
#1
Horácio
Ele era o tipo de homem que não gostava de esperar. Antes de adormecer calculava me-ti-cu-lo-sa-men-te o tempo que ia precisar para se aprumar, cinco minutos para tomar banho, três para vestir e oito minutos e doze segundos para tomar o pequeno almoço, caso não tivesse de lavar a loiça. Só então, depois das contas bem feitas “guardava” o alarme que lhe dizia com precisão de um relógio suíço, apesar de ser um smartphone coreano, as horas e minutos que tinha para dormir.
Era a razão pela qual adormecia sempre com um sorriso nos lábios.
Já com a porta da rua aberta perdia vinte e dois segundos para confirmar que não se esquecia nem das chaves nem da carteira. Sabia de cor as horas dos transportes por isso acertava o seu passo de modo a chegar à estação ao mesmo tempo que o comboio, assim nenhum dos dois esperava, era um acordo silêncioso de “Gentlemen’s”. Por vezes sentia que controlava o tempo e na verdade controlava, nem que fosse somente o seu.
No pulso tinha um relógio suíço, não um daqueles caríssimos mas um dos simples e no qual depositava toda a confiança do mundo. Era um relógio que nunca se atrasava um segundo, nem quando a pilha já fraquejava, pois sabia que se isso acontecesse, seria imediatamente trocado por um novo. Ele e o relógio tinham uma relação mais intensa que muitos amantes, ao longo do dia perdiam a conta aos olhares que trocavam, olhares esses que diziam tudo o que era preciso, sem que fosse necessário dar voz a uma palavra dele, ou a um tic-tac dos ponteiros do relógio.
No escritório tinham feito desaparecer a máquina de picar o ponto o que o deixava profundamente triste, aquela máquina era das poucas coisas que ele gostava na pequena fábrica de embalagens.
- “Estamos a modernizar-nos, isto vai fazer aumentar a produtividade”- Foi o que lhe disseram, agora tinha de passar o dedo numa engenhoca qualquer toda moderna que lhe reconhecia a impressão digital, que mais parecia saída de um daqueles filmes de ficção cientifica.
Uma máquina que se o conhecesse minimamente tinha a dignidade de lhe dizer as horas a que entrava e saía do trabalho. Tudo o que esta modernice tinha aumentado era o tempo que ele demorava da porta à linha de produção, o que fez com que tivesse de reajustar a velocidade do seu passo a caminho dos transportes.
Na volta a casa ia sempre de metro, não porque fosse mais perto ou mais cómodo, mas porque àquela hora era o único transporte que estava em sincronia com o seu horário.
Trinta e três minutos e quinze.. dezasseis segundos depois abria a porta de sua casa.
Lá andava ela a passear-se de um lado para o outro. Ela era a mulher que experimentava todas as peças que tinha no guarda roupa apenas para ir ao fundo da rua comer uma fatia de pizza e que no final, acabava sempre por levar no corpo o primeiro vestido que tinha experimentado.
Ela gostava de o fazer esperar.
Ela não vivia no tempo dele.
Ele por ela tirava a pilha do relógio.