Nu

Num canto longínquo do céu, mitigando o brilho das estrelas conforme assumia o domínio da paisagem, a lua cheia deixou para trás a luz alaranjada e foi diminuindo, condensando, tornando-se de um branco leitoso; essa transformação tão inexplicável era o que tomava a mente de uma menina sentada no topo de um pequeno edifício enquanto contemplava a imensidão da noite. Ela sabia o que era a lua; ela sabia o que era o dia e a noite; ela sabia até mesmo o que era o espaço, a infinita negritude mãe de tudo. Mesmo assim, era difícil não ser absorvida pelo misticismo intrínseco dessas coisas.

Com a cabeça deitada em seu colo e a voz tímida de quem sabia estar cometendo algum tipo indizível de transgressão, o amigo interrompeu o silêncio:

— Diana…

— O quê?

O menino se levantou. Estava nu como ela, embora uma flor violeta lhe adornasse o cabelo.

— O que você acha… bem, o que você acha do que o professor falou? Sobre as pessoas que se cobrem?

— E o que tem pra achar?

— Mas elas se cobrem, Diana.

— A gente também se cobre.

— Sim, mas porque sentimos frio, não porque… — ele observou por um momento as próprias mãos, morenas e calejadas de se pendurar nas árvores. — Não porque é errado. Não porque nosso corpo é errado.

— Tem gente doida pra tudo, Micael. E isso foi antigamente. E vai que nem é verdade. O Hermógenes adora inventar essas coisas pra assustar a gente.

Micael se calou, mas não deixou pra lá.

No dia seguinte, vagando pelas ruas com o olhar semicerrado de um estudioso, ele concentrou-se no seu alvo. Uma mulher com sua filha bebê equilibrada na cintura, segura com o auxílio de um belo e colorido tecido bordado. Ao seu redor as pessoas continuavam seu caminho, absorvidas em suas trocas e burburinhos no centro mercantil da cidade, nuas e descalças sobre a terra plana.

Ele tentou imaginar o tecido cobrindo todo o corpo da mulher: as estrias em seus seios, seus ombros arredondados, as pernas grossas e arqueadas. Enquanto se controlava para não expressar no rosto o horror que sentia, Micael não sabia sequer como ela conseguiria se mover embrulhada em um monte de pano. “Por que alguém iria querer se cobrir?”, ele se perguntava intimamente, observando a mulher receber uma sacola de maçãs do trocador. Não tinha motivo. Ela era bela. O corpo era a parte física da mente, era o alicerce de uma pessoa, era o que ela era.

E o corpo livre era imprescindível para o que tinha ido fazer ali.

Micael deixou a sombra projetada pelos prédios, tirou a sacola das mãos da mulher e correu para longe. A adrenalina o fez tremer.

Depois, no alto de um galho, balançando as pernas mecânicas sobre o abismo, ele comeria as maçãs imaginando o contorno dos corpos — carne e ossos e metal pulsando com vida, a brisa fresca tocando sua pele como o tatear afetuoso de uma avó.

Sem vergonha nenhuma.