Eleições destruíram você e a santa família

Frase motivacional em frente ao meu colégio eleitoral. Jaraguá.

Era domingo, dia 28, e segundo turno para presidente e governador. Acordei tarde, havia saído no sábado (não bebi muito) e estava cansado, mas não foi isso que trouxe um sentimento pesado ao dia que começara. Logo ao acordar, vi o céu nublado, silêncio na rua e pouco movimento, o primeiro pensamento que borbulhou em mente foi: “Caralho, é hoje!”

Não foi esperança, não foi ansiedade e não foi apreensão. O que eu senti na manhã de domingo era desejo de que tudo aquilo acabasse logo. Todo aquele aura pesada que acompanhou muitos de nós nesses longos meses que antecederam esse dia. Sou cético demais para pedir algo a Deus, mas naquele domingo me vi reclamando diversas vezes o nome dele. “MEU DEUS ACABA LOGO COM ESSA MERDA!”

Senti que queria estar sozinho, com minha companhia. Até aí, nenhuma novidade. Em dias de votação, é comum que minha casa faça disso um evento e que todos rumássemos juntos para os respectivos cartórios eleitorais. Meu pai dirigindo, e a família no banco de trás, foi assim em 2014, único outro momento que me veio à mente agora. Mas no domingo, nesse domingo, pensar em seguir esse roteiro era demais para mim.

Sem muita conversa, disse que iria sozinho à votação e não iria encontra-los depois. Era aniversário de um tio e toda família estaria lá. Eu não queria isso.

Dias antes do domingo, discuti com meu pai sobre os meus porquês de rechaçar tanto o candidato Asno, na intenção de entender os motivos para ele pender para o lado retrógrado dessa disputa eleitoral. Não foi nada produtivo. Em algum lugar li que a ironia é a arma dos ignorantes. Fake News? Seria essa a dádiva que me assombra? Logo eu, que sempre escondi o que sinto através de ironia. Mas naquela discussão, quem saiu perdendo fui eu. Cada argumento foi contrariado pelo discurso que você está cansado de ouvir. Ironia, raiva e ignorância, que combinados levaram o Asno ao status que possui hoje. Poucas vezes entrei em consenso com meu pai e essa foi mais uma tentativa sem sucesso.

28 de outubro, esperei que a casa estivesse vazia para me arrumar de vermelho e sair rumo ao meu colégio eleitoral. Algo começou a mudar. Não consigo explicar o bem que me consome ao pisar no bairro do Jaraguá, foram anos reclamando da ineficiência do transporte (principalmente) mas é a simplicidade que me faz amar aquele lugar. A visão do Pico alimenta lembranças e a doideira nos mais de 15 anos morando ali, inevitável. Logo quando chego me deparo com o bar cheio, churrasco e o forró comendo solto. É isto.

Entrando em minha seção eleitoral, confesso que torci para não ser tão rápido, para aproveitar o fato de estar ali, mas não havia filas. Votei nervoso, fechei os olhos e foi. 13 e confirma. E Nunca tive esperança de vitória.

Depois do papel como cidadão ser cumprido, senti que precisava tirar de dentro de mim toda a tensão desses meses difíceis. E pasmem , Jesus é maravilhoso (rs). Show do Dead Fish, de graça, no Carioca.

Fui em direção à Faria Lima pensando bastante nos males que a coroação do Asno traria, pensei no meu professor de história, que não cansou de me explicar os porquês de tantas atrocidades que os anos de chumbo trouxeram ao país e de como aquilo me afetou desde pequeno, uma dos poucos conteúdos que interessavam ao Pedro com 12 anos de idade. Pensei na Araceli, pensei no Herzog, pensei em censura, pensei na minha família do interior de Vitória da Conquista. É como se tudo se misturasse e brotasse em 2018. Foi agonizante. Sempre que meus pensamentos passeiam pela fisionomia de Carlos Alberto Brilhante Ustra é tortuoso. E o Asno o traz de volta em seu sorriso.

Encontrei Vinícius Meira e fomos beber, me recuso a passar por tudo isso de cara limpa. Em meio a cervejas e batatas, discutimos sobre essa falta de esperança, sobre evitar Luiz Boça — 45 em nosso estado, sobre música. Conseguimos deixar a apreensão pelos resultados um pouco de lado, só um pouco.

Entrar no show minutos antes das 19h, horário revelador do caos, foi a melhor coisa que fiz. Soube da boca de Rodrigo Lima que era momento para termos força contra a intolerância e o medo. Botei para fora o sentimento de ineficiência, o rancor. Cantei, gritei, pulei. As marcas desse domingo ainda estão no corpo. Mas não deixei tudo naquela noite.

Fui consumido pelo ódio que o show não fora expelido. Tomou conta. E a rede social foi o gatilho para extravasar.

Não costumo ler ou dar atenção para o que os membros da minha família compartilham no Facebook. Mas, como marca dessa eleição, tivemos inúmeros motivos para querer a cabeça do Markinho Zuck. A onda conservadora evangélica foi explanada com força pela família, com o poder desenfreado para EnViAr MeNtIrAs. Bateram palma para MBL, abusaram de imagens porcas fora de contexto para defender o Asno, entre outros. A gota d’água foi a imagem de um bebê TEORICAMENTE batendo continência ao Capitão. Compartilhado pela tia evangélica, pobre, que sempre se mostrou isenta de lados e a favor de um Brasil justo em discussões políticas. Mas que, como muitos, embasados pelos discursos daquele homem, mostrou a pior face.

Infelizmente com tempo livre na viagem para casa, acabei entrando no tópico aborto e doutrinação de líderes da igreja sobre os fiéis. Ignorância minha, por achar que iria espremer algo de útil, ignorância minha por tratar de um assunto delicado com uma mulher, não remete a mim. E juro que não continha ironia em nada do que escrevi naquele dia.

Nunca houve atrito com a família, nunca precisei impor pensamentos contrários e não tive que evita-los. Naquele domingo, a palavra parentesco se tornou híbrida cheia de outras vertentes. Sou apoiador assíduo de uma relação próxima (não demais) e saudável com aquela parte da família que agrega o almoço de domingo, e cheguei a criticar quem não se esforça para tal. Muito pela criação que tive. Mas não posso relativizar certos discursos que ofendem e são totalmente contrários aos que eu acredito. Toda família tem aquele integrante hipócrita, que faz sem pestanejar o que vive dizendo para você não fazer. Quando adolescente, todos da família te soavam assim. Temos também o impostor, que vende uma vida pela qual queria viver, mas não a tem. O invejoso, que não consegue ver uma mísera conquista alheia para desmerecer ou sobrepor defeitos. E temos o imoral — o meu preferido — que demonstra muita classe e conhecimento, que prega boas atitudes, está sempre lutando pelo melhor da família, é preocupado com você. O imoral em seu íntimo é ganancioso, prepotente, orgulhoso. Branda amor mas cospe execração.

Varia da convivência, mas não são necessárias muitas feijoadas na casa da avó para detectarmos quem são os familiares com essas características. O triunfo é que agora ficou extremamente simples achá-los graças ao período eleitoral. E você não é obrigado a cultivar isso.

Os laços interpessoais se constroem de diversas maneiras e esse texto não é sobre criar afeto com alguém, estou falando o contrário. Aquele 28 de outubro abriu as portas para que anulemos o discurso do “família é sangue” que a religião sempre ensinou. Família é bem, partilha e progresso. Sangue todo mundo tem. Corre nas veias também do seu amigo que não largou sua mão nesses momentos sombrios. Espero que esses tempos nebulosos tenham nos dado discernimento para distinguir a diferença entre ignorância e fascismo. Diante disso, nos guiar na formação das famílias de luta.