Entrevista com Chagdud Tulku Rinpoche

Revista Meditação, 1996

O grande lama tibetano, que está vivendo no Brasil, fala da longevidade.

Mirna: Como o budismo tibetano vê a questão da longevidade, e o que é uma vida humana preciosa?

Rinpoche: Nem todas as vidas humanas são preciosas. Para que uma vida humana seja considerada preciosa, são necessárias várias condições ou características. O ser humano que tem uma vida com essas condições pode gerar benefícios para si mesmo, isto é, um ponto em que ele encontra liberdade do sofrimento, e também pode ajudar outros a encontrar essa liberdade. Mas se é uma pessoa que causa mal a outros seres, não há por que essa pessoa Ter uma vida longa. Ela simplesmente vai continuar gerando não-virtudes, sofrimento para si e para outros. Mas a vida humana, por pior que ela seja, é melhor que qualquer existência nos reinos inferiores.

Mirna: Quando fazemos uma cerimônia de longa vida, quais são os requisitos? Quais são as práticas espirituais que prolongam a vida?

Rinpoche: Uma cerimônia de longa vida pode ser feita pela própria pessoa, se ela tiver realização espiritual. Ou a prática pode ser feita por outra pessoa, com realização espiritual. É uma prática que remove os obstáculos da vida daquela pessoa: os que existem ou que possam surgir no futuro, colocando em perigo a vida da pessoa. Pessoas que tem vida curta, no budismo tibetano, significa que, em vidas passadas, elas mataram outros seres. Uma prática então, que se faz para a longevidade, é salvar outras vidas. Salvar vidas de animais que vão ser sacrificados, insetos, enfim, preservar a vida em todo custo. E dedicar para a longa vida daquela pessoa.

Mirna: Existe alguma oração para ajudar, além desse exercício de compaixão?

Rinpoche: Existem práticas que podem ser feitas, para a longevidade, mas a pessoa precisa de iniciação, como o Powa, que é a arte de morrer. Essa é uma prática que, feita com diligência, elimina o medo da morte e proporciona uma longa vida.

Mirna: Como esse benefício acontece?

Rinpoche: A prática de Powa é feita para o Buda Amitaba. E o Buda Amitaba e o Buda Amitayus são a mesma pessoa. Buda Amitayus é o buda da longa vida. Então, quando você está invocando Amitaba, você está invocando também o Amitayus. O que acontece nessa prática é que o seu carma negativo é purificado, preparando você para o momento da morte. E quando você purifica o seu carma você melhora suas condições de vida. Como essa prática, você recebe ajuda dos dois lados.

(Mirna: Essa prática trabalha com o canal central da energia do corpo e é poderosíssima, pois realmente “abre” a energia da pessoa. Se for alguém que está muito doente, essa prática pode curar a pessoa, e se for parte do seu carma realmente morrer, isso se dá de maneira iluminadora. Para pessoas comuns, não doentes, é uma prática que preserva a saúde. Mas ela precisa de iniciação, como todas as práticas do budismo tibetano.)

Mirna: Como o Rinpoche se sente criando este templo, o primeiro da América do Sul?

Rinpoche: (rindo) Bad karma! (carma ruim, ele brinca.)

Mirna: (insistindo) Mas por que o Brasil?

Rinpoche: (continua a brincar) O Brasil é muito ruim…Eu precisava fazer alguma coisa pra melhorar a situação aqui… Vim ao Brasil a pedido de algumas pessoas que queriam aprender sobre o budismo, porque é muito importante que o estudante possa estar com o lama, considerando que é muito difícil para os brasileiros viajar constantemente para os Estados Unidos, onde eu dirijo outros centros. Vim com o objetivo de ajudar essas pessoas que têm interesse pelo dharma. A única razão foi ajudar, servir. Era um momento de descansar de muitos anos de trabalho, embora eu tenha um lugar muito confortável na Califórnia, Estados Unidos. Mas o importante é ajudar as pessoas, essa é minha motivação. Construir o templo para que as pessoas tenham um local onde se possam praticar, receber ensinamentos, as iniciações. Um lugar onde a prática dessas pessoas possa ter continuidade, para que os ensinamentos possam ser mantidos.

Se as atividades continuarem, aí sim, estarei feliz.

Mirna: Que conselho o senhor daria para alguém que não é budista mas que simplesmente deseja se tornar uma pessoa melhor?

Rinpoche: Cada um deve serguir o seu próprio método, seguir os ensinamentos da tradição que está ligado, manter a prática daquela tradição. E se a pessoa mantêm o método, de maneira pura, vai gerar benefícios para si e para outros. Não se esquecer de manter um bom coração, sempre procurar ajudar as outras pessoas. Importante também é nunca criticar as outras tradições, mas sempre manter um respeito muito grande, procurando ajudar as pessoas de outras tradições. As diferentes tradições religiosas são como as diferentes medicinas que existem. Há muitos doentes, e cada doente encontra ajuda numa determinada medicina. Tem gente que encontra ajuda na alopatia etc. E quem não tem nenhuma prática espiritual deve entender que a causa do sofrimento e das dificuldades são os pensamentos e as ações negativas.

Se você toma veneno, você vai adoecer. Se você causa mal a alguém, se você reage a alguém de forma negativa, você vai sofrer o mesmo mal. Sabendo disso, mesmo que você não tenha uma prática espiritual, evite causar mal a outra pessoa. Tenha sempre uma intenção boa, de querer beneficiar, de querer ajuda. Minha tradição é o budismo, e eu respeito todas as outras tradições. Muitas vezes sou procurado por pessoas decepcionadas com a suas tradição, e o que eu faço é levá-las a reconhecer o valor dessas tradições.

Se você é budista, não significa que o Buda vai pegar você pela mão e tirar do sofrimento; a mesma coisa se você é cristão — não significa que um deus vai fazer tudo por você. É necessário que você faça alguma coisa. O alívio do sofrimento e das dificuldades só vai acontecer quando você desenvolver qualidades positivas e virtudes. Aí você vai perceber o benefício.

E Rinpoche termina com um convite:

O Centro Chagdud Khadro Ling, em Três Coroas, RS, está recebendo pessoas para dar aconselhamento espiritual. Práticas relacionadas à cura e longevidade, com cerimônias que começarão no novo templo que acabou de ser construído no Brasil.