Sobre o fim do ano.

Eu acreditei em Papai Noel até lá pelos meus 8 anos, quando eu comecei a desconfiar dos embrulhos mal-feitos e das cenas montadas para parecer que um velhinho de trenó tinha me deixado presentes. O conceito de “boa menina, menina comportada” nunca foi muito usado aqui em casa. Nunca fizeram nenhuma chantagem do tipo “só vai ganhar presente se se comportar o ano inteiro”, nem nada; eu escolhia o presente, meus pais avisariam o Papai Noel o que eu queria, e o Papai Noel ia me trazer o presente, faltando pra meia-noite do dia 24 pro dia 25. Eu, como boa menina, iria caçar os presentes no quintal, tentar ver o bom velhinho fugir da minha casa, depois pegar os presentes, colocar debaixo da árvore que ficava montada na sala, e esperar até a virada de um dia para o outro para cumprimentar as pessoas e abrir os presentes.

Mesmo depois que eu já sabia da não-existência do Papai Noel, ainda continuei enganando meus pais por alguns anos, porque pra eles era legal toda essa magia e fantasia. Um belo dia, numa Páscoa, eles descobriram que eu não acreditava mais em Coelhinho que trazia os ovos de chocolate, e foi a brecha pra eu contr que também não acreditava mais em Papai Noel.

Desde então, minha vida mudou, muito. Toda a magia ao ver um velhinho barbudo vestido de vermelho se perdeu, porque eu sabia que era só um senhorzinho qualquer, fantasiado pra agradar as crianças que iam lá pedir presentes. Eu também, desacreditada, parei de achar que a cor da roupa influencia o que vai acontecer comigo nos próximos 365 dias. Nunca mais tive aquela coisa de usar roupa nova, branca, ou comer lentilha, romã, e essas superstições que parecem coisa de vó.

Não acreditar nesse tipo de coisa talvez me tenha feito uma pessoa menos feliz. Era tudo tão mais fácil quando eu acreditava em Papai Noel, ou que a Paz Mundial viria se todo mundo usasse branco na virada do ano (naquela época eu nem sabia que as pessoas comemoravam a virada em horas diferentes, acho). Acho que era nessa mesma época que eu sonhava em namorar o Junior, ou em ser guitarrista duma banda de rock famosa, mesmo sem saber tocar uma nota sequer. Também sonhava em ser uma jornalista famosa, e que com 25 anos eu já estaria trabalhando no The New York Times, rica e bem-sucedida. Claramente, nada disso aconteceu; mas sonhar foi muito bom.

Acho que isso foi a principal coisa que mudou em mim, nesses tantos anos pra cá. Sonhar. Eu sonho cada vez mais baixo, porque sonhar as vezes deixa uma frustração quando o sonho não se realiza. Só fico planejando coisas próximas, possíveis de realizar, não tão difíceis assim de conseguir. E vamo combinar, é chato pra caralho voar sem tirar tanto assim o pé do chão.

Por isso, a minha única resolução pra 2016 vai ser essa: sonhar mais, sonhar mais longe. Mesmo que não se realize, mesmo que eu me frustre no caminho, mesmo que meu sonho pareça uma coisa tosca e boba (porque muitas vezes ele realmente é tosco e bobo). Sonhar, pra tentar realizar. Parar de aceitar as coisas do jeito que elas são. Voltar a fantasiar com um velhinho voando num trenó, ou um coelho entregando ovos de chocolate. Voltar a sonhar com uma ida a Paris, Disney, ou só na próxima viagem pra São Paulo mesmo. Sonhar, pra tirar os pés do chão, cada vez mais. É só isso que eu quero pra 2016. Voar.

E pra todo mundo, uma boa virada de ano (seja ela no mesmo horário que a minha, talvez umas horas antes ou depois), e que o próximo ano seja do jeito que vocês sonharem (seja esse jeito como for) =)