta de pesquisas feitas sobre bissexualidade no Brasil ou em língua portuguesa em contraste às feitas sobre homossexualidade seja sintomática do seu apagamento), é curioso que ainda considerem, mesmo dentro do movimento LGBT, a discriminação e invisibilização sistemática de pessoas bissexuais e do desejo bissexual especificamente como algo aleatório e não estruturalmente instituído, mesmo aquelas com certa consciência e empatia relativas às formas como a expressão de sexualidades não-heterossexuais é reprimida pela sociedade.

Esse tipo de posicionamento pode não ser apenas coincidência.

O monossexismo e o interesse de heterossexuais e homossexuais no apagamento bissexual

Considerando-se que a invisibilidade das pessoas e desejos bissexuais é melhor explicada por apagamento bissexual do que por inexistência da bissexualidade, e que bissexuais são menos social e politicamente visíveis do que homossexuais, Kenji Yoshino sugere que o apagamento da bissexualidade ocorre porque os dois grupos dominantes de orientação sexual — que se identificam como héteros e como gays — têm investimentos compartilhados nesse apagamento. Segundo ele:

É como se esses dois grupos, apesar das suas discordâncias virulentas, tivessem concordado que bissexuais devem ser invisibilizados. Eu chamo isso de contrato epistêmico do apagamento bissexual. Para sustentar a existência de tal contrato, eu ofereço evidências de que ambas as pessoas que se identificam como héteros e gays utilizam as mesmas três estratégias de apagamento bissexual: apagamento de classe, apagamento individual e deslegitimação.

Ele elenca a existência de três motivos pelos quais pessoas monossexuais — que se identificam como heterossexuais e homossexuais — têm interesse no apagamento bissexual. Estes são: (1) um interesse em estabilizar as orientações sexuais; (2) um interesse em manter o sexo como uma métrica dominante de diferenciação; e (3) um interesse em defender as normas da monogamia.

Ele desagrega cada interesse em seus três componentes: (1) o componente compartilhado por ambos héteros e gays; (2) o componente mantido apenas por héteros; e (3) o componente mantido apenas por gays.

Por fim, Yoshino afirma:

O primeiro investimento que monossexuais têm no apagamento bissexual é um interesse em estabilizar as orientações sexuais. O componente desse interesse compartilhado por ambos héteros e gays é um interesse em saber o lugar de cada um na ordem social: ambos héteros e gays valorizam esse conhecimento porque ele os alivia da ansiedade do questionamento identitário. Héteros têm um interesse específico em garantir a estabilidade da heterossexualidade porque essa identidade é privilegiada. Menos intuitivamente, gays também têm um interesse específico em defender a estabilidade da homossexualidade, pois veem a estabilidade como a base para a “defesa da imutabilidade” ou para mobilização política efetiva. A bissexualidade ameaça todos esses interesses porque impede ambos héteros e gays de “provar” que eles são héteros ou gays. Isto porque héteros (por exemplo) podem apenas provar que são héteros apresentando a evidência de desejo pelo outro sexo. Eles não podem apresentar evidência da ausência de desejo pelo mesmo sexo, já que é impossível provar uma negativa. Porém isso significa que héteros nunca poderiam provar que são realmente héteros num mundo em que bissexuais existem, já que o indivíduo que apresenta atração pelo outro sexo poderia ser tanto hétero quanto bissexual, e não há nenhuma maneira de diferenciar essas duas possibilidades. A bissexualidade é, portanto, uma ameaça a todos os monossexuais, porque ela impede que se comprove uma identidade monossexual.
O segundo interesse que monossexuais têm no apagamento bissexual é um interesse em manter a importância do sexo como uma característica distinguível na sociedade. Héteros e gays têm um investimento compartilhado nisso porque ser hétero ou ser gay pressupõe discriminar eroticamente no âmbito do sexo. Héteros têm um interesse específico em preservar a importância do sexo porque normas sexuais são lidas atualmente sob uma matriz heterossexual: ser um homem ou uma mulher na sociedade americana contemporânea é em parte definido pela atração sexual de uma pessoa pelo sexo oposto. Gays também têm um interesse particular em distinções sexuais, já que a homossexualidade é frequentemente vista como uma maneira de participar num completo separatismo sexual — isto é, como uma maneira de criar comunidades do mesmo sexo que estão conectadas eroticamente assim como socialmente e politicamente. A bissexualidade põe em perigo todos estes interesses porque ela propõe um mundo em que sexo não precisa (ou não deveria) importar tanto quanto monossexuais querem que importe.
O interesse final que monossexuais têm no apagamento bissexual é um interesse em defender as normas da monogamia. Ambos héteros e gays compartilham esse interesse, já que a ética dominante da sociedade americana contemporânea favorece relacionamentos diádicos. Héteros podem ter um interesse particular nisso já que a forma de não-monogamia associada a bissexuais tem sido conectada à infecção com HIV, com uma “promiscuidade” bissexual agindo como uma ponte (fantasmagoricamente, senão praticamente) entre a população gay “infectada” e a população hétero “não infectada”. Gays podem ter um interesse particular na monogamia porque tentam se assimilar à sociedade mainstream. A bissexualidade ameaça todos esses interesses porque bissexuais são frequentemente percebidos como sendo “intrinsecamente” não-monogâmicos.
Assim sendo, no decorrer destas três diferentes perspectivas, ambos gays e héteros têm interesses distintos, embora coincidentes, que são ameaçados pelo conceito de bissexualidade. Portanto, não é surpreendente que ambos estes grupos de orientação sexual se unam no apagamento bissexual.

A necessidade da existência de um movimento bissexual e seus objetivos

Conforme demonstrado anteriormente, a bissexualidade enquanto conceito subverte todo o imaginário social binarista que divide as orientações sexuais em heterossexualidade e homossexualidade; o sexo como uma categoria central de discriminação no âmbito erótico; e a própria forma como os relacionamentos românticos se constituem dentro de uma normatividade monogâmica.

Para a desmistificação das pessoas bissexuais como essencialmente infiéis, indecisas, confusas, psicologicamente primitivas, promíscuas etc. é necessário que o movimento político bissexual se torne forte e que pessoas bissexuais e de outras sexualidades adotem um discurso inclusivo nesse sentido, principalmente desconstruindo as próprias noções de “confusão sexual” e “promiscuidade” como algo moralmente inferior, ao invés de reificando essas premissas em favor de uma assimilação e homogeneidade.

O movimento político bissexual deve se alicerçar nesses potenciais de mudança para produzir e facilitar o encontro de materiais científicos (artigos, ensaios, compêndios), culturais (músicas, filmes, literatura com personagens bissexuais) e conscientizadores (campanhas publicitárias, panfletagem, materiais destinados a instituições na área da saúde e do direito) sobre bissexualidade e como lidar com pessoas bissexuais que fujam da conceituação monossexista e bifóbica, possibilitando a visibilidade da bissexualidade numa ótica positiva assim como tem lentamente ocorrido com a homossexualidade. Um foco interdisciplinar na temática bissexual é essencial para desmistificar as presunções nocivas sobre bissexualidade.

Essas iniciativas possibilitariam a entrada da bissexualidade como um desejo, uma prática e uma identidade legítimas no imaginário social, minando progressivamente as problemáticas de aceitação, discriminação, assédio, violência etc. e também transformando e afrouxando a maneira que encaramos as sexualidades e a monogamia.

As pesquisas de Fernando Seffner, que estudou as formas de masculinidade bissexuais, também caminham nesse sentido:

(…) a bissexualidade se apresenta como um espaço de transitoriedade com relação a diversas questões no mundo masculino, especialmente aquelas que envolvem relações de poder: quem é ativo e passivo; quem é heterossexual, homossexual e bissexual e quais os diferenciais de poder aí existentes; quem busca um outro homem pra manter relação sexual, e quem é buscado/procurado; quem é casado e quem é solteiro; quem mantém relações com outro homem na presença de uma mulher, e quem mantém relações exclusivamente entre homens; quem “assume” isso em casa, e “a esposa participa”, ou quem “não assume”, e “a esposa não participa” etc. Em outras palavras, a masculinidade bissexual é boa para pensar e questionar a masculinidade hegemônica e a heteronormatividade, e a partir delas as diversas formas de construção da identidade.

Yoshino afirma que a invisibilidade bissexual cria consequências práticas diretas no âmbito legal. Pegando casos de abuso sexual com o mesmo sexo, ele nota que bissexuais permanecem largamente invisíveis nessa jurisprudência, embora sejam mais visíveis nessa área doutrinal do que em quaisquer outras. Portanto, é importante refletir sobre maneiras nas quais seria possível transformar essa jurisprudência e tornar a bissexualidade visível.

Da mesma forma, com relação à definição arcaica de bissexualidade na teoria psicanalítica, Rapoport sugere que é essencial a produção de conceituações alternativas de bissexualidade de dentro da própria psicanálise, e que os limites disciplinares devem ser superados, levando a uma compreensão da bissexualidade que perpasse estudos das ciências sociais, psicologia, biologia etc. Ela também afirma que o conceito de bissexualidade tem um grande potencial a ser utilizado na desconstrução da heteronormatividade, que analistas e clínicos devem se unir contra a articulação da bissexualidade como um defeito no desenvolvimento psicológico e que a bissexualidade pode ser reinstaurada como o centro da teoria psicanalítica, dessa vez de maneira transformadora.

As conclusões da pesquisa do Human Right’s Campaign Foundation vão no mesmo sentido: é essencial educar a si mesmo e aos outros, reconhecer e falar sobre bissexualidade, particularmente quando se refere a relacionamentos e sexo, e adequar as informações à forma de linguagem utilizada pelos públicos, como os adolescentes. Dessa forma, pessoas bissexuais vão se sentir cada vez mais legitimadas e confortáveis nas suas sexualidades.

Na articulação dos discursos sobre sexualidade, é demandatório se atentar às expressões utilizadas e seu potencial de incluir pessoas bissexuais. Por exemplo, a insistência no uso de termos como “LGBT” no lugar de “gay”, “gays e lésbicas” ou “GLS”. Bissexuais são constantemente deslegitimados através da linguagem, e isso deve ser modificado.

Para educadores, vide a informação de que bissexuais são muito menos propensos a se assumirem para seus colegas de classe e professores, é importante falar sobre bullying e discriminação na sala de aula e ressaltar a bissexualidade no discurso, já que ela é deixada de lado na maioria esmagadora das vezes.

Na organização de eventos, é essencial a inclusão de estudiosos e ativistas que se identificam abertamente como bissexuais, possibilitando um maior alcance das perspectivas bissexuais e para mostrar exemplos à juventude bissexual de que pessoas iguais a elas existem e podem ter sucesso como quaisquer outras.

É efetiva a criação de coletivos exclusivos para troca de experiências entre pessoas que se identificam como bissexuais ou, independente de como se nomeiem (vide a profusão de termos como pansexualidade, polissexualidade etc.), aquelas que enxergam em si a capacidade de se atrair sexualmente por mais de um sexo e escapam do binário hétero-homossexual estabelecido. Esses grupos possibilitam um maior acesso a informações sobre bissexualidade, fomentam a discussão e estimulam nas pessoas bissexuais a compreensão e aceitação de si mesmas e dos outros.

Mais do que isso, transcendendo as questões de orientação sexual, é importante ressaltar o lugar central que a bissexualidade ocupa no que tange à naturalização da monogamia como única via de relacionamento (vide as associações de infidelidade e promiscuidade que persistiram na contemporaneidade com bissexuais, mesmo em meios de “mente aberta”, como forma de estigmatizar todo um desejo e uma prática). Sem questionar a própria estrutura monogâmica e a configuração das sexualidades — atualmente, de forma a se ignorar como elas reificam a hierarquia patriarcal de gênero e seus papeis — ficaremos para sempre no âmbito das liberdades individuais, sem nunca se atentar à estruturação coletivamente limitante dos próprios conceitos tidos como verdades naturais.

A quem interessa manter essas estruturas de pé?

Notas

[1] É importante notar que, apesar do uso constante deste termo para denominar as classes sociais que sofrem discriminação, muitas vezes se entende minoria num sentido de quantidade. Essa interpretação não procede, já que, p. ex., apesar da misoginia explícita na sociedade, as mulheres representam maioria na população mundial. Isso significa que minoria, na verdade, se refere a estas pessoas integrarem categorias minoritárias politicamente e ao seu status social, não quantitativamente.

[2] Como visto em Racismo & Sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo na história, de Carlos Moore.

[3] Como visto em O feminismo mudou a ciência?, de Londa Schiebinger.

[4] O termo “hermafrodita” entrou em desuso por ser considerado controverso ao se referir a seres humanos e foi substituído por “intersexual”.

[5] Aqui aparece de forma prática a utilidade do conceito de monossexualidade, pois esses posicionamentos não se limitam apenas a pessoas heterossexuais, mas estendem-se também gays e lésbicas, inclusive dentro do próprio movimento LGBT, suscitando uma nova reflexão.

Artigos citados:

Elizabeth Sara Lewis (2012): “Não é uma fase”: construções identitárias em narrativas de ativistas LGBT que se identificam como bissexuais.

Kenji Yoshino (2000): The Epistemic Contract of Bisexual Erasure.

Esther Rapoport (2009): Bisexuality in Psychoanalytic Theory: Interpreting the Resistance, Journal of Bisexuality, 9:3–4, 279–295.

Joyce MacDougall (2000): Sexuality and the neosexual. Modern Psychoanalysis, 25(2),155–168.

Human Right’s Campaign Foundation, BiNet USA (2014): Supporting and Caring for Our Bisexual Youth.

Fernando Seffner (2003): Derivas da masculinidade: representação, identidade e diferença no âmbito da masculinidade bissexual.