o chicote‏ do pastor

luto pelo capital quase que honestamente
o vinho que eu tomo é barato e satânico
só uso para me embriagar
bebo no pensar de fingir ser poeta 
mas me pego em casa sozinho com birra do mundo 
nada me alucina e sempre reclamo da qualidade dos tóxicos

“é falta de piroca” — dizem os melhores amigos

além disso
o chicote do mundo é a ressaca
ressaca que não me abandona mais

mas além desse chicote
o sol tem rachado a minha cara e oxidado o meu corpo 
são queimaduras quase imperceptíveis e constantes
devo estar me decompondo

à noite 
um calor infernal é abafado pelo bater de asas dos insetos
que morrem nas hélices do meu velho ventilador
será que mais ardência na vida devo ver no final? 

- sim, claro — diz o padre o pastor o buda sincero

sinceramente deixo claro sem pretensões
as falanges do mal pintam quadros lindamente bem
e o diabo é o pai do melhor estilo

o que todo mundo sabe
é que aqui o chicote é acessório sexual 
e a zombaria vira diversão 
(grandes festas no Rio de Janeiro)

e quando estiver ardendo 
passe pasta de dente, diz a minha mãe

mas agora de manhã 
quando o interessado na vida acorda
fica tentando ouvir o canto dos pássaros 
mas não sente magia o suficiente 
não tem os ouvidos comprometidos em ouvir
sofre perturbação total nas tentativas
começa a ouvir rápido uma grande multidão vindo de longe
falam do dia a dia e de toda uma discussão acerca do viver comprar morrer
e o dia começa sem mostrar a quilometragem 
rumo ao lance de dormir novamente

bate desespero

dai acorda para saber que dorme e nasce para saber que morre

mas graças a deus ele se esquece disso sempre

alguém pensa tudo isso e ainda se esquece
e ainda se vai sem plena atenção
graças a deus

mais fácil seria levantar da cama e correr pela rua 
anunciando alguma libertação para a alma humana 
(temos várias opções)

mas voltemos a deitar pois o sono é mais interessante
e programe coragens entre 5:30, 6:20 e 7:30 (adore despertadores) 
três horários para três ocasiões diferentes de cada manhã

a primeira é a coragem da qual os sonhos ainda estão no desacelerar da turbulência e vindo à tona como se fossem realidades, nesse não há presente como propriamente dito e as coisas que surgem estão dentro e fora, se misturam como coquetéis no corpo mental;

a segunda coragem chega às seis e vinte 
quando pensa exatamente se a vida é o que quer 
mas isso não é tão importante;

e tem a terceira puta coragem 
da qual levanta rapidamente para encarar o sol quente 
que racha a cara logo em frente ao portão
nessa não se tem escolha
a trindade temporal fala por si só
graças a deus novamente

e ainda sobra tempo para dar um sorriso e responder o bom dia da vizinha
que bem provável não aceitar o tempo como finalidade da morte

queria muito ajudar
mas então fui trabalhar
dia normal como sempre
dia honesto